INTRODUÇÃO

Como ponto de partida para um trabalho de aprendiz, julga-se, com efeito, a necessidade de apresentar alguns conceitos sobre a Maçonaria. É conveniente, portanto, que se tomem para cumprir tal dever, as definições aqui postas, quais sejam:

“A Maçonaria é uma Ordem Universal, formada de homens de todas as raças, credos e nacionalidades, acolhidos por iniciação e congregados em Lojas, nas quais, por métodos ou meios racionais, auxiliados por símbolos e alegorias, estudam e trabalham para a construção da Sociedade Humana, fundada no amor Fraternal, na esperança de que, com amor a Deus, à Pátria, à Família e ao Próximo, com tolerância, virtude e sabedoria, com a constante livre-investigação da verdade, com o progresso do conhecimento humano, das ciências e das artes, sob a tríade: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, dentro dos princípios da Razão e da Justiça, o Mundo alcance a felicidade e a paz universal.”

(Preâmbulo da Constituição da Grande Loja Maçônica da Paraíba)

Corrobora com essa explanação, a apresentada por Heitor Pitombo, em seu exemplar “A maçonaria no Brasil” (PITOMBO, 2009):

“A maçonaria é uma instituição essencialmente filosófica, filantrópica, educativa e progressista. Filosófica porque trata da essência, das propriedades e dos efeitos das causas naturais, investigando as leis da Natureza e relacionando as primeiras bases da moral e da ética pura. Filantrópica porque não visa lucro, posto que seus recursos se destinam ao bem-estar do gênero humano, sem distinções. Progressista porque não se prende a dogmas, prevenções ou superstições e não cria obstáculos no sentido da busca da verdade. Ela prega a liberdade, a igualdade de direitos e obrigações e a fraternidade.”

Por outro lado, é definida de maneira mais simplista nas instruções da maçonaria inglesa como:

“A maçonaria é um peculiar sistema moral, velado por alegorias e ilustrado por símbolos.”

(MACNULTY, 2007)

Por fim, esta definição que se diz pertencer a Albert G. Mackey em seu Livro Encyclopedia of Freemasonry:

“A Maçonaria é um sistema de moralidade desenvolvido e inculcado pela ciência do simbolismo. Este caráter peculiar de instituição simbólica e também a adoção deste método genuíno de instrução pelo simbolismo, emprestam à Maçonaria a incolumidade de sua identidade e é também a causa dela diferir de qualquer outra associação inventada pelo engenho humano. É o que lhe confere a forma atrativa que lhe tem assegurado sempre a fidelidade de seus discípulos e a sua própria perpetuidade.”

Ainda que não seja intenção dessas glosas, embora apresentadas com muita propriedade pelos vários autores, de esgotarem as possibilidades de conceituação ou definição, quer seja da essência, quer seja do teor prático dessa antiga e valorosa fraternidade que, por ser progressista, admite ao longo de sua evolução que novos conceitos enriqueçam-na. Pode-se dizer, entretanto, que tais explanações coadunam-se no propósito de estudar alguns elementos que compõem o quadro de aprendiz maçom do Rito York, especificamente: O Giz, o Carvão e a Argila.

Para tanto, era suficiente desenhar no chão usando-se giz, o painel ou quadro simbólico de cada grau em que a Oficina trabalhava. Ao final da reunião esse quadro era apagado

Para tanto, antes de examiná-los no contexto próprio, qual seja: o do Painel do Aprendiz-Maçom, faz-se necessário desenvolver, para o bem da compreensão, a temática do simbolismo. Assunto esse, tão importante, que há uma disciplina cuja função precípua é estudá-los: a Simbologia. Não fosse isso suficiente, há um ramo dessa matéria destinado, exclusivamente, ao estudo dos signos e símbolos: a Semiologia – enunciado no dicionário Aurélio como:

