Irmãos, o trabalho que gostaria de lhes apresentar agora, imagino, aponta para um tempo que ainda está por vir. Apesar de o tema escolhido dizer da missão da maçonaria no mundo de hoje, parece que nossa condição finita de seres que transcendem seu tempo para criá-lo, me obriga a dizer de tempos outros, o passado e o futuro, para tentar dizer algo do presente. Aliás, esse tema, o presente, o tempo presente, já fora tema de elucubrações de irmãos ilustres como Oscar Wilde.
Além dessa advertência, gostaria também de fazer outra, que é a seguinte: precisei transitar pela intelectualidade do mundo profano para tentar entender um pouco mais o que nossa ordem teria a dizer nos dias atuais. Aliás, é bom que advirtamos sempre que é característica necessária o distanciamento das questões para uma melhor percepção. Nesse sentido é que recorro às letras jurídicas para tentar estabelecer uma relação com o tema e uma reflexão profícua para a nossa jornada entre irmãos e ante o mundo profano. 

Refiro-me aqui ao sentido empregado para a palavra formal e material dentro da aplicação do direito. De maneira sucinta podemos dizer que o direito formal seria aquele direito garantido em alguma legislação, ou seja, formalmente estabelecido, tendo todas as suas formas e liturgias de criação respeitadas. O direito formal seria e estaria então integrado dentro do ordenamento jurídico, podendo, a qualquer momento, ser efetivado. Para exemplificar, podemos nos valer de um princípio base de nossa ordem, o direito à igualdade. Temos todos direito à igualdade, isto nos leva a dizer que somos então formalmente iguais. A qualquer momento, podemos reclamar do Estado e a nossa situação de igualdade perante as leis. Essa igualdade poderia ser considerada como igualdade formal, assim entendida com igualdade perante a lei. Garantida na forma da lei.

e hoje, o que somos enquanto maçonaria? Qual a missão? Qual o sentido da maçonaria no mundo de hoje?

Além dessa, há uma outra forma de compreensão dessa distinção, ora, podemos entender o direito formal, como sendo aquele que indica como e quais as formas que devemos adotar para alcançarmos o direito material. Seria dizer, o modo como chegar à efetivação de um direito material, o processo, por exemplo. Nesse caso, o processo simboliza o direito formal e o direito buscado simboliza o direito material.

De outro lado, e seguindo essa mesma realidade, suponhamos que fôssemos realizar uma pesquisa que teria como fito evidenciar se, de fato, na realidade, somos todos iguais. Mostrar-se-ia um enorme abismo entre a formalidade do que esta inscrito na letra da lei e o que in loco é percebido. A materialidade da igualdade seria então uma sua efetivação. Uma sua realização perante os cidadãos de nosso país. Assim, por exemplo, sem que realizemos nenhum juízo de valor político, podemos enxergar nas políticas de quotas, uma tentativa dessa efetivação dos direitos, assim, portanto, uma realização da igualdade material. Da mesma maneira quando observamos a criação de leis como “Maria da Penha”, “Estatuto de Idoso”, também enxergamos uma tentativa de efetiva realização dessa igualdade.

Após essa pequena incursão pelo mundo das leis, que em grande parte se nos mostra distante dos fins de justiça que anuncia, esperamos ter sido claros o bastante para que nosso fim com esse trabalho seja, de fato, atendido. Então, daqui rumamos para dizer que nossa ordem passou por alguns momentos até estarmos hoje em tempos de maçonaria simbólica. Era sobre esse vôo histórico que dizíamos ao início do trabalho.

Assim, passamos por algumas fases, sendo a primeira aquela que se quis chamar “Maçonaria Operativa”, tempo em que construtores se uniam em torno dos segredos do labor, da regulamentação da profissão e ademais, ligavam-se pela assistência social mútua. A partir do século XVI, por motivos que aqui não cabem ser ditos, a maçonaria operativa perde força por conta de um declínio das construções e ademais pelo decrescente número de profissionais na arte. Nesse momento, inicia-se a transição da maçonaria operativa para a maçonaria especulativa. Essa passagem é marcada pela aceitação de membros que não faziam parte da profissão. Esses homens eram nominados “maçons aceitos”.

Os períodos de transição trazem mudanças e importam na refundação do tempo. Nesse caso, o tempo da maçonaria constituir-se-ia em outro tempo. Nesse caso, em que pese a necessidade de um outro estudo que poderia abarcar a cisão entre franco-maçons e companheiros, não poderíamos enveredar por ele agora. O que a nós é importante perceber é que um novo tempo nascia dentro da maçonaria, pois é de tempo que estamos tratando aqui. O certo é que essa separação deu origem à Grande Loja de Londres em 1717 – o que significa a afirmação da maçonaria especulativa.

