Podem chamar de visão, de profecia, de loucura, ou de embriagues. Estou sóbrio quando minha mente entra em funcionamento como a moenda que nos proporciona o doce suco da cana para nos deliciarmos com seus prazeres. Então seja o que isto for para você delicie-se da maneira que achar mais conveniente, não me importo, a cana moída não esta importando se o freguês vai ou não gostar do seu suco, ela fez a sua tarefa como o soldado que não julga simplesmente obedece.

A idéia vem como um relâmpago que acerta o monstro adormecido criado por um cientista maluco em minha cabeça ele anda de um lado ao outro fazendo cálculos e injetando fluidos no monstro que ao despertar com o choque de uma magnitude divina ataca o seu criador e extermina toda a loucura de sua mente. Porem a criatura é voraz, é cruel, impiedosa, como um animal, mas não sabe o que faz. O animal-homem então toma em suas grandes mãos o seu criador que nos últimos suspiros o amaldiçoa e o joga ao mundo como uma criança criada por orangotangos.

No devaneio da experiência o animal-homem lhes fala agora o que ele viu, o que ele vê o que ele verá. Viu todas as maravilhas do mundo, desde edificações, até as grandes savanas, a água do oceano que não tem fim para o olhar do homem físico, contemplou o Sol e o adorou como um Deus, pois a tua luz era o como a luz no dia que foi lhe dado à vida. A luz do pai-Sol iluminava os seus olhos castanhos, e ele a admirava, horas e horas, e grunhia palavras que nem ele mesmo entendia, mas ele queria agradecer por tudo o que ele tinha visto, e tudo que tinha sentido, porque na sua inocência não havia o mal, e o que te cativava era a arte da natureza.

O monstro aos poucos foi ficando dócil, amigo e com os anos, sociável. Vivendo escondido e sem amigos, fugindo de todos que se pareciam com você, mas articulavam a boca que ele usava somente para comer, pois os seus grunhidos já representavam a sua gratidão para com o pai-Sol de uma maneira muito intensa, e em sua inocência sabia que o que importava era o sentimento verdadeiro das coisas.

O monstro que fugiu dos olhos dos homens, os observou, viu suas gargalhadas, viu suas felicidades, viu o beijo e um homem para com uma mulher, viu naturezas de todas maneiras se cruzarem como aberrações e grunhia nos prantos e desesperos, pois se sentia uma aberração também. Sua grande e desajeitada forma lhe custava muita energia que fazia com que nunca conseguisse ver a escuridão da noite, sempre este desabava como um prédio atacado por terroristas do próprio governo.

Então foi que sucedeu que de tanto exercitar sua cólera contra seu criador voltou à torre onde tudo começou, e lá estava ainda todos os papéis e anotações e o esquelético que já estava fedorento de tantos anos ai com seu pescoço esmigalhado pela pressão das mãos do animal-homem.

Este já era sábio o bastante para saber o que era morte. A primeira coisa que viu depois de nascer foi seu criador morrer. O matou por susto, por medo, por que era um demônio, era um ser arrependido, e a sua forma densa e sem escrúpulos só cabia em um monstro gigantesco, desajeitado. Foi ao ver os símbolos e os caracteres, os números e rabiscos, do Doutor que sua faculdade da intuição se animou.

Grunhindo, este tomou uma faca e traçava na parede de pedra do local. Sua vontade de criar era tanta que a parede cedia a sua força que era assaz grande. Formas começaram a surgir e desenhos se formar. O gigante animal agora era um letrado, um grande artista, um grande literato. Sua letra não era lá grande coisa, mas o que importa é que ele entendia.

Ah, quanta indignação estava ainda dentro de si! Talvez no coração se esse tivesse um, mas o gigante não tinha uma mente era comandado por algo muito mais poderoso. A coisa adormecida lhe foi dando a razão que precisava, e trabalhando por anos incensáveis o gigante tomou para sua casa aquele laboratório. Para cada coisa tinha um rabisco diferente. Não conversava sozinho, não era louco, ele é brilhante, a memória que já arrependida de ter vinda do inferno se sutilizava sozinho, e ao aprender tudo o que um laboratório pode oferecer o gigante saiu daquele lugar.

Ah, quão grande era esse gigante e seu espírito era muito maior! Quão doce, quão gentil foi o pai-Sol com ele, pois já sabia que lhe foi dado à condição de ser sutilizado, aprendeu a dar valor como monstro que é, e era belo tudo para ele, não se via como aberração, mas sim como obra do pai-Sol, que era misericordioso, amável e sábio com sua criação.

Vagando de cidade a cidade, de vila em vila, de continente a continente, sempre escondido, ele registrou o mundo, por anos afinco dedicou-se a fazer rabiscos na sua língua, ele e o pai-Sol entendiam aquele dialeto tão comum naquela cultura de dois seres, o homem e Deus.

Entregue então a tanta sabedoria, subiu uma grande montanha, demorou mas alcançou o cume. E lá contemplou o tempo, e só havia uma coisa que ele não conhecia, era a noite. Fraquejando seu corpo, sua vontade era como 10 mil muralhas, uma atrás da outra.

Permaneceu ali, sentado, desajeitado olhando para o pai-Sol, e o pai-Sol se avermelhou, ele contemplou, o brilho nos seus olhos tornava-se fraco, e a chama da vida se apagava. Pela primeira vez depois de sentir raiva, felicidade, tristeza e tantos mais sentimentos, o nosso gigante sentiu o medo.

A noite vinha como os minutos antes da vida que lhe foi dada pelo raio; ele começou a lembrar palavras e gargalhadas do doutor maluco que lhe deu aquela condição. Seus traços amaldiçoavam a noite e o doutor. Porém, seu espírito estremecia, e se escondia, se encolhia. O frio arrepiava os grandes pelos que tinha dentro de sua orelha; era familiar tudo aquilo para ele. Olhava e não encontrava nada no céu que confortasse seu desespero.

O sono não vinha nunca mais, o espírito lhe abandonara, e no fundo do penhasco, brotavam as mãos dos seus irmãos infernais, atrás de si estava a Lua. Ele estava muito preocupado com o abismo, demônios, carrancas, velhos, animais grotescos, e viu também quando debruçou-se sobre o chão, homens bem vestidos, mulheres graciosas e bonitas, soldados bem armados e em formações de batalha, tudo aquilo era confuso. “Ó pai-Sol estais com eles?”

E então ficou de pé e indagou ao seu pai, o pai-Sol, o seu grunhido de indignação aos quatro ventos, e quando voltou para trás de si, viu a Lua. E lembrou do seu primeiro suspiro, e os olhos abrindo contemplou ao fundo de muitas nuvens e de gotas que caiam pelo rosto a luz de sua mãe que parecia impedida de segurar o filho pelas nuvens que eram suas enfermeiras. E adorou a mãe-Lua.

Seu medo cessou, no carinho da noite de sua mãe, mandou os demônios da sua mente de volta para o inferno e percebeu que este é seu próprio inferno e que nele todo tipo de ser pode estar. Podem estar bonitos ou feios, pouco isso importa, o que importa é a ação que o mantém preso naquele cárcere de morte. Sendo assim o Gigante conheceu a última coisa que precisava, a sua Mãe. Sendo assim o gigante continuou a vagar, porém sem o gozo que um dia já teve em sua inocência. Seu trabalho estava terminado, e seu espírito demoníaco arrependido, domado e colocado às rédeas.

Pelos tempos, e eras o gigante viveu entre os homens. A lenda de que ele trás o bem, e a lenda de que ele trás o mal, no fim o ninguém sabe ao certo, pois o gigante vive enquanto o homem viver.

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