Há nos relatos bíblicos, um relato de grande mistério teológico, que até hoje intriga estudiosos da religião. Este texto, reproduz o encontro de Abraão e Melquisedeque, que está relatada em Gênesis 14:18, 20 este personagem aparece e desaparece repentinamente, mas que deixa uma mensagem profunda que atravessa os tempos anunciando uma nova visão para o mundo, um discurso universal de unidade. Por volta do século XVIII a.C., Abraão veio de Ur, uma região ao sul da Mesopotâmia, para a terra de Canaã. Aí ele se estabeleceu próximo ao Vale do Jordão. Neste contexto, podemos inferir que nem o Velho e nem o Novo Testamento, nem o Alcorão não haviam sido escritos, Abraão não era nem judeu nem cristão, nem muçulmano. mas sim alguém que tinha um contato direto com a divindade e uma responsabilidade divina e é neste momento que ele é encontrado por Melquisedeque. Conta-nos assim o trecho do livro bíblico:

18: E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era este sacerdote do Deus Altíssimo. 19: E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra; 20: E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.
Como vimos neste pequeno trecho, quase desconexo do contexto da história, que Abrão (não Abrãao ainda) tendo seu sobrinho sido feito prisioneiro pelo rei Quedorlaomer e seus aliados. Abrão consegue recrutar 318 homens e acompanhado de outros Reis daquela região, entraram em guerra contra Quedorlaomer e seus aliados e os vence. Ao retornar desta batalha, aparece repentinamente este personagem que Paulo em sua epístola aos Hebreus Cap 7 nos diz:

1: Esse Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, encontrou-se com Abraão quando este voltava, depois de derrotar os reis, e o abençoou; e Abraão lhe deu o dízimo de tudo. Em primeiro lugar, seu nome (Melquisedeque) significa “Rei de Justiça”; depois, “Rei de Salém” quer dizer “Rei de Paz”. Sem pai, sem mãe, sem genealogia, sem princípio de dias nem fim de vida, feito semelhante ao Filho de Deus, ele permanece sacerdote para sempre.

Como vimos acima, aparece um Rei-Sacerdote no caminho e abençoa Abraão pela sua vitória e num ritual de consagração com pão e vinho, ele assim, confirma a promessa de Deus sobre sua descendência. A partir deste ponto, teólogos e estudiosos vão interpretar e divergir em suas análises.

A primeira proposta é a de que este personagem era rei de Salém, antiga Jerusalém (vide que a parte final do nome combina). Então era um Rei cananeu, que existia e reinava numa cidade concreta, Salém, que viria a ser Jerusalém, e que o mesmo, era sacerdote de um culto ao Deus Altíssimo (El Elyon). Então, ele tinha respaldo para abençoar. Uma das questões aqui colocadas é que, já existia um modelo de sacerdócio bem diferente do que viria a ser a dos descendentes de Abraão, que fundamentavam suas oblações no sacrifício de animais e não no pão e vinho.

A segunda interpretação é que ao analisar os personagens, verifica-se de acordo com Paulo em sua epístola que , Melk Tsedec significa Rei da Justiça e no texto, ele também e chamado de Rei de Salém, ou seja, Rei da Paz, por estas referências alguns estudiosos interpretam que seu nome verdadeiro não seria este, pois aí temos uma forma de tratamento, um título honorífico, de Rei da Justiça e Rei da Paz, em vez de um nome pessoal. Ainda argumentam que, nas escrituras é relatado um conflito entre reinos e estes foram listados sendo 5 reinos contra 4, em nenhum momento Salém foi listado entre os reinos na contenda, se Salém ficasse próximo destes reinos em conflito, com certeza teria que tomar um partido, eles aí inferem que talvez o termo “Rei de Salém” não fosse sobre o rei de uma cidade, mas sim, um dos títulos honoríficos deste Rei-Sacerdote.

Ao estudarmos um pouco de história veremos que os Jebusitas, um subgrupo cananeu, fundaram Jebus, e edificaram o primeiro muro ao seu redor, dotado de 30 torres e sete portões. Os jebuseus foram, de acordo com alguns livros da tradição judaica , uma tribo cananeia que viviam em Jebus (cidade que haviam fundado) antes da sua ocupação pelo rei Davi narrado em Crônicas 11:4

4:Mais tarde, Davi e todo o Israel foram a Jerusalém, isto é, Jebus, na região onde moravam os jebuseus. 5:Os habitantes de Jebus zombaram de Davi: “Você nunca entrará aqui!”No entanto, Davi tomou a fortaleza de Sião, que hoje é a Cidade de Davi.

