Mais uma vez na história, a paz do nosso Oriente depende do balanço agônico da travessia do Pacífico oceano. São surpreendentes as ondas que desembocam nos rios, submergindo e maculando suas nascentes, seus confluentes e seus influentes afluentes. A nossa independência moral se faz em nossos atos cotidianos, do mesmo modo que ela pode ser negada cotidianamente na corrupção, na timidez e no medo de depositar na urna um voto, em troca de absolutamente nada.

E, ainda que a Instituição encontre sua versão mais radical dentro do GOBRJ, é necessário que se respeite os limites das lojas e as fronteiras do paraíso bíblico com seus preceitos morais. Do contrário, a filosofia e a doutrina maçônica passarão a ser uma mera diversão e ilusão da mente, violando a alma do Maçom. Há Maçons altruístas no ninho, mas razões subjetivas produzem estranhos no ninho. O estranho é que, de tanto pousar estranhos no ninho, mais estranhos passam a deter o poder no ninho, mais estranhos passam a se alimentar no ninho e a chocar ovos estranhos no ninho. Mais do que um momento de desfiles de medalhas, comendas, títulos de sapiência e discursos repetitivos, deveria ser como em algum tempo foi: motivo de reflexões sobre nossa história e o destino que pretendemos. Não podemos obrigar ninguém a se dedicar à Maçonaria, mas podemos exigir que sejam respeitados os sentimentos de cada um de nós. Desde que há registros históricos, sempre houve e haverá os que temem o futuro da Instituição. Sofrer e sonhar, esperar, temer, lutar e resistir são as condições que o ato e a arte de viver nos impõem. A Maçonaria não é projeto dos deuses, nem obrigação cósmica: ela é feita pelos homens e pela história, com seus acertos e desatinos; não é bruxa, nem fada – ela é regida, em cada minuto, pela vontade dos Maçons e pelos fatos que essa vontade determina.

A Maçonaria não tem donos; tem protagonistas que se iludem e se seduzem pelo ambiente afrodisíaco do poder, pois o verdadeiro Maçom sabe que tudo é política, mas política não é tudo. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. O vaidoso extrai dor de um fio de cabelo desalinhado, desespero de um olhar sonegado. Seus sonhos voam acima das nuvens, e adornos ofuscam de modo a esconder sua verdadeira face. O vaidoso, como Lúcifer, morde a fruta do Inferno, acreditando ser a maçã do Paraíso; esculpe a vã pretensão de se tornar imortal, esquecendo que o poder é tão sólido como uma nuvem de verão. Às vezes, um instante de utopia e felicidade nos embala ao eleger um Irmão. No entanto, como por encanto, o canto das águas e a toada da chuva inundam o GOBRJ nas águas cheias de março. Sozinho, um Maçom não tece uma manhã. Para que a manhã de um novo amanhã teça fios de esperanças, é necessário que se legitime sem adorno e sem contorno, concedendo a voz ao dono da voz, para que todos nós, que sonhamos desatar os nós que giram sobre todos nós, possamos separar o contra dos prós. Filosofar é uma história, administrar é outra. Há Maçons teólogos que se tornam bispos – nem por isso se revelam bons pastores. Há Maçons cristãos que se acham santos, e Maçons ateus que se consideram deuses. Há Maçons que ostentam bens e sonegam dons. Há Maçons de aguda ótica e duvidosa ética. Mas há também os que esperam tempos de felicidade e paz para o nosso Oriente. Enquanto, em cada Oriente do Brasil, o Maçom não souber cultivar e velejar seus sentimentos de fraternidade, honestidade e sinceridade, o mundo maçônico continuará sendo inóspito. Nós, Maçons, somos como pequenas células missionárias que, em cada colheita, inflamos nossos sonhos em forma de balão, em um voo rumo utopia.

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