Todas as vezes que algo negativo ou destrutivo ocorre em nossas vidas é porque em algum momento nós mesmos plantamos essa semente. A única participação da Luz do Mundo Infinito (Deus) é nos permitir ter o livre-arbítrio que conceder-nos-á a possibilidade de crescer, ou pela consciência ou pela dor.

Muitas vezes, porque não conseguimos ver a sabedoria presente em cada evento que nos cerca, é que somos levados erroneamente a crer que a injustiça predomina no mundo. Se olharmos o mundo e as tramas que envolvem as injustiças nas relações, poderíamos imaginar que não há justiça.

A Cabala nos ensina que todos os crimes possuem castigo. Toda a ação egoísta possui sua destruição. Nunca se consegue “enganar” o sistema de restrição e todas as vezes que se deseja receber para si mesmo, planta-se um retorno negativo.

Nenhum pecado escapa à sua distribuição. Mas e a aparente injustiça e impunidade que nos envolve? O que dizer dos crimes que não são averiguados e punidos? E as fortunas que são constituídas tendo como base a corrupção e o mal-estar do outro?

Se analisarmos com base apenas na consciência finita, vamos de fato perceber que muitos escapam sem castigo depois que cometem todo tipo de crimes, inclusive assassinatos. Muitos se beneficiam com crimes ou com a difamação, mas tudo isso ocorre apenas dentro de uma perspectiva ilusória.

Na perspectiva infinita, se seus atos tiveram como única motivação o desejo de receber para si mesmo, o indivíduo receberá unicamente a aparência exterior de tais aquisições, o “título de propriedade” dos bens, mas não os bens em si mesmos, as coisas, mas não o seu valor intrínseco.

Aquele que possui como inspiração o aspecto negativo do desejo, não receberá nenhuma satisfação duradoura do fruto de suas conquistas, que foram motivados pela cobiça. Ironicamente, todas as aquisições que acumulam os que partem do desejo ilusório, tornam-se a causa de sua própria destruição e mal-estar.

Além do mais, a Cabala nos ensina que toda e qualquer obra, objeto ou projeto que tenha sido construído tendo como base o desejo de receber para si mesmo, fica impregnado dessa energia negativa de julgamento. Se essas pessoas exercessem a restrição e com ela eliminassem a ilusão, poderiam ter a felicidade que tanto almejam.

Esse é o paradoxo da Luz Refletida presente dentro do mundo físico. A Luz Refletida é a luz que emana de tudo o que se encontra dentro do mundo físico. Essa luz é conhecida como c’lipah nogah (o brilho da casca).

Foi exatamente isso que ocorreu, conforme está na Torah, com o Egito (Mitz’raym), uma aparente casca de brilho, prosperidade e sabedoria, ocultando um enorme desejo de receber para si mesmo. Mas, onde é Mitz’raym (Egito)?

Segundo a Cabala, Mitz’raym é aqui mesmo, onde vivemos, antes de ser identificado como uma região geográfica é um estado de consciência, uma forma estreita de olhar o mundo que nos cerca. Quando renunciamos ao desejo de comodidade do corpo (especialmente na forma do luxo e da opulência), obtemos a comodidade da alma.

Ao eleger permanentemente um estado de restrição, atuamos como um filamento, uma terceira coluna mediadora, e dessa maneira somos capazes de estabelecer um circuito com a Luz do Mundo Infinito. Hoje em dia, a atitude que prevalece é a de que qualquer meio é justificado se nos leva a um fim lucrativo.

No entanto, uma das maiores ilusões do mundo das ilusões é acreditarmos que o dinheiro e as posses nos trazem plenitude. O único ato que nos proporciona felicidade permanente é a restrição.

Por intermédio de nossos pensamentos e ações damos peso e substância a nossas ilusões. Ao aceitar a ilusão como nossa realidade, nós a transformamos em algo real. Quem sucumbe ao aspecto negativo do desejo perpetua a ilusão, mas o cabalista, mediante sua resistência, destrói a ilusão e revela a Luz do Mundo Infinito.

O fracasso em restringir o aspecto negativo do desejo produz um curto-circuito que faz com que venhamos a permanecer em um estado de permanente consciência robótica. A consciência da pessoa que está motivada pelo aspecto negativo do desejo carrega uma carga muito pesada, o peso da ilusão, a obscuridade, a cegueira – que é a constante companhia do desejo de receber para si mesmo.

Pelo contrário, o cabalista possui a consciência leve, límpida e sua visão não se encontra turva pela c’lipah. Unicamente no mundo verdadeiro é onde existe a plenitude. Neste plano, não há espaço para o desejo de receber para si mesmo. Toda a forma de desejo de receber para si mesmo preserva a ilusão, a resistência voluntária a destrói.

A restrição cria um estado alterado de consciência por meio do qual reduz a distância do receptor – nós – e a Luz do Mundo Infinito. E onde há Luz não pode haver obscuridade.

Assim, a meta do cabalista é redefinir o seu processo de consciência, de tal maneira que possa colocar fim ao reino da ilusão e restaurar a iluminação ao mundo e também para si mesmo. Mesmo uma pequena resistência pode iluminar um espaço grande e obscuro.

A Luz está em toda a parte, pronta, disposta e capaz à menor resistência, para revelar sua Presença Infinita. Através da resistência consciente do desejo de receber para si mesmo, o cabalista atua como o filamento elétrico que amplia a luz.

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