Um bibliófilo pode ser perigoso. Perigoso para os outros, para os bibliófobos, pois a maioria deles se ressente com tal ameaça, com a inteligência alheia, com o conhecimento alheio, podendo, até mesmo, temer as capacidades e talentos de que não possui.

Mas é um prazer para uma minoria – os bibliófilos! A maioria – os bibliófobos –, composta por temerosos e temerários, provavelmente tentará fazer algo para afastar os bibliófilos, os indivíduos que amam, praticam e usufruem plenamente da leitura, que gostam de pensar, que têm senso crítico e liberdade de expressão. Portanto, os indivíduos inteligentes, os bibliófilos, devem estar cientes de que sua inteligência por vezes não é bem-vinda para aqueles que sofrem de bibliofobia.

Em menor ou maior grau, os ignorantes, ou seja, os bibliófobos, também são afetados e influenciados pelo ato de ler (quando são capazes de ler alguma coisa). Muitos deles são afetados negativamente, criam um mundinho de fantasia, com idéias equivocadas, em sua mente limitada, vivem uma neurose muito pessoal, sobretudo com relação às precárias leituras de caráter dogmático restritivo e coisas do gênero; deparam-se no interior de um claustrofóbico labirinto mental, da mesma maneira que Teseu, que precisa do fio de Ariadne (a criatividade, a inspiração, a inteligência) para sair.

Mas, o verdadeiro perigo da leitura, do estudo, da aquisição do conhecimento, está em despertar as mentes inquietas e sendentas dos bibliófilos. Transmitir conhecimentos, dissipar a ignorância, esclarecer e instruir as pessoas, libertá-las dos condicionamentos, etc., sempre foram coisas que os bibliófobos não desejam.

Infelizmente, por vezes, bibliófobos privilegiados em altas posições econômicas desenvolvem cada vez mais sua fobia e sua arrogância agressivamente. Acomodam-se na ociosidade mental inerte, na ociosidade anti-filosofal e anti-criativa que muito dinheiro pode proporcionar, estorvando também a vida dos bibliófilos que querem produzir algo de valor para o mundo. E, felizmente, há muitos indivíduos assim, inteligentes, com suas obras e biografias preservadas como prova e que não foram destruídas pela bibliofobia reinante.

A maioria dos bibliófilos desenvolveram o germe latente do intelecto e da imaginação, estudaram muito, fundiram seus miolos ou simplesmente se retiraram para o verdadeiro ócio criativo, permitido somente aos verdadeiros filósofos e pensadores de vocação, aos indivíduos inspirados pelas Musas. E desses inteligentes, os bibliófobos ignorantes têm pavor, procuram proteger suas posições a ferro e fogo e mesquinhez. Afinal, tal fobia advém do próprio analfabetismo funcional que, por sua vez, tem origem na inata bibliofobia das grandes massas preguiçosas (porque “ler é chato e dói a cabeça”). Assim, tais indivíduos sentem temor e aversão por tudo aquilo que estimule a mente, a imaginação, a liberdade de expressão, de pensamento e o desenvolvimento da inteligência. Por vezes, buscam boicotar a inteligência e o conhecimento alheios registrados em livros – escritos, lidos e apreciados por bibliófilos. Um exemplo disso são as perseguições bibliófobas fundamentalistas, as repressões pela censura e a queima de livros em praças públicas.

Contudo, os bibliófobos também podem ser relativamente perigosos. Além do ódio e pavor que sentem dos livros e de seus apreciadores, ainda não sabem ler. E nisto está o maior perigo. Suas “leituras” geram a incompreensão dos textos, das idéias que são distorcidas e podem ser mal aplicadas pelo inepto que odeia ler. Um leitor bibliófobo, semi-analfabeto, é uma ameaça aos outros porque ele é capaz de causar discórdias, conflitos e estorvar a vida alheia por simples e pura incompreensão.

Mas, para a alegria dos bibliófilos, o conhecimento guarda a si mesmo, e os bibliófobos podem jamais acessá-lo, mesmo que uma preciosidade literária esteja em frente aos seus olhos “cegos” (não menos cegos do que a cegueira mental). É certo também que ninguém pode, de modo algum, queixar-se de não ter acesso à educação, à cultura, à instrução, à leitura, etc, porque existem muitas bibliotecas públicas abertas a qualquer um que queira nelas entrar, ler, estudar, levar livros para casa, de maneira gratuita! Mas aqueles que odeiam livros não querem saber!

A esta altura, o leitor, presumivelmente um bibliófilo, já deve se sentir, de alguma maneira, afetado por esta leitura. Talvez já esteja pensando sobre o “perigo” dos livros, da palavra escrita e disseminada ao redor do mundo por muitos pensadores do presente e do passado. Talvez já saiba por que muitas obras literárias, filosóficas e científicas foram proibidas ao longo da história. É porque a leitura pode nos despertar, pode nos libertar, pode nos tornar lúcidos e contestadores. Porque nos mostra que a vida pode ser muito mais do que o cotidiano insípido, enfadonho, comum e corrente dos bibliófobos! Enfim, porque simplesmente é perigoso ler! Porque é perigoso pensar! Porque é perigoso saber! Ler e aprender com inteligência é uma das maiores dádivas que nos distingue dos animais irracionais. E ainda há pessoas que se negam a isto, que odeiam livros, que odeiam estudar, que odeiam aprender coisas novas, que odeiam exercer o pensamento.

Então, que permaneçam na ignorância os bibliófobos! E que conquistem as dádivas do conhecimento os bibliófilos! Que permaneçam na limitada caverna platônica os bibliófobos! E que vejam a luz expansiva de outras realidades os bibliófilos!
Mas cuidado, leitor bibliófilo, você pode estar relativamente em perigo…

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