O objetivo deste trabalho é discorrer sobre o PARAMENTA e o simbolismo inerente do fogo. Veremos mais uma vez que a Maçonaria é depositária de antiquíssimas Tradições místicas e espirituais que remontam aos primórdios de nossa atual humanidade. A Lenda de Prometeu também será aqui abordada, assim como a de Agni, deus védico.

Temos no Grau de Cavaleiro R+C a menção de que no primeiro degrau do Altar, no Oriente, repousa o “Pramanta”. Mas, o que é afinal tal objeto? Podemos supor ser uma palavra de origem sânscrita, mas, para que possamos responder a esta pergunta faz-se necessário voltarmos na história da humanidade, onde encontramos religiões unicamente baseadas em fenômenos da natureza. E, entre elas, a religião dos árias era eminentemente naturalista, pois os seus deuses não somente representavam e personificavam os fenômenos da natureza, mas também os próprios elementos do sacrifício: o fogo e os rituais que ajudam a acendê-lo e a preservá-lo nos Templos e/ou cavernas.

Tão vagos eram os deuses védicos e tantas vezes se confundiam que muitas vezes se perguntou aos estudiosos da Tradição Primordial se eles não seriam mais que adjetivos aplicados, segundo as circunstâncias, às várias manifestações de um deus único, muitas vezes personificação do fogo ou do Sol, pois são geradores de vida, calor e luz.

E não havendo imagens ou Templos nesta antiga religião, os altares eram improvisados a cada sacrifício, como na Pérsia de Zoroastro, elevando-se o fogo aos céus como oferenda dos fiéis. Praticamente todas as antigas civilizações tinham no fogo a representação na Terra da energia dos deuses e particularmente do astro-rei. Seu conhecimento de Astronomia (que naquela época se confundia como Astrologia) lhes dava a devida curiosidade para pesquisar os céus em busca da melhor explicação para o que observavam na natureza. Tampouco tinham os árias corpo sacerdotal, pois todos eram iguais, segundo muitas fontes tradicionais. Era o pai de família, o senhor da casa, o grisastha que, assistido por sua mulher, filhos e servos, celebrava os ritos e sacrifícios obrigatórios em benefício de todos. Havia, porém, pessoas exercitadas nas diversas fases do sacrifício, como compositores de hinos, etc. que, aos poucos, foram se transformando em castas de sacerdotes.

O culto védico era exclusivamente constituído pelo sacrifício do fogo, sendo celebrado todas as manhãs, ao nascer do Sol. Consistia em acender o fogo sagrado por meio da fricção de dois pedaços de madeira, depois de embebidos em soma ou manteiga clarificada, sendo tudo acompanhado de recitações ou de canto de hinos e de ofertas de cereais.

O fogo era aceso no meio de um terreno capinado, dentro de um círculo coberto de relva sagrada. Um homem segurava o vaso de manteiga clarificada ou de soma. A soma, bebida sagrada dos vedas, era produzida pelo sumo fermentado da planta chamada soma. Era uma bebida alcoólica lançada pelo sacrificador sobre o fogo sagrado e que servia para animá-lo. A manteiga líquida tinha as mesmas finalidades. Assim vemos que o uso do álcool em nossos rituais não foge a esta antiga tradição. Continuando, outro homem fazia girar rapidamente um bastão no buraco do recipiente de madeira da qual iria brotar a chama sagrada.
A palavra Paramenta ou Pramantha, definida como sendo de origem sânscrita, designa um aparelho pirogênico composto então de duas peças: um bastão redondo, de comprimento variado, e um recipiente de madeira, cilíndrico, ou em forma de bacia, tigela ou gral, tendo um buraco no centro onde se encaixa o bastão.

Geralmente, o nome de Pramantha é dado ao bastão, ao passo que a tigela de madeira que o recebe é chamada rani, havendo mesmo autores que denominam o conjunto das duas peças de os aranis.

