Introdução
É sabido por todos os Maçons, que a finalidade precípua da Maçonaria é a formação do Homem Perfeito, ou seja, aquele que tem o domínio da Verdade. Para burilar homens que possam chegar à perfeição, a Maçonaria os iniciam em seus Augustos Mistérios e abre-lhes as portas do caminho que os levará à luz (2014).

Dedica-se o Rito Brasileiro ao aperfeiçoamento dos Maçons, cooptando a Tradição com a Evolução. Especializa-se no cultivo da Filosofia, Liturgia, Simbologia, História e Legislação Maçônicas e estuda todos os grandes problemas nacionais e universais, com implicações ou consequências no futuro da Pátria e da Humanidade. Constitui um dos altos objetivos do Rito o incentivo e a prática do civismo em cada Pátria. É absolutamente interdito o debate e a crítica dos atos na competição dos partidos políticos1.

Ao ser exaltado ao Grau de Companheiro do Rito Brasileiro, fui consagrado ao trabalho construtivo e ao estímulo da solidariedade maçônica. Ambos são iluminados pelo sentimento superior da espiritualidade, emanado da Estrela Radiante.

Ao discorrer sobre a Peç∴ de Arq∴ a mim proposta, busquei compreender a complexa relação entre a Mitologia e a Simbologia Maçônica, e os conceitos maçônicos estabelecidos ao longo de 300 anos. Entretanto, é claro, é que nem mesmo numa Instituição tão antiga, os conceitos permanecem escritos de forma idêntica há tantos anos e não serão interpretados da mesma forma por todos. Como ler nunca é ler apenas palavras, mas o que se esconde por trás delas, a arte de interpretar é ponto fundamental para o bom entendimento. Mas, o sentido dado aos símbolos e instrumentos Maçônicos é que transforma tais “símbolos” comuns em mensagens esotéricas que são simplesmente fantásticas e não só inerentes a nós aprendizes de maçonaria, mas a todos que se interessam pelo conhecimento.

Desenvolvimento

A SIMBOLOGIA GREGO-ROMANA

A Mitologia é a história de personagens sobrenaturais, cercados de simbologia e venerados sob a forma de deuses, semideuses e heróis, que regiam as forças da natureza, comandavam raios, ventos, rios, céus e terras, sol e lua. É o conjunto de fábulas que explica a origem dos mitos, das divindades mitológicas, que tinham nas mãos o destino de homens e regiam o mundo.

Na Mitologia Grego-Romana, heróis, deuses e semideuses estão entre aqueles personagens que povoam a mitologia da Grécia. Muitos foram os narradores dessas histórias. Outros as recontaram, as reinventaram milhares de vezes. Filósofos, poetas, pensadores, escritores, todos ele beberam uma ou outra vez dessas fontes. A Maçonaria também bebeu do misticismo e da mitologia da antiga Grécia.

A Mitologia grega tem sua importância reconhecida no universo da Maçonaria, fundamentalmente no uso das expressões simbólicas. O misticismo que está entranhado na doutrina da Maçonaria, e que sobressai no Simbolismo e na Ritualística, tem suas raízes lá no misticismo religioso da antiga Grécia.

Antes, porém, gostaria de transcrever um pequeno trecho que consta no “Dicionário Maçônico” de autoria do Irmão Rizzardo da Camino, que trará um pouco de discernimento para todos nós:

“A Mitologia é rica quanto à imaginação dos que a estabeleceram; foram os sábios da Antiguidade que assim provaram para manter disciplinados os povos. O culto aos deuses foi um exercício primitivo em distinção ao culto à Divindade monoteísta. Com a fixação do Cristianismo, a Mitologia foi posta de lado e hoje serve apenas como expressão simbólica.” (2013). “A Mitologia – É tratado que apresenta a história dos deuses encarnados em seres humanos, com a manifestação pagã. Esses deuses respondiam aos oráculos. Alguns comunicavam-se através das suas imagens, representadas por estátuas; outros através de sacerdotes.”

Tem-se ainda que: – a mitologia é um conjunto de mitos sobre a origem histórica de um povo; a história lendária de deuses e semideuses da antiguidade. Um conjunto de lendas e crenças que, por princípios simbólicos, fornecem explicações para a realidade universal.

A mitologia greco-romana exerce grande influência na arte, principalmente na literatura e no teatro durante a Antiguidade e o Renascimento.

O fato de a maçonaria admitir as estátuas dos deuses Minerva, Hércules e Vênus não significa idolatria; esses deuses e suas estátuas são apenas símbolos – de Sabedoria, Força e Beleza, que é a trilogia maçônica por excelência.

