Para constituir este primeiro trabalho que me foi designado em Loja, devo dizer sobre a minha iniciação à Maçonaria. Pensei, num primeiro momento, em tentar desvendar um pouco do significado do ritual por que passei, ou tentar decifrar alguns dos símbolos que me foram apresentados, afinal, agora já me foi concedida a luz. De pronto, deparei-­me com a dificuldade de tentar extrair algum significado real de tantos objetos, símbolos, gestos e ritos. Não porque os ignorava, nem porque não os entendia por completo, mas porque percebi que a cada coisa eu mesmo estava dando a minha própria interpretação, estava ali colocando meus sentimentos sobre o que aquilo poderia significar para mim, em minha vida, no convívio familiar e com os IIr∴, na sociedade ou até mesmo no Universo. Percebi que, por enquanto, não tenho mais que ideias, imaginações, expectativas, e então, o que de mais concreto posso oferecer são mesmo os pensamentos que me vieram à mente e os sentimentos que vivenciei naquele ato tão sublime e pelo qual tanto esperava. Não todos, porque não me é dado apresentar um tratado sobre a iniciação maçônica, mas de alguns, selecionados dentre aqueles nos quais mais me detive em profunda introspecção.

Não posso dizer que estranhei nem os que me buscaram nem o local onde fui deixado, apesar de já vendado, sem poder ver qualquer luz. O lugar inclusive, denunciou­-se a mim pelo perfume e a brisa fresca que escorriam do ambiente condicionado, provocando-­me tão agradável sensação de tranquilidade e proteção do mundo externo.Também pelo eco dos passos firmes que ali se davam, e da atenção e gentileza que me eram dirigidos, tive a certeza de que estava numa Loja, rodeado de pessoas que, se me aceitassem, seriam meus IIr∴ dali a pouco.

Num dado momento fui levado a uma câmara fechada onde, desvendado, vi emblemas de mortalidade e li avisos que me tentavam a desistir da empreitada. Não lhes dei atenção, porque estava firme no meu propósito e não me considerava movido por curiosidade, mas pela vontade livre de tornar-­me Maçom. Nos papéis que me deram para preencher, detive-­me um tanto e refleti sobre quais eram verdadeiramente meus deveres nesse mundo, posto Homem, percebendo que não era tarefa fácil descrevê­-los, já que o Homem não existe por si só, mas é dependente e determinante do seu meio. Inspirei­-me e o fiz. Mas num outro documento uma palavra me chamou a atenção: a alma. Indaguei em profundidade que há muito não fazia. Mas o que viria a ser a alma, senão aquilo que anima a matéria e nos torna Homens, em comunhão com Deus? A parte do espírito que nos move e que nos dá vontade. Então, em que se basearia a minha vontade dali para frente? O que passaria a mover meu espírito, minhas ações? Declarei e firmei. Lá está para os registros e para minhas próprias reflexões, e hoje sei que foi lido para o conhecimento da Loja. Depois explicaram que essa era a prova da terra, onde somos postos a refletir sobre nossa matéria mortal e o aprisionamento da escuridão em que estávamos a viver.

Após ser admitida minha entrada no Templo, juntamente com mais dois outros candidatos, hoje IIr∴, de cujos nomes tomei conhecimento ao ouvir, e dentre os quais um reconheci de longo apreço e outro até então me era desconhecido, fui imediatamente barrado por um objeto pontiagudo que me pressionavam ao peito desnudo. Por que me barram? Tentam ofender-­me, machucar­-me? Mantive-­me firme e aguardei, até perceber, pela leitura que foi feita dos princípios da Subl∴ Or∴, que não se tratava de ofensa pessoal, mas da demonstração de que os IIr∴ estão sempre prontos a defender a Instituição e seus postulados de busca da verdade e da virtude. Não pensei estar no lugar errado.

Noutra passagem me era dado de beber da Taça da Boa ou Má Sorte, tendo-­me sido avisado que a bebida poderia se transmutar do doce ao amargo conforme trouxesse comigo perjuro, traição ou curiosidade e, tranquilo, consenti na prova. Qual não foi o resultado senão a mudança do gosto, pondo-­me em reflexão! Será que os Homens realmente têm certeza das suas vontades? Será que alguém pode ser livre das fraquezas mais variadas da alma? Concluí que estamos todos sujeitos, posta a própria condição humana, mas que também nos cabe, na liberdade que nos é dada, vencer nossas paixões e submeter nossas vontades. Continuei no propósito.

