Tenho lido que, a cerimônia de iniciação tem o simbolismo do renascimento do profano, ou seja, desta vez nascer para a luz.

Todavia, não basta nascer…
Há que se crescer sob os raios da Luz!!
Para crescer sob os ensinamentos de luz, há que se viver sob a clareza da luz!
Para que sinta e viva sob os raios da luz, o profano deve ser iniciado nos segredos maçônicos, ou seja: se instrumentalizar para criar em si um homem totalmente novo, graças a força dos conhecimentos maçônicos adquiridos, da sua força de vontade e pelo seu espírito. Conhecer a luz, e procurar viver na luz, significa ter a capacidade de se despojar das ilusões enganosas do mundo profano, dos preconceitos, das vaidades, do orgulho, da ambição mesquinha, lembrando que todos nós devemos ter ambições na vida, porém ambições saudáveis, dentro dos princípios maçônicos.
Viver na luz, é ter força de vontade para trabalhar em si mesmo, buscando se elevar espiritualmente, apresentando um comportamento social e familiar condizente com os princípios e espírito maçônico.

Todavia, a minha experiência pessoal no ritual de iniciação, além dos simbolismos, ensinamentos e dos objetivos que a literatura maçônica apresenta, me fez vivenciar outros simbolismos, que me levaram a profundas reflexões sobre o significado da vida ante os princípios maçônicos.

O fato de me deixar conduzir, de olhos vendados, semidespido, na ausência de luz, sem direção, enfrentando mistérios e perigos desconhecidos sob ação assustadora dos quatro elementos da natureza e, nesse ambiente, ser constantemente questionado se persistia o meu propósito em deixar a vida profana; tendo ainda que saborear a bebida da verdade, me submeter à ponta fria do compasso e enfrentar as espadas contra mim e, ainda, dentro daquele clima psicológico de mistério, ter que confirmar ou não a decisão de enfrentar os desafios misteriosos e assustadores do “novo” ou desistir, continuando no mundo do ilusório conforto que a vida profana oferecia, muito contribuiu para mostrar o quanto a vida maçônica pode ser rica, se tivermos a humildade e perseverança para absorver seus ensinamentos, que fluem do mais simples detalhe até as ritualísticas mais cheias de pompas e vestimentas rebuscadas.
O quê, na verdade, o ritual da iniciação me fez sentir?

I. Primeiramente mostrou que, ser irmão maçônico, é não estar desamparado.

Realmente, assim como no ritual de iniciação, há momentos difíceis em nossas vidas na qual vivemos situações de incertezas e até de medo, muitas vezes nos cegando pelos acontecimentos que nos afligem. Nesse momento, falta-nos luz para nossa orientação e tomada de decisão quanto ao caminho a seguir e à forma de superar ou desviar dos obstáculos. É a vida! Todavia, a cerimônia ritualística de iniciação mostrou que, quando me mostrei perdido e assustado pelo ineditismo do momento vivido, sempre tive ao meu lado um irmão me conduzindo, me inspirando segurança. Eu não estava desamparado! Simbolicamente, a lição assimilada foi: sempre poderemos contar com um irmão maçônico! Portanto, eu também deverei estar disposto a ajudar o irmão que estiver vivenciando momentos de trevas em sua vida. A irmandade maçônica estará sempre disposta a amparar um irmão pelos caminhos tortuosos e cheios de obstáculos que a vida caprichosamente nos oferece. Eu de olhos vendados me senti amparado e seguro, como aprendiz sendo conduzido pelo Mestre rumo ao caminho da luz.

II.Mostrou também, de forma concreta, que a humildade abre portas para a solidariedade dos irmãos maçônicos.

