Sou faixa-preta de judô há mais de dez anos, e sempre observei que desde a faixa branca, antes dos meus treinamentos e aprendizados seguíamos religiosamente um ritual que vinha de gerações e gerações sem nunca ter mudado.

Antes de adentrar ao tatamê deve-se estar devidamente trajado do judogui (kimono), cumprimentar-se o dojô, depois todos devem ajoelhar e cumprimentar o quadro do Jigoro Kano (criador do Judô), após todos os alunos cumprimentam o mestre, que corresponde, e, por último cada aluno cumprimenta seu adversário antes de começar o combate. Aprendi desde cedo que tal “ritual” tinha sua importância não só para mostrar respeito mútuo, mas também para que adentrássemos no espírito do judô e compreendêssemos que apesar das diferentes faixas e graus todos éramos iguais e nenhum deveria tentar se sobrepor a seus companheiros.

Dessa forma, podemos afirmar, que ritos e rituais não são realidades exclusivas da Maçonaria, pois existem em muitas atividades sociais de diferentes naturezas. Por regra, tudo que assume alguma importância para um conjunto de pessoas é ritualizado. A espécie humana sente–se confortável com rituais, uma vez que transmitem-lhe segurança e identificação. O ritual influencia o humano através de algo que só muito recentemente a ciência começou a dar atenção: a inteligência emocional, aquele espaço que essa entre a razão e a emoção, ou se quisermos, o ponto onde os sentimentos e as emoções influenciam a razão. E, inversamente, o território onde, através da razão, se influenciam as emoções.

Um ritual, bem elaborado, bem executado, bem dirigido, pode, à pessoa certa e apta, preparada, para tal, influenciar, desenvolver, abrir horizontes mais largos do que todo um curso com longas e trabalhosas horas de estudo. Um ritual bem feito, relevante, é normalmente complexo e pormenorizado. E há aspectos que só se revelam após se ter aprendido noções que previamente se impunham fossem aprendidas.

A Maçonaria é uma instituição em cujo centro se desenrola um renascimento espiritual do homem. Trata- -se de uma evolução para a maturidade, de um processo psíquico e íntimo, para uma iniciação. Para se obtê-la, a Maçonaria encontrou um método especial que, por meio de repetições ritualísticas e mais um desenvolvimento gradual, põe em andamento o autoencontro e a individualização do homem.

São os rituais e símbolos em que inicialmente se inspiraram os costumes das antigas irmandades de pedreiros. Além disso, entraram nos rituais dos maçons ideais do gnosticismos, da kabbala, dos pythagoraes e do cristianismo. O ritual maçônico torna-se, para cada participante, um portador de venturas e um centro dos seus pensamentos e ações. Em todas as lojas do mundo, os rituais, no seu desenrolar essencial, são parecidos, de tal maneira que cada um poderá entender sentido e conteúdo mesmo não entendendo a língua do respectivo país. O ritual é parte essencial. Com efeito, pela eficácia de sua forma, deve produzir um ambiente geral positivo, que se eleva por cima dos acontecimentos da vida cotidiana.

Hoje, embora faça parte desta Augusta Ordem há tão pouco tempo, tenho observado em minhas visitas que a maioria das Lojas, sem distinção de potência, vem em seus trabalhos dispensando o uso dos paramentos e muitas vezes encurtando o ritual em virtude da pretensa falta de tempo, com a famosa frase “sem Formalidades por favor”. Em algumas ocasiões, cheguei a deparar com o triste acontecimento de uma Loja encurtar os trabalhos ritualísticos em virtude do tempo, porém, após os trabalhos passar longas horas no momento do ágape. Sei que para mim, que sou apenas um aprendiz, e por enquanto tudo é novidade, participar dos rituais é sempre um aprendizado, é sempre uma novidade em que em cada ato procuro encontrar um significado e que para os IIr:. mais elevados uma ritualística mais demorada possa ter o aspecto de cansativa e que não haja necessidade de uso de todos os paramentos. Entretanto, após deparar mais uma vez com o excelente blog do honrado Ir:. Rui Bandeira da ARLS Affonso Domingues do Oriente de Lisboa – Portugal vi-me retratado em seu depoimento que em seguida transcrevo:

“Executo e assisto a rituais maçônicos há vinte anos. Alguns rituais já foram por mim presenciados dezenas, centenas de vezes. Não me é incomum, subitamente, uma qualquer passagem, um qualquer gesto ou ato, uma qualquer chamada de atenção, despertar em mim o acesso a um novo significado, uma distinta relação, um inesperado caminho de análise ou especulação.

Não porque nas dezenas ou centenas de vezes anteriores tenha estado desatento. Mas porque é então, e só então, que estou preparado para descortinar esse aspecto.” Rui Bandeira. Não vou aqui ter a pretensão de desvendar o significado dos diversos atos dos variados ritos e rituais maçônicos, e tenho a certeza de que não vem ao caso. O que quero chamar a atenção é para o pouco valor que as vezes damos as pequenas coisas que num contexto maior fazem a diferença. Acredito que tudo em um ritual, desde a vestimenta, até a trajetória a ser tomada dentro do templo tenha uma razão de ser, e se não específica, ao menos serve para que entremos no espírito maçônico e que não nos esqueçamos o motivo pelo qual estamos reunidos naquele momento. O tempo que dispensamos aos nossos trabalhos em Loja já são demasiadamente curtos se levarmos em conta o que muitas vezes gastamos em nossos lazer. E se não por isso, levarmos em conta apenas que nossos rituais são seguidos a risca por anos e por pessoas muitas vezes mais ocupadas do que nós e que se empenharam, em nome dos preceitos maçônicos, em fazer diferença e mudar o rumo das coisas em favor da humanidade.

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