Sempre imaginei que na hora da minha morte passaria um filme sobre a vida que tive, ordenado cronologicamente, com os meus melhores momentos, infância, juventude, casamento, filhos, tudo isso acompanhado por uma trilha sonora carregada de emoção. Tal como um desses flashbacks que estamos acostumados a assistir no cinema. Pois é, não foi bem assim que aconteceu. O primeiro ponto a ser observado foi que, na hora de minha morte, não percebi que havia morrido. Estava lúcido. Todos os meus sentidos estavam ativos, não tinha como eu estar morto. A visão estava comprometida pela escuridão que tomava conta do lugar. O silêncio incomodava, era ensurdecedor. O tempo perdeu o sentido e, sem escolha, embarquei em uma jornada no subconsciente para entender o que estava acontecendo. Uma angústia tomou o meu peito e fez com que eu me perguntasse: Morri, e agora? É muito cedo, fiz muito pouco do que pretendia para tornar minha vida significativa.

Nesse momento lembro-me que tenho deveres para com Deus, para com a humanidade, para com a pátria, para com a família e, por último e não menos importante que os outros, tenho deveres para comigo. Pergunto-me: que lugar é esse? Cheira mofo. O ar é pesado. Tateando encontro uma vela e uma caixa de fósforos. Com a luz precária da vela identifico alguns objetos familiares, o crânio, o trigo, pão e água, migalhas espalhadas, sal, mercúrio e enxofre, um prato de cinzas, um galo e folhas de papel em branco com uma caneta. Na parede a frase “Se a curiosidade aqui te conduz, retire-se”. Não tenho medo, já estive aqui. Câmara das Reflexões. Sou tomado por um sentimento de paz inexplicável, renovo meus votos, deveres e compromissos, assino o testamento mais uma vez, respiro fundo e sigo o meu caminho para o renascimento de todos os dias. Abro os olhos, sinto-me renovado, volto ao dia em que obtive a luz.

Esse exercício de meditação é muito comum nas religiões orientais, meditar sobre a morte e a impermanência é um método de prevenção contra os males causados pelo apego, síndromes de posse, desejo, ciúmes, angustia e ansiedade. A morte simbólica, vivenciada na iniciação maçônica, é um importante método de reflexão sobre a vida. Isolando-nos do mundo, a câmara nos propicia uma introspecção profunda, uma possibilidade de olharmos para dentro e entrarmos em contato com nosso eu interior. A escuridão e o confinamento tem um pouco de sepulcro e útero, dualidade do estado intermediário entre morte e renascimento, preparação para uma nova vida. Ao fechar os olhos, todo homem se acha em sua câmara de reflexões, com asilo e trevas, isolando-se do mundo exterior e concentrando-se no seu estado íntimo.
A câmara de reflexões é uma das quatro provas que o neófito tem que passar durante a iniciação, é a prova da terra. O iniciado é simbolizado no grão de trigo plantado no solo, na escuridão da terra, para que germine e abra com o próprio esforço o caminho para luz. Assim como a semente permanece um tempo no seio da terra para germinar, o homem deve aprender a concentrar-se no silêncio da alma, isolando-se de todas as influências exteriores, e morrer para seus defeitos e imperfeições a fim de germinar e manifestar-se para a nova vida.

Qual é o motivo de termos tanto medo da morte? Não sabemos quem somos, e por isso, infelizmente, tememos por demais a morte. Acreditamos numa identidade dependente, cheia de elementos que a sustentam tais como nome, carreira, família, amigos, cartões de crédito e etc., um suporte frágil e provisório no qual apoiamos a nossa segurança. Sem tudo isso ficamos frente a frente conosco, alguém que não conhecemos, que convivemos há muito tempo, que por vezes não desejamos de fato conhecer, um estranho familiar. Segundo o monge budista Sogyal Riponche, vivemos um conto de fadas sob uma identidade presumida. Essa visão parece convincente até que a morte destrói a ilusão e nos tira desse esconderijo. Na hora da morte entramos em contato com a nossa verdadeira natureza, seja ela qual for. Quanto mais adiamos esse encontro, quanto mais o ignoramos, maior é o medo e a insegurança que surgem para nos perseguir.

Não há lugar na Terra onde a morte não nos encontre. É preciso surpreendê-la.
“Os homens vão, vêm, trotam e dançam, e nem um pio sobre a morte. Tudo parece bem com eles. Mas aí quando ela lhes chega e às suas mulheres, filhos e amigos, pegando-os de surpresa e despreparados, que tormentas de paixão os esmagam, que gritos, que fúria, que desespero!… Para começar a tirar da morte seu grande trunfo sobre nós, adotemos o caminho contrário ao usual; vamos privar a morte da sua estranheza, vamos frequentá-la, acostumarmo-nos à ela; não tenhamos nada se não ela em mente… Não sabemos onde a morte nos espera: então vamos por ela esperar em toda a parte. Praticar a morte é praticar a liberdade. Um homem que aprendeu como morrer desaprendeu a ser escravo.” (Michel de Montaigne)

Aqui deixo a reflexão para os IIr∴, sempre que possível, fechem os olhos por alguns minutos, concentrem-se na respiração e no silêncio, entrem em contato com a sua natureza interior, retornem à Câmara de Reflexões e renovem seus votos e compromissos. Se por algum momento vier o pensamento: “Morri, e agora?”, felizmente saberão o que fazer.

Bibliografia:

– RIPONCHE, Sogyal. O Livro Tibetano do Viver e do Morrer. São Paulo: Talento-Palas Athena, 12ª Edição 2013.
– ADOUM, Jorge. Grau do Aprendiz e seus Mistérios 1º Grau. São Paulo: Editora Pensamento.

Sobre o Autor

ARLS Ypiranga n° 83 GOB/SP Oriente de São Paulo

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