“Era um dia abafadiço e aborrecido. A pobre cidade de São Luiz do Maranhão parecia entorpecida de calor. Quase que se não podia sair à rua: as pedras escaldavam; as vidraças e os lampiões faiscavam ao sol como enormes diamantes; as paredes tinham reverberações de prata polida; as folhas das àrvores nem se mexiam; as carroças d’água passavam ruidosamente a todo instante, abalando os prédios; e os aguadeiros, sem mangas de camisa e pernas arregaçadas, invadiam sem cerimônia as casas para encher as banheiras e os potes. Em certos pontos não se encontrava viva alma na rua; tudo estava concentrado, adormecido; só os pretos faziam as compras para o jantar os andavam no ganho.” (Aluísio de Azevedo. O Mulato, de 1881).

É consabido de que a manutenção da escravidão no Brasil durante o Império servia apenas aos interesses de poucos latifundiários membros da elite política da época. Ter escravos era forma de status dentro da sociedade, pois a quantidade de “peças” (termo que tornava o ser humano um objeto) significava que o proprietário tinha mais terras para eles trabalharem. Como exemplo, vale a pena assistir ao filme “12 anos de escravidão”, que retrata fielmente o processo de escravidão americana.
A Maçonaria, sem política, nem partidos, dirigiu-se também naquela época seus esforços à resolução do problema. Os ideais iluministas de liberdade do homem foram percebidos no Império brasileiro como o caminho para a evolução social e intelectual do mesmo. A solidariedade ao sofrimento dos escravos – pensar em um homem sendo privado de seu bem mais precioso: a liberdade – foi o caminho da maçonaria, que tomou para si a bandeira da abolição. Segundo o eminente Rui Barbosa: “A libertação dos cativos passa a ser questão moral, uma questão interna do que é ser maçom, valorizando princípios básicos como a liberdade” (Exposição de motivos a um projeto de lei apresentado para a Loja Maçônica América, em 4 de abril de 1870).

A maçonaria patrocinou muitas cartas de alforrias – conforme fartamente documentado na época. Existem fontes dando conta da ocorrência de cotização entre os seus membros para a compra de liberdade de escravos, o que fazia, vez por outra, escravos fugidos se dirigissem às lojas. Várias sessões solenes foram abertas com a leitura de cartas de alforria patrocinadas pela coleta de dinheiro entre os membros, contribuição que era comumente feita pelos maçons por intermédio do chamado “tronco de solidariedade”.

A maçonaria na ocasião lançou o seu repto: “Nenhum erro é mais antigo, nenhuma instituição é mais hedionda do que a escravidão, entretanto está quase extirpada este medonho cancro social. A Maçonaria unida reassume de hoje em diante seu posto de honra; ella será a guarda avançada do progresso da humanidade. Educando o filho, emancipando o escravo, amparando a viúva, protegendo as classes desvalidas e libertando a consciência do homem de férreo jugo do despotismo clerical, ella se recomendará a posteridade pelos relevantes servisos em prol da civilisação (sic)” (Boletim do Grande Oriente do Brasil: ao Vale do Lavradio. Rio de Janeiro, p. 187, maio 1872).

É cediço que na atualidade, meus prezados irmãos, o tipo da escravidão a que se reportava o poeta dos escravos Castro Alves em “Navio negreiro” não mais existe graças, sobretudo, ao empenho da nossa e sublime ordem reportada nas vozes dos valorosos irmãos Barão do Rio Branco, Rui Barbosa e Luis Gama entre outros, como assinalado.

Contudo, não se é despiciendo lembrar de que outras formas de escravidão branca do homem ainda persistem em pleno século XXI. Portanto, cabe a nós maçons – como verdadeiros homens livres – combatê-las mediante ações visando a colocação de “luz sobre as trevas” – mormente por nossa instituição preconizar a evolução do homem em todos os aspectos como uma das suas bandeiras. “O homem verdadeiramente livre apenas quer o que pode e faz o que lhe agrada”, segundo o filósofo iluminista Jean Jacques Rousseau.

Como disse o respeitado professor Cristovam Buarque – quando Ministro da Educação – em um artigo denominado “Abolição incompleta”: “O Brasil não libertou os escravos. Abandonou-os. …E a escravidão continuou no Brasil, sob outras formas. …No Brasil, o racismo e a escravidão não acabaram. Mudaram de nome. Passaram a chamar-se exclusão e pobreza. …A verdadeira libertação dos escravos só virá quando todo brasileiro tiver um emprego que lhe permita atender às necessidades básicas de sua família; um lugar onde viver, com água potável e saneamento; um sistema de saúde eficiente e, sobretudo, uma escola de qualidade para os seus filhos”.

Para uma visão acerca do que é verdadeiramente uma batalha travada em prol da liberdade de conhecimento e contra o jugo da prepotência e, sobretudo, da alienante ignorância, indico o filme “Hipátia de Alexandria” (destruição da maior Biblioteca da antiguidade, a de Alexandria, por ensandecidos Cristãos durante a Idade Média).

Enfim, usando a mesma linguagem da narrativa de Aluísio Azevedo no romance O Mulato, devemos sempre lembrar que o desiderato da nossa missão exotérica como maçom é a de zelar e velar com nossa autoridade para que os “pretos” espoliados (os “excluídos”, na visão do eminente professor Cristovam Buarque) da pobre cidade de São Luiz do Maranhão – como de nenhum rincão desse nosso país – não sirvam mais apenas como escravos e marionetes em face dos “nobres e caridosos interesses” dos atuais senhorios em suas “pós-modernas formas”, colaborando no escopo de fazer a virem – por intermédio da conscientização política que se adquire, sobretudo, mediante o processo da educação – a se tornarem verdadeiros cidadãos livres de todos os grilhões que, porventura, ainda os mantém aprisionados. Ou seja, colaborando verdadeiramente para colocar “Ordo ab Chao!”.

Bibliografia:

– Aslan, Nicola. Pequenas biografias de grandes maçons brasileiros. Rio de Janeiro: Aurora, 1993.
– Castellani, José. Os maçons e o movimento abolicionista brasileiro. In: Caderno de Pesquisas Maçônicas. Londrina: A Trolha, 1989, p. 102.
– Buarque, Cristovam. Abolição incompleta.
(http://portal.mec.gov.br) . Acessado em 22.09.14.
– Azevedo, Aluísio. O Mulato.
– Boletim do Grande Oriente do Brasil: ao Vale do Lavradio, Rio de Janeiro, 1872.

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