Sim, pois temos que ter humildade para receber ajuda de um irmão mais iluminado. Muitas vezes a vida nos coloca em situações tais que, nos sentimos assustados, com medo do desconhecido, nosso senso de orientação e de tomada de decisões ficam comprometidos; ficam às cegas.
O ritual da iniciação me mostrou de forma clara que, em situação de insegurança e de cegueira momentânea imposta pelo ineditismo de certas situações que a vida nos apresenta, temos que ter a humildade em aceitar auxílio daqueles irmãos solidários que tem a luz e, consequentemente, melhor visão do ambiente que nos cerca, podendo nos orientar e até nos acompanhar em nosso caminho até que recobremos nossa visão, nosso senso crítico de orientação e de tomada de decisões, agora enriquecida pela companhia do irmão solidário. Naquele momento da minha iniciação, sendo conduzido de forma atenciosa e solidária por irmãos desconhecidos, mas que tinham a luz e conhecimento para me conduzir com segurança, aprendi que apenas a humildade abre as portas para que irmãos possam entrar com sua solidariedade. A soberba, a arrogância, fecham portas e, com certeza, eu sozinho não teria vencido os obstáculos a que fui submetido. Lembrando que, os irmãos que estão fora do furacão dos acontecimentos, tem sempre a possibilidade de melhor visão das alternativas possíveis.

III.Mostrou, ainda, a confiança recíproca que deve imperar entre irmãos maçons!

Da mesma forma que o neófito confiou no irmão, a tal ponto de confiar a condução de sua vida ao Mestre iluminado, enfrentando os quatro elementos da natureza, vibrações, barulho de espadas e trovões por caminhos misteriosos, o Mestre também confiou no neófito, no sentido de que este, não o trairia no percurso do caminho e que o iniciante seguiria seus conselhos dentro das normas de conduta maçônica. Foi a confiança mútua que possibilitou a caminhada vitoriosa simbolizada pelo ritual da iniciação maçônica. Simbolicamente, o ritual de iniciação demonstrou de forma exemplar que a confiança mútua é que solidifica a irmandade maçônica.

IV.Mostrou o espírito de solidariedade que deve nortear o convívio maçônico e as práticas sociais do verdadeiro maçom.

De fato: O simbolismo da solidariedade se faz presente quando um irmão, iniciante ou não, sem a luz necessária para decidir que caminho seguir ou de como superar os obstáculos, recebe auxílio de um irmão que se dispõe a percorrer, de mãos dadas, o mesmo caminho enfrentando os mesmos obstáculos e perigos, encarando a fúria do ar, fogo e água, para, de forma solidária, conduzir o irmão com segurança ao seu destino. Seria o popular, “conta comigo para o que der e vier”. É esse espírito de solidariedade que deve nortear diuturnamente a convivência maçônica, solidificando a irmandade, integrando os espíritos, nos tornando realmente uma família maçônica!

V.Mostrou a importância da perseverança.

Ao adentrar em um recinto nunca antes visitado; ao estar cercado por pessoas estranhas, percorrendo, ou melhor, sendo conduzido por mãos estranhas por caminhos desconhecidos e sem o auxílio da visão para ao menos poder se orientar, não há como negar que certo receio invade nossos pensamentos. Onde estou? Com quem estou? O que estou fazendo da minha vida? Onde estava com a cabeça em me meter em algo desconhecido e me entregar à condução por mãos estranhas?
Naquele ambiente, de ansiedade, de apreensão, medo e até de insegurança, sem a luz para nos orientar, nada somos!
Pois naquela oportunidade, várias vezes fui questionado, por voz estranha, hoje sei ser voz do Venerável Mestre; porém naquele momento, não tinha menor ideia de quem seria. Aquela voz me questionou várias vezes se eu mantinha minha decisão consoante a minha vontade para ingressar em nova vida. Fui questionado se me sentia preparado para enfrentar os desafios e compromissos que tal decisão implicaria… Confesso: Naquelas circunstâncias, poderia sim desistir! Foi uma prova para aferir a perseverança, a vontade de deixar um estilo de vida e enfrentar “o novo” para aprimoramento do espírito, e consequentemente, a conduta. Deixar de ser pedra bruta para ser uma pedra lapidada, polida! Mudar o estilo de vida requer vontade, decisão, compromisso e humildade para confiar e praticar os ensinamentos maçônicos. Requer mais: requer perseverança! Muitas vezes em nossas vidas seremos questionados por terceiros e, principalmente, por nós mesmos: Queremos continuar? Não seria melhor desistir? Acredito até que muitos ingressam na maçonaria através da iniciação, mas, infelizmente, poucos deixam a maçonaria entrar em sua vida! Isto porque ser lapidado é também, perseverar, acreditar, praticar! Não perseverar é esquecer o simbolismo dos questionamentos na cerimônia de iniciação.