Posto a percorrer uma Primeira Viagem e percebi no simbolismo um caminho difícil e tortuoso, cheio de obstáculos e sons de tormentas da natureza, o que me fez remeter ao sentimento de medo. Contudo, fui o tempo todo levado e orientado pelos passos firmes de um Ir∴, que me tomou o braço e me ajudou a vencer os simbólicos obstáculos e chegando a um estrado com degraus, onde bati e me foi franqueada a passagem, com a fiança do Ir∴ que me levava, dando por cumprida a viagem. Seguiu-­se uma explicação de que era a prova do ar.

Em Segunda Viagem, a percepção foi de um caminho menos tortuoso e com menos obstáculos, mas repleto de sons de batalhas com tinidos de espadas. Lembrando do Ir∴ que me tinha levado antes e que agora me guiava, veio­-me o sentimento de confiança de que também aquela viagem seria completada com satisfação apesar da luta, o que de fato se deu quando chegamos a outro estrado com degraus, onde novamente bati e, com a fiança do Ir∴ que me guiava, foi-­me também franqueada a passagem. Feito a purificação de minhas mãos em água, posto que a Viagem era da prova da água, que lava o corpo e purifica a alma.

Houve ainda uma Terceira Viagem, que logo percebi ser um caminho mais direto, plano, sem obstáculos e na qual não mais era levado ou guiado, mas acompanhado lado a lado pelo Ir∴. Na certeza de que o caminho se completaria, até chegarmos a uma plataforma com degraus, onde novamente pedi e, com a fiança daquele me foi dado purificação das mãos no fogo, pois que era essa a natureza da prova.

Em reflexão posterior, sem saber por que, me veio uma ideia de que as viagens poderiam também tratar dos graus em que é composto o rito, ou pelo menos dos três primeiros, posto que ainda não sei descrever com exatidão, cada um com seus caminhos a percorrer. Assim, nas minhas divagações, imaginei corresponder a Primeira Viagem ao tortuoso caminho do Apr∴, com todas as dificuldades do mundo natural e escuro do qual acabara de sair (terra) e é posto na Col∴ do Norte a trabalhar a Pedra Bruta, e de onde somos levados através das perturbações e equilíbrios das correntes (ar) até o Altar do 2°Vig∴, que nos dá a instrução e nos permitirá posteriormente a passagem à Col∴ do Sul. A Segunda Viagem talvez corresponda ao caminho do Comp∴, que deverá lutar e defender o povo no oceano (água) revolto por aqueles ventos, sendo guiado até o Altar do 1° Vig∴, incumbido de suas instruções e que lhe franqueia a passagem. A Terceira Viagem, então, vencidos os elementos anteriores, seria a viagem do espírito, que há de ser purificado pelo seu elemento (fogo), no caminho da Liberdade e da Justiça, alcançando junto ao Ven∴ Mestr∴, no Or∴ (mente), o grau de Mest∴ Maçom. São induções que retirei das palavras do Ritual através de minhas divagações.

Enfim, voltando à cerimônia, eis o inesquecível momento em que é dado aos neófitos, ali eu e mais dois IIr∴ que passaram pelas mesmas provas, enfim, a Luz. Tomado de emoção, e recompondo aos poucos a visão, reconheci o Templo da Loja, e muitos dos IIr∴ que contra mim apontavam espadas. Nem dúvida e nem medo mais me ocorriam por aquelas armas, e bem nos foi dito que elas estavam ali empunhadas não contra nós, mas a nosso favor, em favor da vida e da honra dos IIr∴ e da Maçonaria.
Percebi então estar realmente no lugar certo, entre IIr∴ e amigos, e uma vez proclamado e anunciado Apr∴ Maç∴, tive a certeza de que tudo estava Justo e Perfeito, como tinha de ser, pela Gl∴ do G∴A∴D∴U∴.

Bibliografia:

– Constituição do Grande Oriente do Brasil. Grande Oriente do Brasil.
– Regulamento Geral da Federação. Grande Oriente do Brasil.
– Manual do Rito Escocês Antigo e Aceito no Grau de Aprendiz. Grande Oriente do Brasil.

Sobre o Autor

ARLS O Samaritano nº 2520 GOB/RO Oriente de Cacoal

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