Espiritualidade, Filosofia, Maçonaria e Simbologia.

A solidão na caminhada ao espiritual não significa viver apartado das pessoas. É importante a vida em sociedade. O crescimento sem a companhia dos irmãos é impossível porque desapareceriam os referenciais que servem quais colunas de orientação material para a jornada transcendental, são tais como as representadas pelas colunas zodiacais, usadas como balizas no Universo visível. Sem a vida em sociedade não ocorre a humanização, à semelhança de modelos fictícios como Mogli, Tarzan, Rômulo e Remo, e outros.

Existe solidão na caminhada para o plano espiritual porque é uma jornada que só é possível assim. Cada um representa a si mesmo. E quando se fomenta que lá no mundo espiritual se deliciam os puros e santos em fraternal sociedade, isto não passa de especulação, um ato de fé, crença no invisível e impossível de provar. Se do lado de lá existem rios de mel e dedilhar eterno de harpas, ótimo! Se não existe nada, se for apenas um lugar de esquecimento eterno, ótimo também! Em ambos os casos haverá paz. O melhor mesmo é conviver e promover a paz do lado de cá, no mundo material, aí já há certeza de se haver vivido bem, para honra e à glória do Grande Arquiteto do Universo. Se do lado de lá for realmente um lugar de delícias, então, se formos bons do lado de cá, apenas se continuará a gozar de delícias pela eternidade – quer bem maior? Se não for assim, se já se tiver vivido bem do lado de cá, seguindo conforme a Maçonaria nos faz imaginar e pensar, já se gozou o que é de direito, e também fica tudo justo e perfeito. Este raciocínio socrático ilustra que cada um faz a jornada ao transcendental à sua maneira, com vistas as suas próprias representações antropomórficas de deus ou deuses; assim como de céus, infernos, anjos, santos, demônios, e outros. Por ser especulativa, esta é caminhada que se faz sozinho, na mente, em pensamento.

No rito escocês antigo e aceito percebe-se nitidamente que o objetivo da ordem é excelente. Podem ocorrer insignificantes decepções, isto porque os referenciais próprios talvez não coincidam com algumas idéias vertidas nos rituais. Mas estes desvios do rito no Brasil são insignificâncias perto da grandeza do despertar de bons fluídos nas mentes dos confrades e melhorar os extraídos da pedreira da sociedade. Cada maçom desperto busca a verdade, a sua verdade, aquela que o satisfaz em termos de moral, ética e espiritualidade. Todos os maçons assim o fazem. Seria muito vantajoso para a Maçonaria se o mestre maçom não abdicasse de sua sagrada missão de ensinar, e que transmitisse suas especulações filosóficas aos seus irmãos, para que deles obtivesse retorno que alimentasse seus permanentes exercícios dicotômicos em busca da verdade relativa, nunca absoluta. Se o irmão usar de razão e lógica que convence, certamente fará os companheiros de viagem pelo Universo infindo mover o leme em outro rumo. Mas se o rumo permanecer inalterado, que isto não semeie inimizade entre os irmãos – quem segue melhor rumo, ou quem está com a verdade, só o Grande Arquiteto do Universo é quem sabe.

A alegoria da escada de Jacó é apenas uma imagem, uma abstração, utilizada pela Maçonaria para representar a caminhada no plano material visando à pureza do plano espiritual; é o caminho da escuridão da ignorância para a luz da sabedoria. Não significa a escada para a vida após a morte. Afortunadamente os dogmas da Maçonaria são poucos, felizmente ainda prevalece a especulação do que poderá ser o mundo da vida após a morte; para a qual existem miríades de estudos teóricos, provavelmente uma para cada ser pensante. O maçom lida com a morte em todas as iniciações; é sempre um morrer para situações anteriores e uma ressurreição para nova etapa com modificação moral, ética e espiritual. A escada de Jacó é um símbolo útil para representar a busca da espiritualidade em lugares altos. Escalar simboliza trabalho, dedicação, denodo, perseverança, a força a ser despendida para alcançar o divino em si. Semelhante a estória de Hiram Abiff, a escada de Jacó é apenas um símbolo, extraído das escrituras hebraicas para auxiliar a materializar esta caminhada, que em verdade se faz em pensamento, em espírito. Nenhum símbolo destes é real: nem a escada de Jacó nem Hiram Abiff.

A escada de Jacó reportada na bíblia foi vista apenas em sonho, numa visão, nunca existiu em realidade, o que faculta utilizar-se dela da forma que mais convier ao crescimento do maçom. O sentido desta escada de Jacó é diferente da vertida pela bíblia, ela é um símbolo tomado por empréstimo da bíblia, representa a concepção filosófica de ascensão dentro da Maçonaria. Comparações da escada da Ordem maçônica com a escada de Jacó da bíblia são infrutíferas e vazias.

O conceito de Grande Arquiteto do Universo é terreno pantanoso. Os iluministas evitaram comentar o assunto por considerarem o tema impossível de ser tratado pela sã racionalidade. O conceito Grande Arquiteto do Universo tratado como se fosse uma criatura, seja ela energia pura ou matéria, é inatingível de alcançar para o homem, devido à magnitude deste. Discussões a respeito só trazem separações e discórdias. Discutir o assunto quanto à forma ou modo de ação tem semelhanças com a escada de Jacó, é apenas conceitual, um símbolo. O que cada um faz é criar um deus que é a sua própria imagem; é o homem quem cria o deus e não o contrário; é a criatura que gera o criador num permanente exercício antropomórfico, com semelhança humana. Já o Grande Arquiteto do Universo como espírito, energia, campo de força, é especulação, dogma, um ato de fé. Em verdade existem tantos deuses quanto existem humanos sobre a face do planeta Terra. O que entristece é ver uma maioria forçar, impingir o seu próprio deus aos outros, e quem não concorda é inimigo – e quantos já se digladiaram até a morte por isto! Mas como esta característica humana de criar deuses em imagem e semelhança individual é impossível derrubar com argumentação lógica, o conceito maçônico de Grande Arquiteto do Universo supre a todas as necessidades pessoais da criatura e permanece apenas como um conceito que cada um adapta a sua própria interpretação.

E nesta viagem pelo universo infindo, numa velocidade estonteante a um destino ignorado, é importante pensar que não é um deslocamento sem sentido e vão. Que existe uma razão lógica e plausível orientando tudo a partir de leis e regras que partem desde a realidade mais simples, cresce em complexidade, até o que parece o caos. Neste deslocamento pelo imenso vazio, consciente da complexidade que a todos cerca, é importante a companhia de irmãos que se amam; que promovem o amor fraterno, a única saída para todos os conflitos, e cuja companhia auxilia a caminhada para encontrar um nível mais elevado de vida.

Que em virtude da diversidade magnífica que o pensar filosófico permite se induz sempre a aceitação da importância de estar consciente da própria insignificância perante o Universo. Como é maravilho este deslocamento pelo universo, onde a criatura é construída com quase nada de matéria, de maneira assombrosa, materializada por algo que não se sabe o que é e definida apenas por um conceito genérico ao qual o maçom denomina Grande Arquiteto do Universo.

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