A portentosa obra narrada pela Bíblia como “O templo de Salomão” foi erigida no século XI a.C., no topo do Monte Moriá, na eira de Ornã, em Jerusalém, numa faixa de terra adquirida pelo rei Davi para esse fim. Este teria informado a seu filho, Salomão, que o referido templo não poderia ser edificado em outro local porque fora ali o lugar escolhido não por sua vontade, mas por inspiração divina. Ao mesmo tempo, teria dito a Salomão que ficasse encarregado de tornar realidade o seu ambicioso intento, porque ele próprio, por sua conduta (às vezes pecaminosa), sentia-se envergonhado, desonrado e indigno perante Deus, para invocá-lo, ainda que pelo mais justo motivo. Portanto, era para o Rei Davi intolerável afronta, ele que se sentia impuro, tentar uma aproximação com o Ser Supremo construindo templo em seu louvor. Deveria primeiro passar por um processo de purificação, pensava ele.

A construção teve início no segundo dia do segundo mês, no quarto ano do reinado de Salomão (II Crônicas 3;2) e prosseguiu por sete anos ininterruptos até chegar à sua conclusão final (I Reis 6; 37-38). Trabalharam na mencionada obra aproximadamente cento e cinquenta mil operários (II Crônicas 2; 2).

O grande arquiteto e artífice a quem Salomão confiou a construção do referido Templo chamava-se Hiram Abiff. Esse personagem é figura alegórica em um dos rituais maçônicos, como mestre de construção do Templo de Salomão. Seu nome (Hiram Habiff) não consta das citações bíblicas, mas em I Reis, 7;13-14, aparece um vulto (que se supõe seja ele) com o nome apenas de Hiram (ou Hirão), oriundo de Tiro, que trabalhava em bronze. Sobre obras feitas com esse material, refere-se a Hiram como homem talentoso, cheio de inteligência e habilidade. Ele morreu quando a obra ainda se encontrava em andamento, assassinado por três maus operários que trabalhavam sob suas ordens.Tornou-se um mito por ter sido ele, segundo a lenda, o responsável pela construção do primeiro grande templo de toda a história das civilizações e pela trágica forma como sua vida foi desfeita.

Hiram, pelo que consta de relatos bíblicos e históricos, nasceu na cidade de Tiro e ali residiu até se transferir para Jerusalém a fim de dar cumprimento ao pacto que houvera assumido com o Rei Salomão. Conforme já foi dito, no curso da obra que já se encontrava quase pronta teria ele sido assassinado em seu interior.

De modo confuso, a Bíblia Sagrada nos dá conta de que Hiram teria sido filho de uma mulher da tribo de Dan e de um homem tírio chamado Ur, que significa “forjador de ferro” (II Crônicas, 10), ou filho de uma viúva da tribo de Naftali (Reis I, 7;13).

Crê-se que a afirmativa mais convincente é a que consta de Reis I, Capítulo 7, versículo 13, pois a história, em seus valiosos registros, descreve que, ante a falta que a morte do famoso arquiteto do Templo fez à sua mãe, os bons operários que ali continuaram trabalhando a tomaram como a mãe de todos e passaram a se tratar como irmãos. A partir de então, igualmente, passaram a se reconhecer como “os filhos da viúva”, da mesma forma como a história da Ordem Maçônica também trata do assunto, demonstrando que o mesmo tem algo a ver, de maneira lógica, com a figura da viúva da tribo de Naftali acima citada.

O laço afetivo criado entre aquela mulher e os bons operários que trabalhavam na construção do referido templo teria sido estabelecido bem antes da morte de Hiram e não se formou por mero acaso. Lá, no enorme canteiro da obra, nos limites de aproximação permitidos, ela comparecia com frequência. O filho ia ao seu encontro acompanhado de alguns mestres. Dela recebia água e alimentos em quantidade suficiente para que ele e os que se achavam em sua companhia igualmente se servissem. Hiram era quem a sustentava. Após a sua morte, ela teria se tornado uma mulher à beira da miséria, faminta e doente, vivendo da caridade alheia, e mesmo assim, permaneceu perseverante em sua generosidade. Todos os dias, como sempre fazia, continuou indo até a orla do canteiro de obras para levar água aos operários e para dividir com eles os alimentos que houvera mendigado em sua peregrinação, de casa em casa, no dia anterior.

Acredita-se que dessa lendária narrativa derivou a alegoria da “mãe viúva de coração generoso”, representada por aquela que a todo custo, quando necessário, mesmo sem nada ter a oferecer, se esforça em amparar os filhos, tirando do pouco que lhe resta o que é possível arrancar para sustentá-los. Essa é a figura que lembra a mãe de Hiram, a viúva de coração extremamente bom que passou a ser considerada, já na época da construção do Templo de Salomão, a mãe de todos os maçons.

A partir do ano de 1.717 da nossa era, quando a maçonaria revigorou-se ainda mais, passando a ser uma instituição de forma definida, a imagem da viúva mãe de Hiram deixou de ser assim considerada para fazer-se representada por uma nova imagem, a da Loja Maçônica. Esta é, hoje, tida como a mãe de seus iniciados, concebida como viúva, carente e de coração generoso. O fato se justifica por ser das entranhas da Loja Maçônica que o homem profano, quando da sua iniciação, renasce como um novo homem, justo e perfeito, para uma nova vida, a vida maçônica.

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