Entendemos que um outro ponto de interesse nesse momento é o tipo de pessoas que agora se somavam à maçonaria. Filósofos, padres, intelectuais, ou seja, homens ocupados com o encontro ou a construção da verdade. Uma busca que move a civilização ocidental desde a aurora dos tempos. E aqui não usamos o verbo construir em vão, adiante esse será o mote utilizado para achegarmos em nosso tema principal.

Crescimento maçônico seria então crescimento interior, nada relativo aos valores que no mundo profano dizem de um homem bom e outro que não pode ser considerado bom

É evidente que a maçonaria é aquilo que os maçons fazem dela, portanto, quando a ordem passa a se considerar uma ordem especulativa, a existência humana deveria ser refletida pelos maçons, observada, questionada e pensada de maneira que a maçonaria tornava-se um local privilegiado de homens ocupados com o outro, com a construção e efetivação dos valores humanos, sobretudo aqueles que viriam fundar a Revolução Francesa: igualdade, liberdade e fraternidade.
A maçonaria operativa nos legou monumentos que podem ser admirados ao redor do mundo e em nosso país. A história dela foi contada pelas construções de seus membros, que inscreveram na história um rumo estético, arquitetônico que amolda também os homens que vivem por entre essas construções. No entanto, com a passagem à maçonaria especulativa, vemos movimentos de ruptura na história do mundo, tais como a Revolução Francesa, norte-americana, as revoluções libertadoras na América Latina, além de movimentos internos como a revolução farroupilha e também a inconfidência mineira.
Realmente é necessário percorrer nosso passado para entenderemos o que somos no dito presente, até mesmo para que os mesmos erros não sejam cometidos. Nesse sentido, pensamos que devemos olhar para trás e tentar ver um espelho, pois, construímos monumentos com nossos irmãos operários, revolucionamos o mundo com nossos irmãos especulativos, e hoje, o que somos enquanto maçonaria? Qual a missão? Qual o sentido da maçonaria no mundo de hoje?

Infelizmente irmãos, não lhes venho trazer respostas claras e saídas óbvias e vazias de sentido e realização. Proponho, ao contrário, problemas e possibilidades de reflexão. É nesse ponto que a questão formal e material vem se juntar à nossa história de glórias e vem nos trazer questões para nossa condição atual.

Assim, estaríamos nós, maçons de hoje, condenados a encerrar a história da maçonaria? Pergunto isso, pois, se não construímos templos, se não refletimos sobre as principais questões humanas e sociais, se nossas obras não mudam a realidade, o que significa dizer maçom hoje em dia? Tentando responder isso penso que tentarei dizer qual a nossa missão no mundo de hoje. Reconhecemos as ações maçônicas, mas ao mesmo tempo, reconhecemos uma fragmentação desses valores, e uma quase ineficiência.

Bom, penso que a missão é complexa e simples ao mesmo tempo. Pois a maçonaria nos ensina que devemos ver um reflexo de nós no mundo, ou seja, buscar um conhecimento interior, uma elevação espiritual para que possamos adentrar cada vez mais naquilo que se chama espírito maçônico. Este caminho, por certo, interior e individual, leva o homem a transcender sua existência e torná-lo para além do que ele é. A reflexão, o estudo e as ações sensíveis a esses conhecimentos seriam um bom cardápio a ser apresentado nos dias atuais. Crescimento maçônico seria então crescimento interior, nada relativo aos valores que no mundo profano dizem de um homem bom e outro que não pode ser considerado bom. Assim, há uma crise de valores no mundo profano, essa crise, acentuada por um capitalismo que privilegia um mundo falso, fugaz e sentimentalmente inócuo, poderia ser solucionada pela maçonaria? Ou, em melhores palavras, o maçom, o que poderia fazer para mudar os rumos dessa prosa?

Disse que era tarefa simples e complexa e agora me explico. É complexa, pois temos que alterar uma subjetividade individualista, monetária, sem sentido espiritual e que por estar em um momento de crise não encontra local para se apoiar. No entanto, é simples, pois o homem é senhor de seu destino, e construtor da história, por isso é simples, posto que apenas nós, homens, podemos alterar esse cenário. Assim, a palavras crise, em sua etimologia grega,krysys,significa aquele momento em que o paciente ou morre e sucumbe à doença, ou reage e convalesce. Esse, portanto, é o momento em que estamos:o de crise, e cabe aos homens, como médicos de si, mudarem seus métodos para alcançarem novos fins. União pelo espírito, pois os interesses, apenas nos desunem.

Caminhando para a questão da formalidade e materialidade, vamos mostrar nossa concepção do que pensamos ser uma boa saída para esse momento de crise. Em primeiro gostaria de explicar um termo que agora passarei a utilizar, o de maçonaria formal. Não o vi em nenhum livro, portanto é uma livre criação inspirada nos poucos dias de vida maçônica que possuo. Esse termo se alia ao que chamei de sentido formal no direito. Está ligado ao cumprimento formal da situação de maçom, ou seja, vestimenta adequada, estrito cumprimento da presença em Loja, respeito à leis maçônicas. Isso seria o que chamaria de maçonaria formal. Seria em poucas palavras a descrição formal do que é ser maçom. A expressão em leis e em determinadas formalidades que caracterizam a idéia de maçonaria formal.

