PARTE I

A 5ª Instrução do Grau de Apr∴ M∴ pode nos levar a refletir sobre o comportamento interior e exterior do Maçom. No início da instrução as perguntas versam principalmente sobre a dimensão da Loja Maçônica: uma figura em três dimensões tendendo ao infinito em todas elas. Mas, logo em seguida a instrução traz uma afirmação que nos relembra que o tema principal é a moral e a ética. Eis a afirmação: “…a Maçonaria é universal e o Universo é uma imensa oficina”. A Maçonaria não existiu, não existe e não seguirá existindo sem homens virtuosos que a componham este Universo. Ocorre que os homens são indivíduos idiossincráticos, isto é, cada um tem características que não se encontram nos demais.

Então, surge-nos uma primeira questão: como construir em bases e com colunas sólidas uma instituição universal com seres tão singulares. Acreditamos numa resposta: formação ética e moral, na qual “o Homem Material desaparece diante do Homem Moral”. É como se disséssemos que a moral maçônica supera em larga margem os valores usuais no mundo profano. Talvez possamos compreender que o termo ‘desaparecer’ significa que os valores superiores têm que sobrepor-se aos inferiores. É evidente, mas devemos reforçar que somos maçons e não, ascetas ou ermitões, por isto, vivemos e convivemos com muitas coisas do mundo profano (trabalho, família, amigos…). Uma das características das belezas da humanidade é justamente o diferente propiciar a criação do objetivo comum com elementos aparentemente tão diferentes. E é no objetivo comum que encontramos a universalidade de nossa augusta instituição: “manifestação da solidariedade humana, sem a qual as atuais gerações, não fortalecidas, deixam de concorrer para o progresso das gerações futuras”.

Aliás, nesta instrução além da Beleza, a Sabedoria e a Força são mencionadas como sendo as três colunas em que se apóia a nossa Loja. Simbolicamente temos no templo a coluna coríntia, no altar do Ir∴ 2º Vig∴ no ocidente, como um representante da Beleza que nos propicia repouso. A coluna dórica, no altar do Ir∴ 1º Vig∴, ao norte, a representar a Força, por meio da qual somos pagos. Por fim, temos a coluna jônica, no oriente, no altar de Salomão, como representação da Sabedoria que nos dá direção.

Mas, o tema da 5ª instrução é a moral e a ética. Nesse sentido vale ressaltar que a ética é a “parte da filosofia responsável pela investigação dos princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano”. Conexo a isto temos a moral como sendo um “conjunto de valores, individuais ou coletivos, considerados universalmente como norteadores das relações sociais e da conduta dos homens”. É aqui que os homens separam-se dos animais. As virtudes de sabedoria, beleza e força aliadas à ciência moral levam-nos ao entendimento, por ora provisório, de que o homem tem valores individuais e coletivos que podem ser aperfeiçoados. Talvez daí decorra aquela frase que ouvimos ou até mesmo já tenhamos dito: “cicrano já era maçom mesmo antes de adentrar a maçonaria”. Mas, creio que todos estejam de acordo de que uma vez iniciado na moral da nossa augusta instituição esse maçom será diferente daquele potencial maçom não iniciado. Diante disso, convém destacar que o homem é um ser plástico, e sem a sabedoria tal aperfeiçoamento poderá resultar num ser humano subdesenvolvido, ou pior, num degenerado, um imã capaz de atrair os piores vícios. Em qualquer situação, temos o livre-arbítrio, mas será que temos a sabedoria e a força necessária para bem utilizá-lo? É a ideia de que o homem torna-se, por sua própria natureza, o arquiteto de si mesmo. O que pode ser sintetizado no célebre dito socrático: “Homem conheça-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”. Sócrates era um pensador grego que acreditava que a virtude, uma vez adquirida, nada nem ninguém poderia lhe retirar tal aquisição.