Quando queriam obter fogo, faziam girar rapidamente o bastão dentro do buraco feito no recipiente de madeira, não em uma rotação contínua, mas em uma série de voltas em sentido alternado. O operador valia-se para isso de uma corda, da qual mantinha presa nas mãos os dois extremos, puxando-os sucessiva e fortemente. A fricção desenvolvia calor intenso, e no fim a chama acendia os elementos lenhosos colocados no fundo do recipiente. Por analogia os hinos védicos confirmam que o Pramanta tem um poder masculino e o Arani um poder feminino, receptor.

Lembremos que o principal deus védico era Agni – o fogo. Agni era deus do fogo terrestre e também do fogo celeste e atmosférico, logo um tríplice Agni, que representava o fogo, o Sol e o relâmpago, respectivamente, associados à chama sagrada que protegia o lar familiar, sendo também a chama da vida e dos espíritos do mundo. Representavam-no com o corpo vermelho, e com 3 pernas, 7 braços e montado num bode (!) ou carneiro. Empunhava em uma das mãos o machado, que cortava a lenha que o alimentava e, na outra, a colher das libações; 7 línguas saíam de sua boca e 7 raios de seu corpo. Estes são símbolos significativos em nossa Tradição, assim como os animais aqui citados.

Os Vedas, livros sagrados dos árias, estão repletos de hinos ao fogo divinizado em Agni. Como em todas as religiões primitivas, o ato sexual era divinizado e a produção do fogo era comparada entre os árias a um ato de geração, onde o Pramanta era o instrumento macho e a arani a fêmea. Foi assim constituído o mito de Agni, nascendo da fricção sagrada, e Agni lançou-se a conquista do céu.

Este grau 18 nos coloca em contato com grande número de personagens. Entre eles tem logicamente maior destaque para Jesus, do qual se comemora a ceia derradeira. Existem muitas analogias entre o deus Agni, tradição oriental menos conhecida, mas aqui transcrita brevemente, e Jesus, o Cristo, do povo cristão e já conhecido por nós do ocidente.
Por causa do uso do soma ou manteiga que se usava para avivar o fogo sagrado, o deus Agni passou a ser chamado de o ungido, palavra que se traduz em grego por Christós.

Na lenda védica, Agni era filho de Sawistri, o pai celestial. Fez-se homem, nascendo de uma virgem e tendo por pai terrestre a Twasti, que foi, como José, carpinteiro. Nos tempos mais primitivos, quando o aparelho para produzir o fogo era improvisado, ele era formado apenas de dois pedaços de madeira, de essências diferentes que eram colocados em cruz, na forma do Tau invertido. E a cruz, como sabemos, também em forma de Tau, é o símbolo do cristianismo, onde Jesus foi crucificado.
Assim como Jesus, Mitra, Osíris, Tamus, Adônis, Baco, Apolo, Manu, Buda, Agni nasce em 25 de dezembro ou próximo do solstício de inverno para o hemisfério norte. E, como os demais é com efeito, uma personificação do deus Sol, nasce numa gruta e tem como mãe uma virgem.

Todos estes elementos atribuídos aos deuses solares formam um conjunto e constituem um simbolismo que se perde na noite dos tempos. Chegou até nós através do cristianismo, síntese e sincretismo de todas as religiões que o antecederam. Penetrando em tais símbolos arquetipais, como nos diz Jung, o homem alcança a libertação da mente e a própria redenção. Não há aqui a menor intenção em descrer historicamente na existência das personagens acima listadas. Mas, contrariamente e antes de tudo, em enaltecer a missão de cada uma delas, entre nós, tendo sido Jesus sua máxima expressão de Luz e Amor entre os homens, mostrando que o GADU sempre nos envia seus redentores quando a humanidade mais necessita.

Prometheus brings fire to mankind (Prometeu traz o fogo para a humanidade) 1817. Heinrich Fuger

Prometheus brings fire to mankind
(Prometeu traz o fogo para a humanidade) 1817. Heinrich Fuger

A LENDA DE PROMETEU


Relembremos também o mito de Prometeu, o qual, tal como Agni e Jesus, acha-se ligado ao fogo. O Fogo, IGNE para os romanos, com efeito, está relacionado com a Palavra Sagrada deste grau e do cristianismo, INRI, a qual se traduz pela expressão IGNE NATURA RENOVATUR INTEGRA.