Ciência geral dos signos, segundo Ferdinand de Saussure (v. saussuriano), que estuda todos os fenômenos culturais como se fossem sistemas de signos, i. e., sistemas de significação. Em oposição à linguística, que se restringe ao estudo dos signos linguísticos, ou seja, da linguagem, a semiologia tem por objeto qualquer sistema de signos (imagens, gestos, vestuários, ritos, etc.); semiótica (q. v.).
(AURELIO XXI, 1999)

SIMBOLISMO

Símbolo

De acordo com Jules Boucher, a palavra símbolo descende do grego σύμβολο, e representa um sinal de reconhecimento composto por duas partes de um objeto quebrado e que se reúne (BOUCHER, 2001). Por outro lado, Mark O’Connell e Raje Airey emitem uma definição, que embora corrobore aquela de Boucher, concede uma compreensão capaz de ir além daquela proposta por esse último autor, assim tem-se: o termo símbolo é derivado do grego antigo symballein, cujo significado é agregar. O uso figurado desse vocábulo originou- se no costume de quebrar um bloco de argila para marcar o término de um acordo – cabendo, por conseguinte, a cada um dos envolvidos, uma parte do bloco; de modo que, se eles fossem reunidos se encaixariam perfeitamente como um quebra-cabeça. Esses pedaços, cada qual identificando os envolvidos, eram conhecidos com symbolo (σύμβολο). Desse modo, concluem eles: um símbolo não apenas representa algo, mas igualmente sugere alguma coisa que está faltando, uma parte invisível que é necessária para se alcançar o sentido completo.

(O’CONNELL E AIREY, 2010).

Nesses termos, O’Connell e Raje Airey explanam: conscientemente ou inconscientemente, o símbolo carrega o sentido de unir pontos para criar algo maior do que a soma das partes, como nuanças que resultam em uma ideia complexa.

Quanto ao aspecto interpretativo, Boucher identifica, ainda, quatro níveis que estão relacionados ao simbolismo: o sentido literal, alegórico, moral e, por fim, místico. Tais níveis encontram uma justaposição com a doutrina de estudo aplicada no judaísmo: o método conhecido como PARDES, cujas iniciais correspondem à palavra hebraica pomar: ( )- Peshat, Remez, Derash e Sod (GIGLIO, 2003):
Peshat corresponde ao nível de interpretação mais básico ou, simplesmente, o significado textual ou contextual. Esse nível é fundamental para o aprofundamento do estudo e a compreensão nos outros níveis. Derash corresponde ao nível homilético, com o propósito de sensibilizar os seus pares. Os níveis Peshat e Derash são mais difundidos devido à sua facilidade de compreensão. O Remez corresponde ao nível simbólico enquanto que o nível Sod é relativo ao nível místico e cabalístico e, portanto, menos difundidos.

Segundo Beresniak, o simbolismo enfatiza o conhecimento subjetivo, encorajando uma forma de introspecção mediante a livre associação: unindo a história individual e coletiva – assim como as leis que governam todas as coisas. Reza a máxima socrática: “Conhece a ti mesmo e conhecerás o mundo e os deuses” (BERESNIAK, 2000).

Ora, o estudo dos símbolos, e especificamente na maçonaria, é tão importante que Boucher chega a afirmar que “Somente pelo estudo dos símbolos é que se pode chegar ao esoterismo” (BOUCHER, 2001).

Por considerar sine qua non o simbolismo na Ordem, em seu livro A Simbólica Maçônica, Jules Boucher profere severa crítica aos que negligenciam o estudo desse tópico:

“Não consigo entender, a não ser como uma enfermidade do espírito, que se possa negar seja o valor, seja a necessidade do simbolismo em nossa Ordem. Os que se obstinam nessa atitude não percebem que estão negando, ao mesmo tempo, o caráter filosófico da Franco-Maçonaria e que, desse modo, privam-na de sua virtude essencial.” (sic); (BOUCHER, 2001 apud THIRIET, 1929).