Poderia perder-se a vida, a liberdade, a fama; mas jamais as virtudes verdadeiramente conquistadas. Sem virtude não é possível tratarmos de nada que diga respeito à ética e à moral. Além do mais, uma virtude não existe sozinha. O indivíduo numa ilha deserta não é virtuoso. Assim, necessitamos do outro para nos tornamo-nos bons. E a esta tarefa, a Maçonaria não se furta. Por isso, na 5º instrução insiste-se em ter-se e/ou desenvolver-se a sabedoria aliada à força e à beleza. Haja vista que “… a Sabedoria cria, a Força sustenta e a Beleza adorna”. Aí temos a clara preocupação com a construção do homem moral, o qual não se caracteriza por uma virtude ou outra, mas pelo conjunto delas. Este é um dos caracteres que reforça a universalidade, oposta ao regionalismo, deve ser a nossa meta. Assim, o homem universal é o homem moral. A maçonaria universal é maçonaria, se for regional, já não sei o que ela é.

PARTE II

Ora, por que as virtudes nos são essenciais? Ela é a antítese dos vícios. Dentre os vícios que devemos recorrentemente combater e aniquilar é aquele tido por ser a mãe de todos os demais: a ignorância. E este vício a Maçonaria trava uma cruzada diária e ininterrupta. Mas me pergunto: como reconhecer um ignorante? Por sua postura, ele tem como característica fundamental o nada saber, o saber mal e/ou o saber além do que se deve. Ora como conciliar esta caracterização com a de Sabedoria. Impossível! Na Sabedoria encontraremos os tolerantes, os fraternos, o respeito a si mesmo, o amor alimentando a concórdia. O ignorante não sabe reconhecer a Verdade e, inclusive, vai contra ela, opõe-se ao Bem e a Perfeição. Para ele nada poderá se justo e perfeito. Mas ressaltamos que devemos compreender que “o bom não é igual ao útil ou ao perfeito”. Ser bom e perfeito está na raiz do ser maçom. Entretanto, às vezes nos parece que predomina o simples fazer, isto é, o ser útil sem saber para quê. É como aquele sujeito que dá esmolas sem se preocupar com o que o indigente fará com o dinheiro; ora, creio que um maçom deve ser mais do um fazedor, ele deve ser prudente e previdente. Não podemos corroborar com o argumento de que “eu fiz minha parte, se houve erro foi naquilo que o outro fez”. Ora, não somos Pilatos.

Voltando à questão do vício. Pode ocorrer que certos vícios tenham a aparência de sabedoria ou de qualquer outra virtude. Este é o caso do fanatismo. Neste, o indivíduo pretensamente entende-se agindo em nome de Deus. Daí decorre a exaltação religiosa, a perversão da razão e a insensatez. É um exclusivista nas questões teológicas. Um perigo que a Maçonaria deve ter enfrentado recorrentemente ao longo de sua história. Talvez por isso recomenda-se a tolerância religiosa para aqueles que trabalham entre colunas. Ela é um tipo de superstição em que o crente acredita agir em conformidade com os são princípios da religião, da ética e da moral. O indivíduo fanático e o mundo do fanatismo não nos conduzirão à felicidade e nem ao desenvolvimento de nossas virtudes. Nada de trevas, de falsidade, de mentiras, buscamos a Luz, o Conhecimento e a Verdade. Com estes valores, como um norte poderemos construir uma sociedade efetivamente justa e feliz, em conformidade com os três deveres da moralidade: “para com Deus, para com o seu semelhante e para consigo próprio”.

