03 de agosto de 2013

Inicialmente, agradeço ao Soberano Supremo Conselho o convite formulado através de nosso Delegado Litúrgico, — o Pod∴ Ir∴ Emílio Sanches Dimitrof, — para falar, nesta Sessão Magna, em nome dos IIr∴ recipiendários pertencentes ao Consistório Nº 2,  ao clima da cidade de São Paulo, — presidido pelo Ir∴ Fernando Lopes David, — aos quais peço a complacência de sua aquiescência.

Para todos os recipiendários que aqui estamos, esta solenidade é indubitavelmente a coroação de anos de caminhada pela senda maçônica, cada qual com sua visão da Maçonaria, criada pela percepção de cada um em seu tempo, cada um a seu modo, ao trabalhar sua pedra bruta e fazê-la cúbica.

Essa diversidade de compreensões certamente também decorre da forma pela qual se interprete o surgimento de nossa Ordem, quer através de uma abordagem mítica, lendária, — para situá-la mais remotamente na Jerusalém de Salomão, — quer, por meio do estudo da História, — sustentada em fatos comprovados, — para tê-la como surgida na Escócia, ou institucionalizada na Inglaterra de 1717, livre de qualquer vínculo político e religioso.

Da mesma forma poder-se-ia também indagar sobre a origem de nosso Rito Escocês Antigo e Aceito, que certamente se esboçou na França, ainda hoje se pesquisando sobre qual a influência, sobre ele, da Casa Real Escocêsa dos Stuarts, quando refugiada em Saint Germain-en-Laye, nos arredores da Paris de Luiz XIV, ou se teria atendido a exigências de seu próprio tempo, para melhor podermos aferir o sucesso atingido com sua projeção para um futuro que hoje nos alcança e se lança para além de nós.

Obviamente, este não é o momento para a penetração de tais indagações, tendo-se em conta a finalidade desta solenidade e o significado concreto que o tempo e a própria experiência maçônica vieram conferir ao conteúdo relevante e à permanente atualidade de nosso Rito, bem como à sua observância.

Com efeito, como ele foi concebido e hoje se apresenta, é o desdobramento lógico e o aprofundamento filosófico dos três GGr∴ Simbólicos, que são seus alicerces.

Como todos sabemos, seus vários GGr∴, — pressupondo e resguardando a opção religiosa e política de cada um, — instruem o Maçom com sinais, toques e palavras, guardando os princípios da Maçonaria Simbólica, aos quais acrescenta  ilustrações alegóricas e de aplicação atemporal,  abordando os valores perenes e universais, que instruem e fazem o homem afinado com sua natureza e sua realidade como indivíduo, como chefe ou membro de família, como profissional, como cidadão, motivando-o a agir não com violência,  mas com a sabedoria dos filósofos que construíram o pensamento humanista e a coragem e firmeza dos cavaleiros, — guerreiros de antigamente, — antes fazendo da tolerância o veículo de sua ação no mundo profano e, notadamente, da fraternidade entre os próprios IIr∴, para que a cizânia e o confronto não medrem entre nós, a fim de podermos pensar e atuar de forma convergente e eficaz, quer pessoal, quer institucionalmente.

A formação maçônica propiciada por nosso Rito já se comprovou historicamente rica de conteúdo, eficiente na ação e vitoriosa em seus resultados, tendo-se em conta que, — dentre outros sucessos, — muito contribuiu para a pacificação político-religiosa da Inglaterra, foi determinante na inédita e inegável primazia da Independência Norte-Americana, ao implantar a primeira democracia constitucional e a disseminação quase mundial desta última, propiciada pela Revolução Francesa, assim como para a concretização de nossa própria Independência, da Abolição da Escravatura, da Proclamação da República.

Esses foram marcos da História Mundial e da própria História do Brasil, que se constituíram em verdadeiros marcos sinalizadores de novos rumos para todo o Mundo e para a nossa Pátria, fazendo inesquecíveis os momentos em que aconteceram, para que o significado de sua concretização não pudesse ser ignorado, nem conspurcado por acontecimentos futuros.

Essa concepção se vê bem representada no símbolo de um círculo com seu centro bem destacado, a significar que o círculo, — ou seja, a sociedade, — não existe sem seu ponto gerador, — que é o indivíduo, — que, por seu turno, ficaria perdido no mundo, se não houvesse o próprio círculo, por ele gerado, a lhe dar sentido e relevância.

Tal figura bem traduz o entendimento de uma organização social constituída de forma que todos os indivíduos, como cidadãos que se contêm naquele ponto central, — assim como várias retas passam por um ponto, como na geometria euclidiana, — participem da formação, gestão e objetivos da sociedade, como Nação constitucionalmente organizada em Estado, que, bem por isso, somente se justifica se voltado para o bem comum de todos os cidadãos.

Tudo isto se resume, bem ao estilo do simbolismo maçônico, no lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, de cujo significado tanto nos orgulhamos e do qual nos consideramos guardiões, responsáveis não por sua mera conservação, mas por lhe dar efetiva atuação entre nós e no mundo profano de nosso tempo, no qual é nosso dever atuar construtiva, determinada e discretamente, conforme o estilo maçônico.

Nos tempos que atravessamos, essa visão se impõe a todos nós, Maçons, como cidadãos responsáveis por um País que, afinal, somos nós mesmos, pois a Maçonaria não pode abdicar da força de seus valores filosóficos, morais, éticos,  filantrópicos, cívicos, políticos, — mas apartidários, — a serem exemplarmente exercidos com convicção, coragem, firmeza e tolerância maçônicas.

Mas, como no tempo daqueles acontecimentos históricos aos quais me referi, nosso tempo está a desenhar, — a meu sentir, — a possibilidade de surgimento de um novo marco, de um novo ponto de inflexão da conjuntura nacional, a exigir da Maçonaria Brasileira meditada percepção, detida interpretação  e decidida atuação.

Não podemos, por comodismo ou excesso de escrúpulos, esquecer de que somos herdeiros e responsáveis por um País que a própria Maçonaria muito contribuiu para edificar. Bem por isso, não podemos ignorar a voz clara, espontânea e pacífica do povo que foi às ruas e a vem tendo abafada e desvirtuada por arruaceiros de conveniência, para proveito dos que se servem do status quo. A Maçonaria nunca foi caudatária, mas vanguardeira.

Revendo e nos esclarecendo com a Luz da Verdade espelhada em nossos rituais, devemos nos compenetrar de que podemos e devemos melhor nos organizar e nos dispor a agir em todo os setores da sociedade, nos quais nos inserimos e atuamos, quer político, — observado seu aspecto institucional e não necessariamente partidário, — quer de saúde,   educação,  transporte, industrial, comercial, de comunicação, sindical, ou seja, que nós compreendamos o mundo e a conjuntura em que estamos vivendo e neles atuemos como os guerreiros vencedores, reunidos em suas tendas, no acampamento das batalhas enfrentadas, sem  temermos os que estão a duvidar, — ou desfazer, — de nossa filosofia, de nossos princípios, de nossos ideais e de nossos compromissos maçônicos, porque esse novo tempo, — ainda incerto, é verdade, — nos conclama a todos os IIr∴ para que, ao final desse desafio, também possamos deixar, como os que nos antecederam, um legado em que a Ordem sobrepuje o Caos.

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