A leitura dessa Parashat Acharê contém o que pode ser considerado o mais importante versículo na Torá.

Esse versículo é frequentemente mal traduzido e mal compreendido. O versículo diz “você deve amar a seu próximo como a si mesmo.”

Para compreender a importância desse versículo, vejamos o que os sábios têm comentado a respeito dele. Rabi Akiva escreveu que esse ensinamento é a regra geral de toda a Torá. Rabi Ashlag, no “Gift of the Bible” (Dádiva da Bíblia), explica a afirmativa de Rabi Akiva como significando que os ensinamentos individuais da Torá são apenas particularidades para nos permitir atingir o único objetivo da Torá, que é “ama a teu próximo como a ti mesmo”. Essa é uma afirmativa surpreendente.

Sabemos que a Torá é nosso guia para o trabalho espiritual. Infelizmente, muitas vezes as pessoas têm a impressão de que a Torá é um livro de Leis que o Criador quer que sigamos, como se fosse uma lista de coisas (checklist). Esse mal entendido leva as pessoas a acreditarem que, se quisermos viver de acordo com a Torá precisamos apenas cega e religiosamente ter certeza de que cumprimos o máximo de itens possíveis da lista.

Infelizmente, isso leva as pessoas a pensar por conseqüência que essa é a essência da religião: desempenhar uma determinada série de atos mecanicamente.

Conforme nos ensinam os Cabalistas, a verdade é quase exatamente o oposto. O propósito da Torá é nos transformar. Nosso propósito na vida é ser como o Criador, sendo por conseqüência um com Ele. Isso é baseado na lei espiritual de que quando dois seres espirituais são exatamente semelhantes, eles se tornam um. Uma vez que nos tornamos um com o Criador, somos um com a infinita felicidade e alegria, um com a plenitude, porque essa é a essência do Criador.

O que precisamos mudar e transformar é o que os Cabalistas chamam de nosso “desejo de receber para si mesmo”. Quer o chamemos de ego ou egoísmo, é essa inata natural característica humana de se preocupar somente consigo próprio que nos separa do Criador, da verdadeira plenitude. Nosso trabalho nesse mundo é nos transformarmos de seres que se importam somente consigo próprios em seres que se importam mais com os outros, ou o que os Cabalistas chamam “desejo de compartilhar”.

Isto, em resumo, é o propósito de nossas vidas. A Torá é a ferramenta que o Criador nos deu para nos assistir nesse processo de transformação. Isso então é o que Rabi Akiva nos estava dizendo: toda a Torá trata somente de particularidades para nos ajudar a alcançar o ensinamento “ama o teu próximo como a ti mesmo”, ou em outras palavras, uma completa transformação no “desejo de compartilhar”.

Essa é também a explicação de uma história encontrada no Talmud. Conta-se que certo homem foi a Hilel e pediu–lhe que lhe ensinasse a Torá inteira enquanto estivesse apoiado em uma perna somente. Basicamente, ele queria uma versão bem condensada de toda a Torá. Hilel lhe disse “o que você não quer que seja feito a você não faça aos outros”, que é uma outra forma de dizer “ama a teu próximo como a ti mesmo”. Hilel estava ensinando a mesma coisa que Rabi Akiva, que todo o objetivo da Torá é ajudar a nos transformar de seres com “desejo de receber para si mesmo” em seres com “desejo de compartilhar”.

Esse entendimento é muito importante, mas infelizmente, por ser uma assertiva muito conhecida, é muitas vezes esquecida, ou pelo menos não é elevada à altura que deveria. Se verdadeiramente compreendermos o impacto deste ensinamento, isto permitirá que direcionemos o foco do nosso trabalho espiritual e a forma pela qual medimos nosso desenvolvimento espiritual. O propósito da Torá e do nosso trabalho espiritual é aumentar e desenvolver nosso “desejo de compartilhar”. Quando queremos medir nosso desenvolvimento espiritual, não podemos olhar apenas se estamos praticando ações espirituais como se simplesmente estivéssemos completando uma lista (checklist).

Antes, devemos verificar se nosso “desejo de compartilhar” tornou-se mais forte. Será que me importo agora mais do que me importava antes com os outros? Será que pratico mais atos de compartilhar com outras e deles cuidar? Se a resposta for sim, então estamos nos desenvolvendo espiritualmente. Mas se não estamos certos, ou se a resposta for não, então todas as “ações espirituais” que praticamos obviamente não estão nos trazendo um verdadeiro desenvolvimento e crescimento espiritual.

Essa é uma pergunta muito importante, que devemos nos perguntar todo o tempo: “Estou me tornando uma pessoa que se importa e que compartilha mais?”, porque essa é a pergunta espiritual mais importante.

Infelizmente, muitas vezes caímos na armadilha de pensar que enquanto estamos “fazendo” estamos crescendo espiritualmente.

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