Signo

Diferentemente dos símbolos, os signos têm um sentido mais objetivo. Ou seja, um signo representa ou indica algo de modo mais literal.
Do ponto de vista literário, consiste de “Todo objeto, forma ou fenômeno que representa algo diferente de si mesmo”. Em outras palavras, o signo une um elemento concreto, material, perceptível – denominado de significante – a um elemento inteligível, ou imagem mental intitulado significado. (NICOLA, 1998)..

Essa característica universal e objetiva dos signos pode ser observada na Ilustração 1, indicando que o objeto por ela referenciado tem significado de risco, ameaça ou perigo. Entre outros.

Alegoria

Apresentaram-se, na introdução deste trabalho, algumas definições acerca da maçonaria. Houve, manifestamente, a predominância do substantivo alegoria. Ora, conquanto possa parecer um simples termo ou palavra, traz em si uma carga muito importante de informação, senão veja-se:
1. Exposição de um pensamento sob forma figurada;
2. Ficção que representa uma coisa para dar ideia de outra;
3. Sequência de metáforas que significam uma coisa nas palavras e outra no sentido;
4. Narrativa que descreve um determinado assunto sob a aparência de outro.

As definições alistadas anteriormente, especificamente nos itens três e quatro, agregam um sentido que ultrapassa o limiar da percepção inicial. Nota-se, por conseguinte, a premissa de que há uma declaração, aberta, embaixo da aparência externa da Ordem Maçônica, ou seja, existe algo que está encoberto – que salta à vista. (GEST, 2011).

Isso, portanto, sustenta o ideal de escola iniciática cujos conteúdos estão a salvo de profanos. Acerca disso, Boucher afirma (BOUCHER, 2001): “A franco-maçonaria é uma verdadeira escola de iniciação e não, como julgam comumente, uma associação fraterna com finalidades mais ou menos políticas”. Portanto, pode-se traçar uma analogia com o nível cabalístico sod.

O PAINEL DO APRENDIZ

De posse das informações acumuladas nos capítulos anteriores, informações essas que alicerçaram a compreensão do leitor, estudar-se-á, a partir deste capítulo, o tema proposto e objetivo deste trabalho. Não obstante, faz-se necessário explanar o painel do aprendiz, visto que, tais elementos, lá, são apresentados.

Ora, a maçonaria comunica seus ensinamentos por meio de simulações rituais denominadas de Graus e pela utilização de uma complexa estrutura de símbolos derivados, principalmente, das ferramentas e métodos do ofício de pedreiros livres (MACNULTY, 2007)..

De acordo ainda com Macnulty (MACNULTY, 2007), os painéis são equipamentos básicos utilizados para explicar o material em reunião de cada Grau da maçonaria. Por outro lado, Boucher (BOUCHER, 2001) afirma que nos primórdios da maçonaria, qualquer local poderia representar uma loja. Para tanto, era suficiente desenhar no chão, usando-se giz, o painel ou quadro simbólico de cada grau em que a Oficina trabalhava. Ao final da reunião esse quadro era apagado. Com o passar dos tempos, fez-se uso da tela pintada que, por sua vez, era estendida no instante da reunião..

Conforme Borges e Cavalcante (BORGES E CAVALCANTE, 2008), o painel do aprendiz-maçom do Rito York é composto por 31 ilustrações. Muitas dessas ilustrações são vistas em tríades: três luzes simbólicas, três degraus, três ordens arquitetônicas e assim por diante. Em alguns casos, há uma disposição de elementos opostos ou complementares mediados por um fator de equilíbrio, no que concerne: três pequenas luzes: o sol, a lua e o venerável mestre; o giz, o carvão e a argila e ainda: a pedra bruta, a pedra polida e a prancha de traçar. Na Ilustração 2, esses elementos podem ser conhecidos na reprodução digital de um painel do primeiro grau do Rito York..

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