Diante disto nos perguntamos: há remédio para a ignorância, o fanatismo e os vícios em geral? Sim. Neste caso a Maçonaria uma vez mais tem muito a nos oferecer. Trata-se da Solidariedade. Gostaríamos desde já ressaltar que solidariedade não é sinônimo de benefícios exclusivos a um pequeno grupo de indivíduos seletos. Até porque isto atentaria contra a universalidade que se apregoa na Maçonaria e que é um dos fundamentos das virtudes humanas e morais que devem reger no convívio em sociedade. Proveito pessoal não combina com fraternidade maçônica. Que um profano creia nisto, ok, não temos muito que fazer. Mas um Ir∴ deve ter claro que estamos numa Fraternidade que deve superar esses estreitos limites impostos pelo egoísmo. Tenho comigo que estar na Maçonaria não é estar num lugar para mim, mas para os outros. Eu não sou nada, o que importa é a obra. Ser pedra polida não é nada se ela não servir a uma obra. Assim compreendo a Fraternidade e a Solidariedade. Por isso que, “a solidariedade maçônica está onde estiver uma causa justa”. E é a justiça aliada à moral que deve fortificar nossos laços de fraternidade e solidariedade. Ocorre que esta é uma demanda que regularmente tem que ser colocada, para que não nos esqueçamos das nossas obrigações com a Irmandade e com a sociedade. Uma corrente é tão forte quanto o seu elo mais fraco, assim, é fortalecendo o grupo na construção de valores humanos e universais é que a obra da Maçonaria há de ter firmes alicerces e colunas, e poderá durar. Talvez por isso, não seja incomum um Ir∴ preferir outro Ir∴, pois há um senso de justiça e honestidade que preconcebemos existir naquele que compõe esta fraternidade. Sim, desde que tal não ofenda aos princípios morais e intelectuais e às virtudes que tanto defendemos renhidamente. Nosso trabalho não é construir uma sociedade para uns poucos e privilegiados, as nossas qualidades devem ser postas a serviço da humanidade para a construção de uma sociedade progressista, justa e feliz.

Não por acaso, ao final desta instrução fica evidente o papel do maçom e da Maçonaria, a saber, “em educarmo-nos, instruirmo-nos, corrigindo nossos defeitos e sendo tolerantes (…) com as crenças religiosas e políticas de cada um”. Assim, a moral, a ética, os valores humanos devem ser efetivamente nosso guia de conduta seja esta interna ou externa. Nossa conduta determina os rumos de nossas obras, sem Luzes que nos orientem podemos, mesmo que com boas intenções, nos perder e fazer perder uma Irmandade, uma sociedade ou até mesmo o gênero humano. Logo, prudência e bom-senso devem nos orientar nessa construção ética e moral que preconizamos para cada um de nós em particular e para a humanidade como um todo. Como um passo inicial, ressalto as palavras do francês René Descartes: “O bom senso é a coisa do mundo mais bem partilhada, pois cada qual pensa estar tão bem provido dele, que mesmo os que são mais difíceis de contentar em qualquer outra coisa, não costumam desejar tê-lo mais do que o têm”. É um convite a refletirmos sobre nossas certezas. Somos educadores, mas somos educados? Temos a certeza de uma resposta afirmativa. Logo, o bom-senso é sim um excelente primeiro passo nessa tarefa de polirmos pedras e construirmos obras. Por fim, eu tenho que ser a obra que quero para o mundo, se o quero mais tolerante, sábio, prudente, belo, harmônico, é isto que eu tenho que ser e em conformidade com isto, como pedreiros que somos todos, agir.

Referências Bibliográficas
– DESCARTES, René. Obra escolhida. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1994.
– Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, 2009.
– DYER, Colin. O Simbolismo na Maçonaria. São Paulo: Madras, 2010.
– Instruções. Aprendiz Maçom Gr∴ 1 – REAA, 2011.
– Loja de Aprendiz Maçom Gr∴ 1 – REAA: Ritual dos trabalhos em Loja, Ritual de Iniciação, Cobridor. 2013.
– URBANO Jr., Helvécio de Resende. Templo Maçônico. São Paulo: Madras, 2012.

Sobre o Autor

ARLS Geminiano José das Virgens Júnior “Maninho” nº 180 - Oriente de Uberlândia • GLMMG/CMSB

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