A oposição entre a razão científica e religiosidade (não necessariamente religião), para muitos, é o fator maior que leva ao Estado laico. O expoente desse processo é a secularização, ou laicização, e a defesa da liberdade religiosa. Conquistas que propiciaram a efetivação de grandes mudanças no campo religioso contemporâneo.

A separação entre Estado e religião desmantela o monopólio religioso, erodindo, senão totalmente, ao menos parcialmente, as prerrogativas que uma religião oficial usufruía de sua aliança política com governantes. Temos como resultado a garantia legal da liberdade e da defesa da tolerância religiosa, levando ao pluralismo e à sua proteção.

Com a secularização a administração pública passa a garantir liberdade aos indivíduos para escolherem sem pressões externas qual fé professar. Permite o livre exercício dos grupos religiosos, concedendo-lhes, ao menos no espaço jurídico, tratamento de igualdade entre si. Cultos, doutrinas e liturgias das diferentes religiões adquirem o mesmo estatuto legal perante o direito estatal e os cidadãos. Nasce o chamado Estado democrático de direito, que deverá dar proteção à liberdade religiosa de acordo com as preferências pessoais dos indivíduos, além de garantir o ingresso e a formação de novos grupos e movimentos religiosos.

A liberdade religiosa propiciada pela secularização, com a liberdade individual e institucional assegurada política e juridicamente tão somente pelo liberalismo, está na raiz da formação do pluralismo religioso e do mercado religioso concorrencial. Marca-se um novo mundo, fundamentado na possibilidade dialógica, racional, da fraternidade entre os povos.

O Estado moderno submeteu os grupos religiosos ao império da lei, domínio secular este que todos os agentes sociais, incluindo os dirigentes da burocracia e dos poderes estatais, deveriam se subordinar. Assim, surgiu certa homogeneidade cultural e nacional.

O nosso tempo, num processo de décadas, evidência as transformações ocorridas nos diversos níveis das estruturas sociais. São modificações das representações coletivas, das mentalidades. Vivemos um tempo no qual a mudança de eixo do pensamento concretiza a ação de uma nova visão de mundo. É a passagem da transcendência à imanência, implícita na ideia de progresso, como aconteceu com a mudança de visão em relação à natureza e a entrada da linguagem matemática e racional.

Contudo, o individualismo tornou-se a expressão básica de nossos tempos. Assim como, formatou-se, vamos dizer assim, num conceito político, moral e social, sempre a exprimir a afirmação e a liberdade dos indivíduos frente ao grupo, à sociedade e ao Estado.

A exacerbação da laicidade levou ao individualismo, e opõe-se a toda forma de autoridade, ou controle, sobre os indivíduos, coloca-se em oposição ao coletivo naquilo que concerne à propriedade. Gera o individualismo. O individualista pode permanecer dentro da sociedade e das organizações que tenham “o indivíduo” como valor básico, porém, criando uma situação de permanente tensão entre cada um e as instâncias da vida social.

O racionalismo atual evidência a nova posição do homem e da sociedade, em condições de realizar questionamentos através da operação mental, discursiva e lógica. Para tal, abrimos mão de muitos dos valores antigos, assim como das religiosidades, e colocamos o mesmo racionalismo na base do planejamento econômico, moral e social. A possibilidade de adquirir conhecimento, algo quase que tornado perene, é constantemente validado com a interpenetração entre “natureza e razão”, fator este que levou à matematização da natureza e ao abandono da preservação ambiental..

Após tudo o que foi explanado, emerge aqui algumas questões que virão a ser respondidas posteriormente pelos leitores em seu íntimo. Após o processo de secularização – pelo qual ainda passamos, em especial nas últimas décadas – podemos dizer que estamos vivendo melhor? Somos mais íntegros, mais felizes? Atingimos a almejada meta de que, quando o homem e o mundo fossem entendidos, ambos tornar-se-iam partes de uma mesma realidade?

Vivemos de verdade?

