Adam Francisco Grant,um maçom anglo-lusitano no Brasil Colônia

Em 28 de abril de 1738, o Papa Clemente XII expediu uma bula (figura 1) em que proibia os membros da Igreja Católica de pertencerem à Maçonaria.

Em Abril de 1792, a Inquisição lisboeta emite a seguinte correspondência para a Rainha Maria I:
A Inquisição desta Corte que pela sua comissão costuma sempre proceder contra os Pedreiros Livres desde que no ano de 1738 foi publicado o edital de Fé de 28 do mês de Setembro que comete as inquisições o cuidado e vigilância sobre esta seita, e que agora pelas últimas recomendações se tem empenhado em fazer dar o mais inteiro vigor das leis cuidando em cortar pela raiz a seita que novamente surgia composta já de muitos membros… (IANTT, IL, Caderno 13º de ordens do Conselho Geral. fl. 111.)

Entre diversas ressalvas, sobre o perigo que a Maçonaria representava para o Reino de Portugal, destaca-se a seguinte informação:
…a Ilha da Madeira é o aposento e a união principal dos maçons neste Reino, donde se tem [repartido] os ramos que chegarão a esta Corte com a desgraça de a começarem a infeccionar o que tereis conseguido de todo se as providencias de V. Majestade não tivessem posto freio às suas intenções e não tivessem feito [solapar] suas idéias. (IANTT, IL, Caderno 13º de ordens do Conselho Geral. fl. 111.)

De fato, a Ilha da Madeira foi um importante reduto de francos-maçons no final do século XVIII. No mês de Abril, do fatídico ano de 1792, foram afixados nas portas das igrejas de Funchal, capital da Ilha da Madeira, editais do Santo Ofício. Eles convocaram a população, sob a ameaça de excomunhão, a denunciarem quaisquer ajuntamentos ou reuniões de Pedreiros Livres. Estima-se que pelo menos 133 maçons foram denunciados para o Santo Ofício.

O arquipélago dos Açores e, principalmente, a Ilha da Madeira foram importantes redutos de franco-maçons durante o século XVIII.

Apesar de mais modesta, destacamos também o papel das ilhas açorianas (figura 3). Se por um lado, mantinham as características de uma área periférica, por outro, pela sua centralidade geográfica no coração do sistema atlântico, funcionavam como epicentro de uma densa rede de fluxos e refluxos de pessoas, produtos e ideias. Deste modo, as ilhas atlânticas pertencentes ao império ultramarino português, no final do século XVIII e nas primeiras décadas do XIX, revelaram-se um espaço privilegiado para a circulação de ideias e pessoas no interior do espaço atlântico. É desse cenário insular que emerge o personagem deste artigo, talvez o mais remoto maçom a pisar em território brasileiro.

Chamava-se Adam Francisco Grant, de ascendência inglesa, nascera na segunda metade do século XVIII em Vila das Velas, Bispado de Angra, localizada na costa sul da Ilha de São Jorge, Arquipélago dos Açores. Essa vila está localizada num extenso terreno relativamente plano junto à costa. Sua enseada, protegida pelos fortes de Nossa Senhora da Conceição e de Santa Cruz, permitia um constante intercâmbio com o mundo atlântico.

Quando foi denunciado à Inquisição, por pertencer a uma associação de Pedreiros Livres, Adam Grant era capitão de ordenança na remota vila de Guaraparim (atual cidade de Guarapari no estado do Espírito Santo). Essa patente possuía um caráter honorífico. Como evidencia a historiadora Júnia Furtado, os nomes dos agraciados nas ordenanças eram escolhidos apenas entre os principais das vilas, o ganho era simbólico e distinguia uns em detrimento de outros. O acesso a patentes militares, em qualquer uma de suas instâncias, conferia a seus ocupantes dignidade e definia seu lugar social perante os habitantes locais.

No entanto, a patente e o prestígio não salvaram o capitão Grant de ser denunciado ao Santo Ofício. A suspeita de que ele era um Pedreiro Livre nasceu “pela muita notícia que pede de sua seita”. A zelosa testemunha não deixou de acrescentar que Adam Grant ressaltava que a maçonaria “não era contrária à Fé Cathólica romana”. (IANTT, IL, proc. 7030. fl. 3v.). Apesar das denúncias, o capitão Grant não foi processado pela Inquisição. De acordo com a documentação, não existiam “provas concludentes contra o mesmo”.

A denúncia contra Adam F. Grant ajuda-nos a pensar a dinâmica da circulação de ideias no oceano atlântico no final do século XVIII. Mesmo na periférica vila de Guaraparim, poderíamos encontrar um Pedreiro Livre, ávido por notícias de sua irmandade. Apesar da forte repressão por parte da Inquisição Portuguesa, com agentes espalhados por todo império ultramarino, maçons e ideias liberais circularam com relativa liberdade.

A importância deste personagem reside no fato de que a história da maçonaria no Brasil, particularmente no século XVIII, encontra-se envolta em brumas, tradições inventadas e falta de provas documentais. A partir dessa denúncia podemos pensar a maçonaria a partir de um novo pressuposto: existiram Pedreiros Livres no espaço colonial setecentista. Eles defenderam e divulgaram princípios maçônicos e, possivelmente, iniciaram novos membros. Quantos mais existiram? Quantos foram iniciados? Adam F. Grant, açoriano, capitão de Ordenança e Pedreiro Livre, é apenas a ponta do iceberg.

Fontes:

– IANTT, Inquisição de Lisboa, processo 7030.
– IANTT, Caderno 13º de ordens do Conselho Geral.

Bibliografia:

– BARATA, Alexandre Mansur. Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independência do Brasil (1790-1822). Juiz de Fora/São Paulo: Editora UFJF, Annablume, Fapesp, 2006.
– BENTHENCOURT, Francisco. História das Inquisições – Portugal, Espanha e Itália séculos XV-XIX. São Paulo:
Companhia das Letras, 2000.
– MACNULTY, W. Kirk. A Maçonaria – Símbolos, segredos, significado. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

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