Este fato também é narrado no livro de II Samuel 5:6-9; o Livro dos Reis afirma que Jerusalém era conhecida como Jebus. De acordo com certas cronologias bíblicas, a cidade foi conquistada por Davi em 1003 a.C., enquanto outras fontes dão a data como 869 a.C.. Devido à vantagem militar que possuíam e à segurança garantida pelas muralhas da cidade, ficou também conhecida por fortaleza de Sião.

Teólogos medievais atribuem a Salém o antigo nome de Jerusalém, sendo Melquisedeque, um dos seus antigos reis, Contudo, não há registros históricos científicos mas sim, textos bíblicos que por uma tradição teológica sustentada na interpretação das escrituras, busca ligar esta cidade às palavras de Jesus. Lembremos que Jesus disse conhecer Abraão e que o mesmo se alegrou com sua vinda. João 8: 55 – 59

Mas vocês nem reconhecem a Deus. Eu, sim. Se Eu falasse de outra maneira, seria um mentiroso tão grande quanto vocês! Mas é verdade – Eu conheço o Pai , a quem obedeço sempre. Abraão, pai de vocês, quando soube que Eu vinha, ficou alegre. Os líderes judaicos: “Você não tem nem cinquenta anos de idade – certo? E como viu Abraão?. Jesus: ”A pura verdade é que Eu já existia antes de Abraão nascer!” Neste ponto os líderes judaicos apanharam pedras para matar Jesus, mas Ele Se ocultou deles e deixou o Templo
Diz também que por muitas vezes quis juntar seus habitantes em sua lei, mostrando aí uma ligação histórica e divina. Matheus 23:37
“Ó Jerusalém, Jerusalém, que assassinas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes Eu quis reunir os teus filhos, como a galinha acolhe os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vós não o aceitastes!

A partir destas interpretações levantam uma proposta teológica, de que Melquisedeque seria uma Teofania, (Deus se apresentando ao homem) preparando os fundamentos de um novo sacerdócio. Um dos pontos aqui abordados é que para Melquisedeque é atribuído uma autoridade sacerdotal, sendo o sumo sacerdote de uma Ordem. O que no texto de Gênesis não é citado, contudo, é relatado pela primeira vez no livro dos Salmos no salmo 110 versículo 4.

O Senhor disse ao meu Senhor: “Senta-te à minha direita até que eu faça dos teus inimigos um estrado para os teus pés”. 4: O Senhor jurou e não se arrependerá: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a Ordem de Melquisedeque”.

Que ordem é esta que tinha como sumo sacerdote o rei da justiça e da paz? Algo nos faz pensar e refletir quais tipos de homens faziam parte desta ordem? Como funcionava?. Independente da existência ou não de Salém, ou que a mesma seja Jerusalém, o que importa é a mensagem que nos fica, uma mensagem de sacerdócio de valores elevados. Paulo em sua epístola aos Hebreus exorta que Jesus é o novo Sumo Sacerdote, mas não num tempo, mas na eternidade. Hebreus 7: 28

28: Pois a Lei constitui sumos sacerdotes a homens que têm fraquezas; mas o juramento, que veio depois da Lei, constitui o Filho, perfeito para sempre.
E este sacerdócio tem uma promessa redentora para todos os povos, não só a um povo escolhido. E esta promessa é a construção de um novo reino. Que potencialmente está dentro de nós e não num local regional específico e que este será construído na relação entre os homens a partir de valores primordiais.

A maçonaria como ordem iniciática, busca aperfeiçoar o ser humano transmitindo conhecimentos herméticos para que, instrumentalizado com estes recursos ele busque seu autoconhecimento, para transformar sua pedra bruta. E ao mesmo tempo transmitir valores perceptíveis numa sociedade carente de comportamentos elevados de altruísmo, fraternidade e união. Ou seja, modelos primordiais para uma sociedade que queira promover a justiça e paz.

A Ordem de Melquisedeque é um mistério, Os valores por ela estabelecidos estão dispostos no discurso de Jesus, que segundo Paulo assumiu o sacerdócio desta ordem para sempre. A maçonaria como ordem iniciática revive os valores deste sacerdócio em si e os transmite aos seus obreiros, numa perspectiva universal de fraternidade, união entre os irmãos independente de credo, de raça ou situação econômica, sendo estes, os construtores de uma nova sociedade que vislumbra os caminhos éticos como fundamento para um novo reino de Justiça e de Paz, em consonância com os ditames da eterna Ordem do Grande Arquiteto do Universo.

Bibliografia:
– Bíblia Sagrada – em Português
– Wikipedia.org – História de Jerusalém
– Melquisedeque ou a Tradição Primordial – Autor: Jean Tourniac Ed, Madras
– Rei do Mundo – René Guenon – Ed Ebradil

Sobre o Autor

ARLS Arca da Aliança n° 172 GLMEBA - CMSB Oriente de Salvador

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