Muitas pessoas que abrem mão de suas características internas de “bem viver” e acabam por optar pela mais pura neutralidade nas relações com o mundo. Eis algo que chama constantemente a minha atenção. Sempre achei que racionalidade era, ainda, característica que precisava estar presente no comando das nossas vidas, independentemente da ação tomada. Claro, desde que fossem mantidos os objetivos, tais como o de atender aos interesses da vida que cada um leva. Afinal, qual é o sentido desta nossa vida? Apenas o de pagar as contas e as muitas dívidas que nos são impostas?

Vivemos de verdade? Ou somos personagens locais, nacionais, internacionais? Afiguramos-nos de várias personas para que tenhamos a capacidade de enfrentar, quando preciso, o que nos é colocado no caminho diário? Crianças, jovens, adultos, idosos, todos, sem exceção, parecem dogmatizados por essa vida hodierna de consumo, informação e “deveres” para com o sistema financeiro vigente. Condições de vida que teimam em propagandear que “nos une”.

A vida está a gerar “fraternidades passageiras”, salvo casos isolados. Temos inimigos virtuais, mas, amigos digitais. Nos dois casos, não se pode demonstrar “fraquezas” como opiniões, ideias, etc. Conflitos internos passam a ser desligados do mundo externo e, muitas vezes, surgem como terremotos nas vidas daqueles desconhecidos que, com o noticiário policialesco, passa a ser a “vedete” do dia. Assim como as políticas feitas no Brasil e em outros países, e que rapidamente surgem e crescem na pressa, na velocidade com que os dados trafegam na rede, mas, sem raízes que levem à sua consolidação. Como as políticas não possuem qualquer base, partidos, personalidades, cargos, são extintos nas primeiras tormentas.

Não há a necessidade, muitas vezes, da qualidade. Basta depender o que a sorte destina aos novos famosos. Pessoas, aos milhares, preparam-se para conservar o que a fortuna lhes concedeu para lançar, depois, alicerces que construam uma vida na qual possam ser os governantes. A fortuna era uma deusa que, em outros tempos, possuía os bens que o homem desejava: honra, riqueza, glória, poder.

A virtude é a energia, ou vontade, dirigida para um objetivo. Maquiavel, na sua obra “O Príncipe”, montou um cenário para comprovar que era possível estabelecer aliança com a virtude. O poder que nasce da própria natureza humana encontra sua base na força, na imposição das ideias, mas o importante está na sabedoria no uso da força. Vamos transcrever força como vontade. Logo, se quisermos manter o governo da nossa vida, o poder sobre ela, não basta ser simplesmente o que possui mais sorte, ou aquele que mais se relaciona. Deve possuir conhecimento e vontade para adquirir as condições necessárias a manter suas idéias sem interferências externas e o domínio do que foi adquirido.

A sorte, boa ou má, acaso ou oportunidade (propícia ou desfavorável), pode ser fugaz ou estar na sua mão. Cada um pode decidir o momento certo, antecipadamente calculado. Saber o momento do êxito garantido, agora, não pela “roleta da vida”, nem pelo que dizem a você o que deve ou não ser feito, mas pela perspicácia aprendida para manter em ordem a sua vida. . A crença na predestinação, ou fatalidade, domina apenas os que não possuem vontade.

Se isso serve para a política, como nos exemplos citados antes, acho que sim. A atividade política foi, um dia, prática de homens livres, quando o homem era sujeito da história limpa.

Enfim, aqueles que conjugarem virtude serão agraciados com a sorte (fortuna). Esta, sinônimo de algo transcendental e, como tal, não controlável pelo homem, caracteriza-se como um dogma a ser superado. Aliados, estes dois elementos formam o senso de organização do homem moderno. Algo que o ajudará a transmutar sua própria natureza, a fim de manter sua posição de vontade independente das condições de sua sorte.

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ARLS William Wallace n° 4125 GOB-RJ Oriente de Rio de Janeiro

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