Falamos muito sobre honestidade em nossos templos. Sobre a importância de aplicá-la em nosso cotidiano e espalhá-la com atitudes e exemplos junto aos profanos. Somos construtores sociais.
Quanto à etimologia, a palavra honestidade tem origem no latim honos, que remete para dignidade e honra. Em síntese trata-se do ato de ser digno e honrado, “justo e perfeito”.

Se a honestidade está cravada no cerne do bom maçom como seria o mundo completo com ela?
Pensemos no nosso meio. Nossos templos não precisariam de portões, chave, cadeados, ninguém invadiria o território alheio, pois seriamos todos honestos.

As casas não teriam trancas, fechaduras, muitas indústrias deixariam de existir. Muros, cercas elétricas, não teriam utilidade. Para que? Se todos são honestos, ninguém vai invadir roubar ou depredar o alheio.

Quanto se deixaria de gastar com seguro de carro, casa, empresa, enfim quantos empregos deixariam de existir nesses setores pelo simples fato de não mais haver necessidade dessas atividades, afinal todos são honestos. Em lugar de portões, jardins, em lugar de trancas e fechaduras bancos branquinhos e vasos de flores.

Armas, para que? Revolveres, coletes a prova de bala? Algemas? Não seriam mais necessários em um mundo sem a crueldade do delito, sem a frieza da traição, sem a cultura nefasta da desonestidade.
Afinal quem é honesto não mata; quem pratica a honestidade não trai, quem é honesto e fala a verdade não precisa dissimular, roubar e explorar das fraquezas dos desapercebidos.

Seria importante destacar no DNA humano o gene da honestidade, mãe de todas as virtudes.
Segundo Rui Barbosa “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.
Seria esse o nosso maior problema? Nós maçons estaríamos nos apequenando?

Estamos circunscritos a honestidade retórica apenas no ambiente protegido de nossos templos? E quanto ao mundo profano, estamos honestamente nos dedicando a mudar essas condições? Ou da mesma forma do não iniciado em nossa ordem preferimos nos proteger ou nos esconder por de traz das trancas e cadeados da desonestidade?

Dalai Lama entende a honestidade como: “o ato de viver uma vida boa e honrada. Assim, quando você ficar mais velho e pensar no passado, poderá obter prazer uma segunda vez.” 

O mundo voltado para a honestidade não precisa de senhas, em portas, computadores, telefones, não precisa de travas em automóveis, alarmes de carros, casas. Banco? Não precisariam de portas giratórias, senhas, blindagens, câmeras, pra que? Se todos são honestos… Imaginem como seria prazeroso um caminhar à noite em uma praça no centro da cidade, as igrejas iluminadas, as crianças tomando sorvetes com os seus pais, a brisa no rosto, sem o medo do outro, o medo do assalto, o receio de ser morto, abatido pela cruel desonestidade das almas.

Ar condicionado? Diminuiria muito, afinal voltaríamos a abrir nossas janelas, que sem trancas serviriam tão somente para a proteção do vento e da chuva. Estupro? Não haveria, os homens seriam justos com a filha dos outros homens, não fariam o mal, não seriam desonestos com as futuras mães e noras.

Neusa Cabral atribui conceitualmente à verdade: “A verdade brota da mente, passa pelo coração, que a bombeia e então, vem fazer parte do sangue da vida dos justos”.

Se nosso sangue, a priori é o sangue dos justos, juramos ser assim, porque convivemos tão facilmente com a corrupção no mundo profano? Por que concordamos com os atos que diariamente nos são jogados pelo jornalismo sobre desvios de verba pública e outros desmandos? Malfeitos?

Malfeito é não é sinônimo de crime. Essa palavra, grosseiramente proferida cria um eufemismo para o que de fato estamos vivendo. Vemos, entendemos e não somos honestos, pecamos por omissão. Retemo-nos à retórica nos templos devidamente perfumados e ritualmente perfeitos.

Atribuída a Sócrates uma frase nos faz refletir: “Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto ao menos por desonestidade.”

Para nós maçons a honestidade não pode ter medida, não pode haver exceções, é regra pétrea, não foi feita para ser usada conforme convenções ou interesses.

Sócrates afastando Alcebíades do vício - Pedro Américo

“Se o desonesto soubesse a vantagem de ser honesto, ele seria honesto ao menos por desonestidade.” Sócrates

Na prática, existe essa possibilidade? Um universo inteiro honesto? Não haveria mais guerra, guerrear para que? Temos somente o que nos pertence e respeitamos o que é do outro. Tirar o que é do outro? O discernimento da honestidade absoluta não nos permitiria tal feita.

