Sempre que certo colega se entrega nos braços de Baco e me encontra, vem logo com duas perguntas já clássicas. Primeira: “Você é da igreja maçônica?”, seguida de “E é verdade que vocês adoram o diabo?”

Que a Maçonaria não realiza cultos satânicos, a difusão indiscriminada de nossos rituais para download na internet e a venda de exemplares impressos em sebos traz prova inequívoca, pois neles nada se encontra de diabólico. Neste viés, não é de hoje que falta a alguns Irmãos a discrição, deixando os monitores da Ordem caírem em mãos profanas: por exemplo, em 1730 – apenas 13 anos após a fundação da Grande Loja de Londres – Samuel Prichard lançou o seu “Maçonaria dissecada” e obras de igual tipo eram vendidas aos montes nas portas das tipografias cariocas em fins do século XIX.

Já quanto ao fato da Maçonaria não ser igreja, sem ferir a nenhum juramento, tento explicar ao colega e a quem mais me perguntar que a Ordem é uma fraternidade universal.

Porém, começa a despontar em Orientes de alguns rincões do Brasil uma série de práticas que não diferem das de uma igreja. Explico-me: em visita a Lojas jurisdicionadas a Potências maçônicas tradicionais no país – e em sua maioria do Rito Escocês Antigo e Aceito –, observa-se que amados Irmãos incorporaram à decoração de seus templos e à execução do ritual, elementos estranhos a seus monitores. E quais são? Dentre os objetos, destacam-se quadros com imagens de Jesus Cristo, geralmente postados sobre a porta do templo, no Ocidente, e em alguns casos no Oriente, sobre o dossel. E quanto aos procedimentos ritualísticos, em certas Oficinas, após o encerramento dos trabalhos, ora-se um “Pai Nosso” no interior do templo, que não consta do monitor.

Antes de prosseguir, devo informar aos leitores que sou católico e cultivo profundo respeito por minha Igreja, assim como pelas demais religiões. Adianto-vos, ainda, que trataremos do tema sob a ótica do REAA, muito embora tais inserções já sejam uma constante em Oficinas que trabalham em outros ritos.

Por oportuno, recordemos que apesar de alguns ritos em seu simbolismo e filosofismo (neste último caso, inclusive o próprio REAA) possuírem elementos cristãos, seus usos e simbologia são regulados pelos rituais e não devem ser misturados ao bel-prazer dos membros da Loja. Os rituais das Potências maçônicas “regulares” são taxativos quanto aos elementos que compõem a decoração dos templos e quanto às palavras, toques e sinais a serem empregados nas sessões.

Sobre a importância da preservação dos monitores, Haywood foi sábio ao dizer que “Por ter um ritual como a base de trabalho em Loja, esta é salva dos caprichos do indivíduo e da ditadura de algum
líder dominador”.

Tendo por meta a ordem dos trabalhos, há Potências (a exemplo do GOB) que chegam à correta minúcia de logo nas primeiras páginas do monitor proibir a retirada ou inserção de quaisquer palavras ou objetos aos rituais e à decoração dos templos. Se assim está previsto, qual a origem da prática
sob enfoque?

Quanto às imagens, algumas Potências permitem que à esquerda dos altares destinados às três Luzes, sobre pequenos pedestais, sejam colocadas estátuas de Júpiter ou Minerva, Marte ou Hércules e de Afrodite ou Vênus, respectivamente representando a sabedoria (Venerável Mestre), a força (1º Vigilante) e a beleza (2º Vigilante). Tais palavras aludem à quarta, à quinta e à sexta sephirots da Kaballah, embora não sejam representadas na posição correta nem pelas Luzes da Loja, nem pelas velas no Altar dos Juramentos das Potências que aí as usam (as três formam na Árvore um triângulo com um vértice voltado para baixo; entre os místicos, tal triângulo é símbolo da manifestação espiritual perfeita: “desce do céu”).

Todavia, em Lojas que adotam tal prática, pode-se constatar, por vezes, a presença de alguma dessas estátuas, enquanto noutras, em detrimento dos “deuses pagãos” (lembrando que Hércules era semideus), a imagem de São João Batista em um pequeno nicho no Oriente. Em verdade, vez que as Lojas simbólicas, em geral, são universalmente dedicadas aos santos de nome João (não há consenso quanto a qual deles), naturalmente a escultura do Batista acabou incorporada a alguns templos. Daí, foi um passo para os decorarem também com quadros de Cristo.

Em determinadas Oficinas, os Obreiros chegam a orar o Pai Nosso voltados para a gravura de Cristo sobre a porta (no Ocidente). E isso após o encerramento dos trabalhos! Se no ritual de Potências prevê-se o encerramento com o Venerável Mestre rendendo graças ao GADU, através de uma invocação em nada ofensiva aos dogmas religiosos e que não eleva nenhuma fé em detrimento das demais, para que uma segunda oração? A primeira não foi suficiente? Pires (2011) vai além e entende que não deveria haver oração sequer na iniciação maçônica, por considerá-la prática típica das religiões.

Por outro lado, se as instruções constantes nos rituais dizem, taxativamente, que a Luz veio do Oriente e até menciona que um componente de seus gloriosos raios é a mensagem cristã, que se faz orando em direção ao Ocidente?