De outro lado, existiria o que chamei de maçonaria material. A maçonaria material seria o efetivo cumprimento dos valores e do sentido da maçonaria. Essa maçonaria material, muitas das vezes aquela que se realiza fora dos templos, existe quando o maçom sai de uma condição inerte ante a sociedade em que está inserido e faz com que o enunciado de fazer refletir na cidade aquilo que ele construiu dentro de si seja efetivamente cumprido. Seria, então, referindo ao exemplo de igualdade material, a realização da igualdade entre homem e mulher na prática e não apenas perante a lei. A maçonaria material dá a compreensão e aplicação dos preceitos maçônicos. Simplificando os termos, poderíamos considerar uma maçonaria ativa em detrimento a uma maçonaria de templo. Não que a maçonaria formal elimine a maçonaria material ou a maçonaria material elimine o conceito de maçonaria formal, mas para uma real construção da história, como mencionamos acima, é necessária a aplicação dos dois conceitos, ora, quando em verdade, assumimos espiritual e fisicamente os preceitos maçônicos, tornamo-nos outros homens, e assim, outro também será o tempo, outra também será a história.

O mundo de hoje é o que realizamos nele. Não nada além do que o que nossas atitudes vão contar

Agora que estamos já familiarizados com essa terminologia, proporia então uma existência integradora entre os dois conceitos. O conhecimento das leis, seu cumprimento, o comparecimento em loja, tudo isso aliado a uma necessária introspecção, a um afivelamento necessário da máscara espiritual maçônica, seu cumprimento enquanto reflexão e reflexo de nossa existência. Irmãos, saiam dos templos!!! Essa seria a missão da maçonaria nos dias atuais. Nesse caminho, não apenas com serviços filantropos que se afiguram como a base de nossa ordem. Mas sejamos sujeitos da esperança. Sejamos, de fato, homens livres e de bons costumes. Que nossa liberdade nos permita criar algo novo ante o desconhecido. Novos pensamentos, ideias e ideais novos tempos. Homens munidos de deveres maiores perante o outro. Homens com bons costumes perante qualquer ser humano, sobretudo aquele que não é parecido conosco, que não propugna nosso credo, que não segue nossos princípios, pois fazer o bem àquele que já pretende sê-lo é o mesmo que nada.

Percorremos brevemente nossa história para sabermos quem somos. Dizemos de alguns problemas contemporâneos para nos localizarmos dentro dos dias atuais. Trouxemos a idéia de maçonaria material e maçonaria formal para que reflitamos sobre nossa função perante a sociedade. Proponho então, como resposta à missão da maçonaria no mundo de hoje, uma relembrança do que em verdade um dia já fomos, e, de novo, para que esse passado glorioso seja inspiração e espelho para nossa existência hoje. Uma revisão constante de nossa condição de maçom. Estamos a viver uma maçonaria formal ou material? Adianta a mim apenas cumprir os ritos sem que anuncie ao mundo o mito maçônico? Adianta anunciar o mito sem manter o rito, para que nossa história seja contada?

Defendo uma maçonaria formalmente bem estabelecida, mas necessariamente materialmente realizada. Com verdadeira apreciação do espírito para uma sensibilização aos nossos valores e um crescimento espiritual para que não caibamos dentro de nossos templos e saiamos ao mundo para anunciar a “boa nova” que nasceu de dentro de nossas reflexões, de nossos debates e de nossas aflições.

O mundo de hoje é o que realizamos nele. Não nada além do que o que nossas atitudes vão contar. O futuro e o passado são escritos no mesmo tempo, diferenciam-se apenas quando mudamos o ângulo por onde observamos o tempo. Tempo em que a maçonaria deve tomar como seu, e construí-lo a partir de si e para os outros. Nossa ordem só existirá na medida em que se realizar perante o mundo. Isso que proponho enquanto uma maçonaria material é aquela que torna palpável o espírito maçônico, que faz reluzir pelas ruas os ventos nascidos dentro dos templos. Nossa missão, caros irmãos, se um dia foi construir grandes monumentos, se outrora fora criar bases de valores e pensamentos, hoje, penso, é tempo de realizar, tempo de viver na maçonaria, tempo de olhar o outro através de nossos valores, tempo de criar uma nova subjetividade.

Tempo de ser maçom e não tempo de estar maçon. Ser maçom é sentir materialmente nossa história em nossas veias e em nossos passos. Estar maçom é no dia das reuniões vestir sua roupa, apanhar seu livro de rito e dirigir-se ao templo. Nossa missão é a de dirigir o mundo de dentro e de fora de nossos templos, e não a de dirigirmo-nos para os nossos templos.

Sobre o Autor

ARLS Acadêmica Libertas Homini n° 3835 GOB/MG Oriente de Conselheiro Lafaiate

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