VI. Mostrou, ainda, que a honestidade deve fundamentar seus propósitos!

Lembro o sabor da bebida que me foi dado a beber… O doce e o amargor do fel… Lembro a seriedade do compromisso assumido ante as espadas empunhadas. Em ambos os casos, a honestidade de propósito sendo invocada. A honestidade se concretiza mediante conduta condizente com a vontade manifestada. Agir com desonestidade é agir contrariamente ao que livremente se comprometeu ou fez as pessoas acreditarem. Agir com honestidade aos compromissos, juramento e manifestações de vontade manifestada na iniciação é submeter-se à disciplina ritualística com assiduidade e tendo a humildade de reconhecer nossas imperfeições para que possamos nos lapidar. Ninguém se submete a um processo de lapidação, se não reconhecer que há imperfeições para serem lapidadas. Ocorre que ingressar na maçonaria implica em mudar o estilo de vida, e mudar estilo de vida significa aprendizado, prática, perseverança e honestidade de propósitos. Lembrando que a soberba, a arrogância e o orgulho, nos impedem de reconhecer as nossas limitações e imperfeições, dando margem para o afloramento e prática da intolerância, da prepotência, do preconceito, da ambição pelo poder e da ostentação, resultando em comportamentos que ferem a ética, a moralidade e a imagem maçônica perante a sociedade, podendo até disseminar desarmonia na família maçônica. Não conseguindo absorver o espírito maçônico não terá a humildade necessária para se submeter à disciplina das regras ritualísticas e aos ensinamentos que levam ao aperfeiçoamento do espírito, colocando seus anseios pessoais acima do espírito de solidariedade e de equipe que deve nortear os trabalhos e convivência entre a comunidade maçônica. A desonestidade em não cumprir os propósitos de lapidação assumidos na iniciação e a falta de perseverança para vencer as injustiças e os vícios que estão incrustados em nossos espíritos graças à cultura adquirida pela convivência em meio à vida profana, são fatores fundamentais para desistir, ou pedir o quite, enfim, não perseverar, deixando que valores nada nobres da vida mundana imperem sobre nosso espírito. Não perseverar com honestidade de propósito é esquecer o simbolismo dos questionamentos na cerimônia de iniciação.

VII.Mostrou que o medo do desconhecido pode ser vencido, pela força da união solidária dos irmãos maçons.

Muitas vezes em nossas vidas sentimos medo. Medo, principalmente do desconhecido. Nossos pensamentos nos enchem de medos. E após sair de casa e ser vendado ainda no carro, sem saber para onde estava indo, ficando em uma sala com pouca luz, tendo que assinar um testamento, coisa de quem está preocupado com a morte, cercado de objetos e dizeres nada convencionais e, ainda ser conduzido semidespido, pés no chão… É obvio que o medo também invade nosso espírito. E quando há medo, há stress, ou seja, há uma reação fisiológica e consequente, despejo de adrenalina em nosso organismo. É natural e inevitável.
Esse estado de estresse na fase de Alerta, serve para duas coisas: enfrentar ou fugir do perigo. É uma reação ao medo! Se manifesta em todos seres do reino animal. Pois bem, mais uma vez, nesse ambiente estranho, a presença dos irmãos que nos conduzia, a forma como nos conduzia e nos orientava, nos dava força e coragem para vencer o medo. A união dos irmãos no entorno, na forma de se apresentar, como querendo nos dizer: “não tema, estamos unidos, você é bem-vindo!” Quando abro os olhos, e vejo a irmandade reunida, em festa para nos receber…
O Jantar delicioso para comemorar nossa vinda… O carinho dos irmãos, inclusive de outras lojas, em querer se apresentar, conversar, enfim, abrindo os braços e o coração com espírito maçônico para nos receber…
Tudo isso, simbolizou, para mim, a união maçônica, o carinho maçônico e fraternidade maçônica!!