É bem verdade que a Maçonaria adota um rito solar com base no calendário do hemisfério norte – e isso fica evidente quando o maçom descobre que três ocultam e nove revelam – porém, os rituais simbólicos nada mencionam sobre a transferência do lugar santo do templo do Oriente ao Ocidente, acompanhando o curso diário do sol. Lembremos, ainda, que as catedrais medievais eram construídas por nossos ancestrais operativos com a abside virada para sudeste e a fachada para noroeste, ao passo que os transeptos, formando os braços da cruz, estavam no sentido nordeste-sudoeste, de modo que ao entrarem no templo pelo Ocidente, as pessoas caminhem em direção ao altar principal com a face voltada para o Oriente.

Frisemos, também, que Ragon (2006) e alguns outros imputavam aos jesuítas a inserção de elementos cristãos na Maçonaria especulativa, culminando no Rito Escocês Antigo e Aceito (cujo símbolo do mais alto grau, 33º, é uma águia bicéfala, de Lagash). Coincidentemente (?), o episcopado e ordens religiosas católicas – dentre elas a Companhia de Jesus – adotaram progressivamente a águia bicéfala, o símbolo do Sacro-Império Romano Germânico, que empregaram em equipamentos litúrgicos e de culto; prática que se fortaleceu durante a segunda metade do século XVII e as duas primeiras décadas do XVIII (mesma época do florescimento da Maçonaria especulativa nos moldes atuais). Por vezes, a águia tinha sobre suas duas cabeças, um sol e uma lua, que simbolizavam respectivamente Jesus Cristo e Santa Maria (igualmente, o Oriente do templo é ornado com estes corpos celestes…).

Feitas estas considerações, reforcemos que ao analisar um templo maçônico do REAA corretamente montado, um observador imparcial nada encontrará de ofensivo ou em favorecimento a qualquer religião. Igualmente os rituais nada contêm de danoso à religião, à família e à pátria.

Neste sentido, os Maçons costumam afirmar ao público externo que a Ordem é religiosa, sem, todavia, ser uma religião, pelo que alegam que os templos estão aptos a receber homens livres e de bons costumes, desde que professem a fé num princípio criador, o qual, incognoscível que é e para abranger todas as confissões, é denominado “Grande Arquiteto do Universo”, nomenclatura que remonta a 1572, quando foi empregada por Philibert Delorme em seu tratado de arquitetura, para quem o Altíssimo era “esse grande arquiteto do Universo, Deus Todo-Poderoso”.

O cerne da Maçonaria especulativa é o aperfeiçoamento moral e espiritual da humanidade através da livre investigação da verdade, com supedâneo na sabedoria universal eterna e transcendente a todas as religiões; e o chamado filosofismo é o complemento do aprendizado do Mestre Maçom. Quem se diz aberto a todas as confissões, mas insere elementos de sua igreja nos trabalhos da Loja simbólica, no mínimo está em franca contradição. Pode-se ainda suscitar uma pertinente questão: “Como pode a Maçonaria ser universal se for teísta, ao invés de deísta?” Cenas de um próximo capítulo…

Em verdade, na medida em que os Irmãos procuram incluir elementos das religiões nas Lojas para demonstrarem um diálogo com a fé da comunidade em que estão inseridos e comprovarem que a Maçonaria não é uma seita, mais a fazem se parecer com uma.

Em suma, a adoção das enxertias aqui citadas causam os seguintes inconvenientes:

a) impede a padronização dos trabalhos na Potência;

b)descumprimento da legislação que cada Obreiro jurou respeitar;

c) dificulta o entendimento pelos visitantes do procedimento ritualístico praticado na Oficina visitada, vez que foge ao ritual previsto pela Potência; e

d) pode gerar cisões, na medida em que privilegia membros de uma religião em detrimento de outras (por mais improvável que seja, se um Irmão muçulmano ou budista visitar a Loja, o que farão?).

No século XVIII houve uma profusão de ritos de todos os matizes. Demorou muito para as Potências “regulares” “organizarem a casa”. Cabe-nos preservarmos a tradição que nos foi legada para que a Ordem não perca a razão de ser, que é abranger a universalidade de homens em trabalho para a glória do Grande Arquiteto do Universo.

Autor: Ir∴ Jo„o Florindo Batista Segundo – M∴M∴
ARLS JosÈ Rodovalho de Alencar n° 2912 GOB-PB

BIBLIOGRAFIA:

– AZEVEDO, Celia Maria Marinho de. Maçonaria, Anti-Racismo e Cidadania: uma história de lutas e debates transnacionais.  S„o Paulo: Annablume, 2010.

– FULCANELLI. O mistÈrio das catedrais. ColecÁ„o Esfinge. Lisboa: EdiÁıes 70, 1981.

– HAYWOOD, H. L. The Great Teachings of Masonry. DisponÌvel em: <http://www.phoenixmasonry.org/great_teachings_of_masonry.htm> Acesso em: 22 maio 2013.

– Maçonaria ìSupremo Conselho do Brasil (trecho do documentário Supremo Conselho do Brasil para o REAA, 178 anos novembro 2011).

Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=oO4c8q8smtA> Acesso em: 22 maio 2013.

– PIRES, Joaquim da Silva. O Roteiro da Iniciação de acordo com o Rito Escocês Antigo e Aceito. Coleção Biblioteca do Maçom. Londrina: A Trolha, 2011.

– RAGON, Jean Marie. Ortodoxia Maçonica – a Maçonaria Oculta e a Iniciação Hermética. São Paulo: Madras, 2006.

– TRINDADE, Jaelson Bitran. O Império dos Mil Anos e a arte do tempo barroco: a guia bicéfala como emblema da Cristandade. Anais do Museu Paulista. São Paulo. N. Sér. v.18. n.2. jul.- dez. 2010. p. 11-91.

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