06:00h. O despertador do telefone celular dispara um som insistente e monótono. O Irmão desperta e ouve também o canto distante de um galo. “Quem é que ainda cria galo na cidade, numa época dessas?” Pensou, antes de fazer sua oração matinal. Levantou-se e foi ao banheiro tomar banho e escovar os dentes.

06:15h. A Cunhada já havia preparado os Sobrinhos, que o esperavam para ir para a escola. O Irmão tomou rapidamente o café, fez mentalmente o percurso, escolhendo as ruas que tivessem menos tráfego. Teresina possuía muitos automóveis e motocicletas, o trânsito não era o mesmo de dez anos atrás. Apesar de a escola ficar relativamente próxima de sua casa, era melhor decidir pelo percurso menos congestionado de veículos.

06:30h. Devia ter acontecido algum acidente porque a fila de automóveis não andava. Alguns motoristas, irritados, começavam a buzinar freneticamente; outros, xingavam o prefeito, o governador, a presidente e suas respectivas mães. O Irmão mantinha a calma e o bom humor porque sabia que aquela situação era passageira e, também, não queria dar mau exemplo aos filhos, que estavam no banco de trás. Ligou o rádio e sintonizou numa emissora que só tocava músicas de qualidade. Ao som de Royal Garden Blues, de Duke Ellington, o Irmão tamborilava no painel do automóvel, enquanto viajava nos acordes do piano de The Duke: “Esse brother toca muito bem!” Pensou, satisfeito. Alguns motoristas mais impacientes pegavam um atalho, subindo no passeio público central; outros, iam pela contramão. O Irmão esperava a sua vez de passar – fato que nem demorou tanto porque a fila já se movia lentamente.

07:10h. Chegavam à escola. Parou o automóvel no local apropriado e deu um beijo de despedida nos Sobrinhos. Certificou-se de que atravessariam a rua em segurança e adentrassem a escola e, por fim, seguiu para a repartição.

07:25h. O Irmão chega à repartição e demora um pouco para encontrar vaga no estacionamento. Um flanelinha lhe indica uma vaga para idosos, “que todo mundo usa”, mas ele recusa com um sorriso de compreensão. Falei compreensão?! Não, ele não compreendia como as pessoas podiam ser tão insensíveis e como se desrespeitava tanto os direitos alheios nesse País. Enfim, foi para a sua sala porque já estava quase no limite do tempo de tolerância. De sua mesa, observava os colegas de trabalho conectados nas redes sociais dos telefones móveis ou nos computadores da repartição, vendo os sites de notícias ou de fofocas. Desta vez, não teve sorriso de compreensão. Limitou-se a menear a cabeça negativamente, deu de ombros e mergulhou com gosto no trabalho que lhe competia.

11:33h. O expediente da manhã já havia encerrado há três minutos. Absorto em suas tarefas, nem viu o tempo passar. Considerava-se um privilegiado por trabalhar naquilo que amava. Durante a sua vida de estudante, nunca pensou em uma profissão que fosse apenas rentável financeiramente ou que lhe proporcionasse status social. Fazia o que gostava e ainda recebia dinheiro por isto! “Não tem coisa melhor!” Pensou. Ao chegar em casa, o aroma de comida abriu-lhe mais ainda o apetite. A Cunhada havia pego as crianças na escola e todos o aguardavam para almoçarem juntos. Depois de tomar banho, sentou-se à mesa com a família, fez uma prece de agradecimento ao GADU e comeram com satisfação, ao tempo em que cada um contava o que lhes acontecera de interessante durante a manhã.

13:20h. O Irmão dirige-se à repartição para o expediente da tarde. O telefone móvel toca. Ele não atende, pois está dirigindo. O telefone toca novamente. Como já estava chegando ao estacionamento, deixa que toque até desligar, pois retornaria a ligação. Ligou de volta. Era o Irmão Hospitaleiro, aflito, que pedia ajuda para outro Irmão necessitado. Prontificou-se imediatamente a ajudar e disse que conversaria pessoalmente com o Irmão, à noite, na sessão da Loja. Na oportunidade, já levaria uma solução para o problema.

14:00h. De sua mesa, observava os colegas ligados nas redes sociais. “Tem coisas que demoram a mudar, ou não mudam nunca”, refletiu.

18:00h. Fim do expediente. Após despedir-se dos colegas de trabalho, o Irmão passa na casa dos pais para certificar-se de que tudo corria bem e se não estavam precisando de alguma coisa. Ao chegar, toma a bênção à mãe, que se encontrava chateada por causa do sumiço de um colar de ouro, uma herança familiar. A mãe conta-lhe que desconfia da empregada, acusa-a de ladra, e pede ao filho que a denuncie à polícia. O Irmão pede calma à mãe e diz que vai tentar resolver a situação da melhor maneira possível. “Nunca é bom julgar os outros precipitadamente”, enfatizou. E prosseguiu: “Geralmente cometemos injustiças quando acusamos sem provas. Não devemos tomar decisões guiados apenas pela emoção. Nessas horas, convém cautela e prudência”. Dirige-se, então, para a cozinha e conversa com a empregada, uma mulher robusta, olhar vivo e largo sorriso, revelando dentes impecavelmente brancos, que trabalhava para os pais há vinte anos. Com muito tato e delicadeza fala do sumiço do colar de ouro. Depois de algum tempo, fica convencido da inocência da mulher e passa a procurar pela casa. Com surpresa, encontra o colar entre a velha cristaleira e o buffet de mogno. Entrega o colar para a mãe, dizendo-lhe para tomar cuidado com as suas coisas. A velha senhora apenas diz, suspirando: “Graças a Deus!”

19:00h. Já em casa, apressa-se para tomar banho e vestir-se para ir à sessão na Loja. Despede-se dos filhos com um beijo e segue caminho com a esposa, que já se encontrava vestida para a ocasião.

19:27h. Chega ao Templo. Depois de conversar animadamente com os Irmãos, discretamente, procura o Irmão Hospitaleiro que estava lhe pedindo ajuda e leva uma solução para o problema.

20:00h. Tem início a sessão, pontualmente.

21:33h. Termina a sessão e é servido o banquete, em meio ao burburinho alegre dos Irmãos, Cunhadas e Sobrinhos. “Como é bom estar entre os Irmãos”, pensou.

00:00h. Já em casa, o nosso Irmão prepara-se para dormir. Deitado na cama, refaz mentalmente todos os acontecimentos do dia e concluiu que foi um bom dia, pois não prejudicou ninguém, ajudou quem precisava, cumpriu suas obrigações e, acima de tudo, não fez nenhuma coisa para se arrepender depois.

Um dia Justo e Perfeito. Mais um dia do Maçom.

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