Um dos grandes males que assolam nossa Sublime Instituição, sem qualquer sombra de dúvidas, é a falta de atendimento aos princípios maçônicos do Silêncio, do Sigilo e da Discrição Maçônicas.

Ao contrário do que muitos Irmãos acreditam a verborragia e a divulgação dos assuntos maçônicos – internos ou externos à Ordem e às Lojas, principalmente – não contribuem, em nada, para o sucesso, facilitação e êxito de nossos trabalhos e, ainda, nem amplia nossas probabilidades de selecionar bons candidatos às nossas Colunas.

Alguns acreditam, talvez por desconhecimento da gravosidade de seus atos, que todo Irmão – mesmo que ausente aos trabalhos – e até às vezes profanos – supostamente próximos ou com certo vínculo de relacionamento pessoal com o Obreiro – devem ou podem ficar sabendo do que se passa dentro de nossa Instituição.

Isto é um erro incomensurável, o qual gera graves sequelas e inconvenientes aos demais Irmãos, sem falar à própria Instituição em si, que passa a correr o risco de ser mal interpretada em suas ações, projetos, e, até mesmo, em sua simbologia, filosofia, liturgia e história.

Ademais, a falta de atendimento aos princípios do silêncio, sigilo e discrição maçônicos – além de ser a conotação plena e total de desrespeito à Ordem e fraternidade entre os Irmãos – é perjúrio, considerada como infração maçônica gravíssima, cabendo, inclusive, instauração de procedimento institucional para apuração de responsabilidades, podendo levar à expulsão do Obreiro incontinente.

Deve-se ressaltar e relembrar que o ato mais solene de nossa Iniciação é quando o candidato vai prestar seu solene juramento, perante a assembleia de Irmãos que ali reunidos representam todos os maçons esparsos pelo orbe terrestre, e o qual nos liga eternamente pelo mais puro e inquebrantável elo do amor e fraternidade recíprocos.

Isto, conforme prediz nossos Rituais de Iniciação, de qualquer Obediência ou Potência que for, juramos o mais profundo silêncio sobre tudo que viermos a descobrir, ouvir ou aprender dentro de nossos Templos, seja ele por intermédio da transmissão de nossos conhecimentos, seja mediante a absorção de informações tidas em um simples diálogo.

Por esta razão, aliás, sequer necessitar-se-ia de qualquer outra regra, norma ou legislação maçônica que previsse a natureza errática e infracional da quebra dos princípios de sigilo, silêncio e discrição maçônicos, já que nosso simples juramento iniciático seria o suficiente para os Irmãos respeitarem nossos preceitos.

Inobstante, independentemente disso, recorde-se que, relembrando nosso juramento iniciático, ao final de cada Sessão, fazemos, novamente, uma nova promessa de mantermos o mais absoluto silêncio, sigilo e discrição sobre tudo que vimos e ouvimos nos trabalhos maçônicos que desempenhamos naquele dia,

Lado outro, mas não de somenos importância, cabe-nos recordar – o que nem seria preciso, já que é de obrigatório conhecimento dos Irmãos – que o silêncio, sigilo e discrição maçônicos são parte integrante e dissociável de nossos Landmarks, mais precisamente disposto no XXIII, o qual prediz:

A mitologia romana reafirma a necessidade do silêncio e discrição como mecanismo de segurança e manutenção da estrutura organizacional de uma Instituição

“XXIII – Este Landmark prescreve a conservação secreta dos conhecimentos havidos por Iniciação, tanto dos métodos de trabalho como das suas lendas e tradições, que só podem ser comunicados a outros Irmãos.”(Landmarks de Albert Galletin Mackey)

Por fim, e a título de mero desenvolvimento e aprendizado simbólico, rememore-se que a mitologia romana, através de suas belíssimas e alegóricas passagens e lendas, reafirma a necessidade do silêncio e discrição, como mecanismo de segurança e manutenção da estrutura organizacional de uma Instituição.

Conta a Lenda que, Numa Pompílio, Imperador Romano, visando consolidar políticas de estabelecimento e fortalecimento de seu reino – denominado, novo Estado – e manter a nova gestão livre de rumores e resenhas maledicentes (fofocas) recomendou o culto e veneração à Deusa Lara, denominada por Deusa do Silêncio Eterno.

Segundo a mitologia romana, Júpiter, apaixonado por Juturna, queria tê-la como sua. Juturna – que por sua vez, era casada com Juno – para fugir das investidas de Júpiter, se atirava nas águas do Rio Tigre. O Deus dos Deuses, então, suplicou às náiades do Lácio que impedissem ou dificultasse Juturna de adentrar as águas do Tigre, para que ele pudesse tê-la. Lara (náiade do Almo, incapaz de guardar segredo), porém, aproveitando uma oportunidade que estava desacompanhada das demais náiades, foi delatar os planos de Júpiter para Juno e Juturna. Ao tomar conhecimento da situação, irado pela divulgação do fato, Juno determinou que fosse cortada, a língua de Lara e conduzida, por Mercúrio, aos Infernos, no reino de Plutão.

Veja que aqui, segundo a lenda, a Deusa Lara fora penalizada pelo próprio marido da suposta vítima, em razão de se ater a fato que não lhe guardava respeito e se intrometer em assunto alheio, divulgando informações que tomou conhecimento por meio de um pedido de discrição e sigilo.

Assim, o culto a este mito e a esta Deusa nos recorda sobre a necessidade de agirmos com precaução redobrada, quando adentramos na seara da divulgação de fatos aos quais não nos guardam respeito ou que devem ser preservados.

Inegavelmente, portanto, todas as fundamentações acima, bem como vários outros ensinamentos que absorvemos em nossa Sublime Ordem, nos remetem, invariavelmente, à necessidade de somente repassar, aos demais, informações que não estão acobertadas pelo manto sagrado do sigilo e do silêncio, mantendo-nos discretos sobre nossas atividades maçônicas, preservando o conhecimento dos fatos e ações somente com aqueles que estejam ativos e efetivamente participando dos trabalhos.

Fazendo-se isso, certamente, conseguir-se-ão serem evitados debates infrutíferos e intermináveis, discórdias, perseguições e máculas aos Irmãos e à própria Maçonaria, lembrando-nos, outrossim, dos imprescindíveis e complementares ensinamentos da simbólica parábola das três peneiras de Sócrates, a qual já nos foi brindada em outra oportunidade nesta compendiosa e festeja revista Universo Maçônico.

Sobre o Autor

AELS Obreiros da Paz, n° 19 Oriente de Bujari • GLEAC/CMSB

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