VIII.Mostrou que ser maçom é assumir e honrar compromisso.

Porém, ao encerrar a cerimônia de iniciação, um juramento solene foi exigido, tendo o simbolismo do esquadro, do compasso e do livro sagrado como exemplo e testemunha, e um compromisso sob o fio da espada foi assumido!! Juramento e Compromisso que se resumem em respeitar, cumprir e guardar os preceitos maçônicos com o maior rigor possível. Sobretudo, se comportar em sociedade de forma a honrar a maçonaria. Isto tem o significado simbólico maçônico de que, para ser maçom, não basta falar levianamente, eu quero, nem se portar dissimuladamente, fingindo aceitar algo que não aceita ou que não está sob seu alcance aceitar, pois a vida profana está incrustada em seu espírito e modo de viver. O simbolismo do juramento e compromisso assumido está inserido na honra maçônica que devemos ostentar. A espada nos mostra que compromisso assumido deve ser compromisso honrado! Juramento feito deve ser honrado!! Lamentável, jurar, assumir compromisso e não honrar a vida maçônica!

IX.Mostrou, por fim, que ser maçom é pertencer
a uma nova família. Uma família norteada pela luz!

“Que homem é o homem que não melhora o mundo em que vive? ”, frase semelhante a esta vi no filme “As Cruzadas”. Foi a frase que me veio à cabeça, quando nos confraternizamos após a cerimônia de iniciação.Em seguida, uma reflexão me fez emocionar: ser maçom é pertencer a uma nova família. Uma família que luta para promover o bem-estar da sociedade, e que nos reunimos em família para glorificar a Verdade e a Justiça, cavando masmorras ao Vício, levantando templos à Virtude, buscando melhorar o mundo em que vivemos.

X. Concluindo

Irmãos, hoje aqui estou, no grau de aprendiz…
Tentando colocar em prática, talvez o primeiro passo do aprimoramento de um Maçom em grau de Aprendiz: trabalhar em si mesmo, com objetivo de obter o seu próprio domínio, através do trabalho e do aperfeiçoamento moral.
Sei que será uma luta…
Sei que há que ser perseverante…
Sei que há um juramento e um compromisso a honrar…
Juramento e compromisso que, antes de se apresentar como uma amarra, se apresenta como estímulo motivador para o maçom enfrentar os medos e com humildade, se necessário, pedir ajuda.
Sei que estou em família e que posso contar com a solidariedade dos irmãos!
Sei que estou entre homens de boa vontade semeando o bom fruto em honra e Glória do G.A.D.U
Sei que estou entre Irmãos que me darão as mãos e com alegria participarão da lapidação desta pedra bruta…
Mas sei também, pelos simbolismos implícitos na cerimônia de Iniciação, sob o fio da espada e sob o gosto amargo do fel, que se eu não fizer a minha parte, estarei traindo as boas vindas dos irmãos, estarei decepcionando a confiança deles e, aos poucos poderei estar perdendo-os e magoando aquele que me honrou em ser meu padrinho.
Para que tal não ocorra, assim, como antigamente o aprendiz era o servidor dos mestres de obras e, através da atenta observação, da concentração e da obediência, aprendia desbastar a pedra com perfeição, aqui estou eu, Aprendiz Maçom, mirando nos ensinamentos maçônicos e nos bons exemplos dos valorosos idealistas e incansáveis maçons, aprendizes, companheiros e mestres desta Augusta e Respeitável Loja Cavaleiros de São José, do município paulista de Cerquilho.
Assim interpretei e assim vivo os simbolismos da cerimônia de iniciação a que fui submetido.

Sobre o Autor

ARLS Cavaleiros de São José, n° 342 - Oriente de Cerquilho • GOP/COMAB

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