A ignorância é audaciosa, dizem. Tudo quer, tudo pensa saber, tudo pode. Uma vez instalada no poder, tudo faz para se perpetuar e se expandir, fincando raízes nas consciências incautas e nos espíritos débeis, desguarnecidos dos verdadeiros valores morais.

Santo Agostinho em suas Confissões, ao refletir sobre o Tempo, deixou-nos um pensamento que evidência a angústia de quem busca a Verdade: “Ai de mim, que nem ao menos sei o que ignoro!” Esta reflexão pode, perfeitamente, se aplicar a outras situações e problemas que afetam o Homem sem, contudo, perder a sua essência e profundidade. É um gesto de verdadeira humildade diante dos mistérios insondáveis da existência. Também é uma atitude sensata de quem não abdica do sagrado direito de pensar com inteligência e liberdade.

Em entrevista ao programa “Canal Livre” da TV Bandeirantes, em 1981, o líder sindical Luís Inácio Lula da Silva disse, em alto e bom som que “é muito preguiçoso; até pra ler é preguiçoso.” E acrescentou: “Eu não gosto de ler, eu tenho preguiça de ler.” Anos depois, o líder sindicalista seria eleito Presidente da República para dois mandatos, elegendo a sua sucessora. O que se viu depois, foi a glamourização da ignorância e a apologia do “não saber”, apregoada em todo canto desse imenso Brasil.

Para conduzir o gado bastam um vaqueiro, um cavalo e um grito. E assim, fomos tangidos para o curral do nosso comodismo, marcados a ferro e fogo, para depois seguir o caminho que leva ao matadouro. Mataram, primeiramente as nossas esperanças; depois, nossa dignidade, para, enfim, nos matar de vergonha por tantos descalabros cometidos em nome da ganância e do oportunismo, praticados por uns poucos e desalmados homens. Esse espírito de manada que se abateu sobre o povo brasileiro já começa a dar sinais de cansaço. As consciências adormecidas, pouco a pouco despertam e se dão conta do cenário teratológico em que nos encontramos e, com esforço, lutam para encontrar uma saída. Mesmo com o risco de “apagão”, há luz no fim do túnel. Busquemos a luz!

E o que fazem os Homens Livres e de Bons Costumes em nossas Lojas?
A fase da Maçonaria Especulativa, a partir de 1717, levou às Lojas as grandes questões filosóficas, as ideias humanísticas e a investigação constante da Verdade. Homens de escolas nos legaram sublimes ensinamentos das Antigas Sabedorias, perpetuados em nossos Rituais. São imorredouras lições que atravessam os séculos, iluminando o caminho dos Homens sem, no entanto, perder a atualidade e a relevância. Um desses ensinos nos esclarece acerca da nossa obrigação e do nosso objetivo como Maçons, razão pela qual nos reunimos em Loja: combater a ignorância. Esse combate se dá a todo instante, dentro e fora dos Templos, com as luzes do conhecimento adquiridas no saudável hábito da leitura que instrui, nas palestras relevantes, nos filmes de conteúdo, nas conversas edificantes. Não basta apenas a vontade de querer ocupar os cargos que a Maçonaria dispõe. É preciso que esta vontade se estenda à aquisição de conhecimento, experiência, discernimento e, acima de tudo, humildade para aprender com os Irmãos mais tarimbados na Arte Real. Estes fatores, quando aplicados em conjunto, garantem aos detentores de cargos a segurança para seguirem o roteiro sem percalços; a união dos Irmãos em torno de objetivos comuns e a harmonia da Loja, para superar os obstáculos naturais do caminho. O combate à ignorância, em Maçonaria, clareia o espírito e afasta o erro, pelo que preserva o Maçom de ações impensadas com consequências danosas para a Ordem em geral e para o quadro, em particular.
Três maus Companheiros, assassinos do Mestre Hiram Abiff, são a personificação de três males que sempre nos afligem e que são estorvos para os progressos que visamos alcançar na Maçonaria: Ignorância, Mentira e Ambição. O que nos compete é o trabalho de cavar masmorras a esses vícios da alma, suplantando-os e subjugando-os com a inteligência e a vontade firme e inabalável.

Certa vez, conversando com um Irmão que estava Venerável Mestre de uma Loja, tive a oportunidade de ouvir uma sábia lição que ele, por sua vez, ouviu de outro Irmão que havia passado pelo Trono de Salomão. Assim falou: “O Venerável Mestre que toma decisões por conta própria, invariavelmente vai errar, e fatalmente ficará sozinho. As decisões importantes são tomadas em Loja aberta, onde são divididas as responsabilidades com todos os Irmãos.” Meditei bastante sobre este ensinamento e concluí que a Maçonaria está assentada em três princípios fundamentais que são: a Fraternidade na base, a Liberdade e a Igualdade, fechando o vórtice do triângulo equilátero. Nenhum desses princípios poderá faltar à nossa Ordem, sob pena de prejuízos incalculáveis. É pelo princípio da Igualdade que as decisões importantes são tomadas com todos os Irmãos em Loja aberta. Tal é a atitude do Mestre Maçom que compreendeu de verdade o alerta esclarecedor do Livro da Lei, contido em Eclesiastes, capítulo 12, versículos 7 e 8: “Vaidade de vaidades, diz o pregador, tudo é vaidade”.

Finalizamos com o lema latino Sapere aude, ouse saber, citado originalmente nos versos do poeta Horácio: “Aquele que começou está na metade da obra: ouse saber”, cujo emprego da frase ficou mais conhecido no ensaio “O que é o esclarecimento” do maçom e filósofo alemão Immanuel Kant.
Portanto, diante da ignorância, ouse saber.

Sobre o Autor

ARLS Caridade II nº 0135 GOB/PI Oriente de Teresina

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