Para Kant o ser humano é um ser marcado por uma dualidade: é, por um lado, um ser sensível, isto é, um ser da Natureza, condicionado pelas suas disposições naturais, que o levam à procura do prazer e à fuga da dor. Este aspecto primário define o egoísmo que preside à vertente animal do ser humano. Por outro lado, é um ser racional, isto é, alguém capaz de se regular por leis que impõe a si mesmo. Tais leis revelam a sua autonomia, tendo a sua sede na razão. São leis morais que o levam a praticar o bem, em detrimento dos seus caprichos e interesses individuais. Assim, o ser humano é um ser dividido entre a sua inclinação para o prazer e a necessidade de cumprir o dever. Tanto se pode deixar arrastar pelos seus instintos, como determinar-se pela razão.

Seria essa a base filosófica que nos introduz ao problema? O prazer nos faz afastar da razão e por conseqüência não encontramos limite e nos tornarmos essencialmente desonestos?
Se a essência filosófica da Maçonaria é ser honesto e praticar a verdade como um bem basilar porque somos permissivos com os desvios, em nossas lojas e no mundo profano?

Tais indagações nos remetem ao Livro da Lei
O Grande Arquiteto do Universo exige honestidade. O Livro da Lei diz em Salmos 51:6 “Eis que desejas que a verdade esteja no íntimo; faze-me, pois, conhecer a sabedoria no secreto da minha alma.” 
A desonestidade causa dor e dura tanto quanto a ferida física. O L∴L∴ diz em Provérbios 25:18 “Malho, e espada, e flecha aguda é o homem que levanta falso testemunho contra o seu próximo.” 

O Senhor não aprova desonestidade em transações de negócios. Encontra-se em Provérbios 20:23 “Pesos fraudulentos são abomináveis ao Senhor; e balanças enganosas não são boas.” 

Seja honesto e aberto. Aponto em 1 Tessalonicenses 2:3 “Porque a nossa exortação não procede de erro, nem de imundícia, nem é feita com dolo.” 2 Coríntios 8:21 “Pois zelamos o que é honesto, não só diante do Senhor, mas também diante dos homens.” 

Honestidade é parte de dois mandamentos.
Em Êxodo 20:15-16 “Não furtarás. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.” 

Os líderes apreciam aqueles que dizem a verdade. Em Provérbios 16:13 “Lábios justos são o prazer dos reis; e eles amam aquele que fala coisas retas.” 

A verdade é mais valiosa que os elogios. Em Provérbios 28:23 “O que repreende a um homem achará depois mais favor do que aquele que lisonjeia com a língua.” 

Os filhos de pais honestos são bem-aventurados. Em Provérbios 20:7 “O justo anda na sua integridade; bem-aventurados serão os seus filhos depois dele.” 

Diga sempre a verdade. Em Provérbios 12:13-14 “Pela transgressão dos lábios se enlaça o mau; mas o justo escapa da angústia. Do fruto das suas palavras o homem se farta de bem; e das obras das suas mãos se lhe retribui.” 

Lucro fraudulento sabe bem só temporariamente. Em Provérbios 20:17 “Suave é ao homem o pão da mentira; mas depois a sua boca se enche de pedrinhas.” 

As riquezas que foram obtidas desonestamente não duram. Encontramos em Provérbios 21:6 “Ajuntar tesouros com língua falsa é uma vaidade fugitiva; aqueles que os buscam, buscam a morte.” 
Siga os caminhos de Deus. Em Provérbios 11:1 “A balança enganosa é abominação para o Senhor; mas o peso justo é o seu prazer.” 

Deus prefere que sejamos honestos de que demos ofertas. Em Provérbios 21:3 “Fazer justiça e julgar com retidão é mais aceitável ao Senhor do que oferecer-lhe sacrifício.”

Clarificados pelo Livro da Lei podemos compreender a importância da honestidade para a evolução da sociedade. Nós maçons temos que diferentes da mulher de Cesar “ser honestos” e não parecermos honestos.

Bibliografia:
– HEIDEGGER, Martin. Kant und das Problem der Metaphysik. Bonn, 1929.
– KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Tradução de Valério Rohden e António Marques. Rio de Janeiro, RJ: Forense Universitária, 1993.
– MAYOS, Gonçal.  HYPERLINK “http://www.ub.edu/histofilosofia/gmayos/4presentacio.htm” “O criticismo kantiano”. Tradução de Ricardo Henrique Carvalho Salgado e João Paulo Medeiros Araújo. Barcelona: EducaciOnline, 2008.
– Revista de Filosofia, Curitiba, v. 18 n. 21, p. 11-25, jul./dez. 2005.
– Revista Lindaraja, Madrid, Anuario de la Sociedad Española de Literatura General y Comparada, n. 8, 1990, pags. 25-29, 1990.
– PEREZ, D. O. Kant e o problema da significação. Curitiba: Editora Champagnat, 2008.
– PEREZ, D. O. . Religión, Política y Medicina en Kant: El Conflicto de las Proposiciones. Cinta de Moebio. Revista de Epistemologia de Ciencias Sociales., v. 28, p. 91-103, 2007.
– A BÍBLIA SAGRADA – Sociedade Bíblica do Brasil, 1969

Sobre o Autor

AGRL Trabalho e Silêncio n° 121 - Oriente Campinas GLESP/CMSB

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