Segundo a mitologia grega, Prometeu era o deus do fogo, mas era também a personificação do gênio do homem, o inventor por excelência e o criador da raça humana. Assim, segundo refere Ovídio em suas “Metamorfoses”, após o dilúvio Prometeu modelara o primeiro homem com o limo sedimentado das águas. E, de acordo com uma variante da lenda, Prometeu animara a sua estátua com o fogo divino. Minerva, que o auxiliara na obra, deu ao homem o temor da lebre, a sutileza da raposa, a vaidade do pavão, a ferocidade do tigre e a força do leão.

Ainda em outra variante da mesma lenda, diz-se que admirada pela beleza de sua obra, Minerva oferecera a seu autor tudo que pudesse contribuir para aperfeiçoá-la. E então Prometeu respondeu que precisava ver as regiões celestiais para escolher o que mais conviria ao homem que havia plasmado. Atendendo a este pedido, Minerva fez Prometeu subir ao céu. O herói verificou que seria o fogo que animava os corpos imortais. E, no seu desejo de servir ao homem ele roubou uma pequena parte do fogo.
Muitas teorias foram arquitetadas sobre tal lenda, algumas das quais o ritual do 18º grau menciona em sua leitura. Mas a tradição mais geralmente aceita diz que o herói, decidido a roubar a chispa desse fogo divino sem o qual as artes eram impossíveis, que permitiria a forja do ferro e pelo qual os homens poderiam cozinhar seus alimentos, dirigiu-se à ilha de Lemnos, onde estavam situadas as forjas de Vulcano. Prometeu tomou uma das chamas, escondendo-a no interior de um narthex que lhe servia de bastão. O narthex é uma espécie de caniço em cujas divisões existe uma penugem parecida com o algodão e facilmente inflamável.

Em Atenas eram celebradas as prometheas, festas anuais em honra de Prometeu e que compreendiam sobretudo corridas a pé e a cavalo, executadas por jovens com archotes. A tradição atribuía o estabelecimento das festas ao próprio Prometeu. Este deus também era conhecido por ser um Gênio do fogo, e era chamado muitas vezes de porta-fogo em memória da conquista do fogo divino.

Os povos primitivos achavam que, no meio das nuvens, deuses provindos de Pramantas davam nascimento ao raio e ao relâmpago. Não podemos esquecer que alguns povos antigos usavam o sílex ou pederneiras para produzir fogo e imitar os deuses. Os polinésios o faziam deslizando rapidamente, por movimentos de vaivém, a ponta de um ramo macho na fenda de um ramo fêmea.
Alguns mitólogos acham que o Pramanta esteja etimologicamente ligado ao deus Prometeu como o primeiro produtor de fogo para os homens por meio de um Pramanta animado e divino. O verbo manthanô, que encerra o elemento verbal significativo de Pramanta, é uma forma da raiz math, meth. Tal raiz está entre os vedas, mas também entre os gregos, onde nestes em linguagem primitiva queria dizer “girar”, “acender o fogo”. Com o tempo passou a ser relacionada a “idear”, “meditar”, “saber”.

Assim, o termo que designava o humilde agente do sacrifício passou de geração em geração na figura de Prometeu, o benfeitor dos homens. Passou a se perpetuar então através do fogo, indispensável ao homem. Talvez a maior descoberta até hoje feita pelo homem foi a do domínio do fogo. E isso nos chega brilhantemente através do simbolismo do Paramenta.

REFERÊNCIAS
Instruções para Capítulos; Nicola Aslan; Ed. Maçônica.
Dicionário Ilustrado de Maçonaria; Sebastião Dodel dos Santos; Vol.1; Ed. Essinger.
Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia; Nicola Aslan; Volumes I ao IV; Ed. Artenova.
Maçonaria e Astrologia; José Castelani; Ed. Landmark.

Sobre o Autor

ARLS William Wallace n° 4125 GOB-RJ Oriente de Rio de Janeiro

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