Essas estátuas não são veneradas, apenas justificam que a Maçonaria é também mitológica, especialmente quanto aos graus filosóficos.

Os Cargos em Loja representam e possuem o apanágio de vários deuses do Olimpo e de semideuses do panteão grego. Assim tem-se:

Venerável – seria a representação de Zeus (Júpiter para os romanos), por sua condição de dirigente máximo da loja, já que Zeus era o principal dos deuses, soberano do mundo, que reinava no monte Olimpo, a mais alta montanha da Grécia; controlando as ações humanas e as dos demais deuses. Era o protetor de toda a Grécia, embora cada cidade tivesse ainda, o seu protetor especial. Mas, o Venerável pode ser simbolizado pela deusa Atená, ou Palas Atená (Minerva), nascida da própria cabeça de Zeus e que era a deusa da inteligência, da sabedoria e da paz, já que o Venerável Mestre deve ter essas qualidades para poder bem dirigir seus Irmãos.

1º Vigilante – representa Ares (Marte), deus da agricultura e da guerra, além do símbolo da força, já que esta é a característica deste cargo, que também é relacionado com Héracles (Hércules), filho de Zeus e da princesa Alcmena, considerado o maior de todos os heróis gregos e que era poderosamente forte, o mais vigoroso de todos os homens.

2º Vigilante – Simboliza Afrodite (Vênus), filha de Zeus e que era a deusa do amor e da beleza. O 2º Vigilante dirige a Coluna da Beleza, enquanto que o 1º Vigilante dirige a Coluna da Força e, o Venerável, a simbólica Coluna da Sabedoria. É por isso que muitos Ritos possuem, em seu Ritual, o acendimento de velas que representam esse três atributos.

Orador – é a representação de Apolo, ou Febo (mesmo nome para os romanos), filho de Zeus e deus do Sol, criador da poesia e da música, do canto e da lira, da profecia e das artes; o Orador responsável pela guarda da lei e das peças de oratória representa a Luz, simbolizada por Apolo.

Secretário – Corresponde a Ártemis (Diana), filha de Zeus e de Hera e que era a divindade protetora das florestas, da caça e das flores, além de ser também, a deusa da Lua, que o Secretário simboliza ao refletir o que vem do Sol (Orador).

Mestre de Cerimônias – corresponde a Hermes (Mercúrio), filho de Zeus e que era o mensageiro dos deuses, além de deus protetor dos pastores, dos comerciantes, dos viajantes e dos oradores. É o símbolo do Mestre de Cerimônias, já que esse Oficial, em sua circulação, é o mensageiro das Dignidades da Oficina.

Ainda, com o intuito de fornecer maiores detalhes (consta no Vade-Mécum que somente o Rito Brasileiro prevê a sua obrigatoriedade, e ainda, que a representação dessas figuras mitológicas pode ser feita também na forma de pinturas) sobre o uso das estátuas, o Irmão Kennyo Ismail, também se deteve sobre o assunto, e à pág. 36 da sua obra já citada, dispõem sobre elas fazendo o seu comentário, reproduzido
na sequência:

• Atena: deusa da Sabedoria, colocada próxima ao trono do Venerável Mestre, geralmente usando um chapéu (que denota sabedoria, por isso também usado pelo Venerável Mestre);

• Héracles: mais conhecido pelo nome romano Hércules, semideus da Força. Colocado próximo à posição do Primeiro Vigilante, costuma ser apresentado com um porrete na mão;

• Afrodite: deusa da beleza, colocada próxima à posição do Segundo Vigilante, comumente representada por uma pequena réplica da famosa estátua Vênus de Milo.”

A SIMBOLOGIA DA ESPIGA E DO GRÃO DE TRIGO

No grau de Aprendiz éramos como o grão de trigo enterrado para germinar com nossos esforços num caminho de luz. A espiga de trigo, entre os antigos, sempre foi o símbolo da Fartura e da Abundância, pois o trigo inteiro, quebrado ou moído era a principal fonte de alimento nas regiões que o cultivavam, bem como utilizado em oferendas e pratos ritualísticos. Ceres, para os romanos ou Deméter para os gregos era a deusa da Fartura, dos cereais e das colheitas.

Fazendo a analogia com a astrologia, podemos observar que Ceres ou Deméter, corresponde ao signo de Virgem – signo das colheitas, resultado dos esforços dos discípulos de Ceres – portanto a sexta casa do zodíaco, cujo significado é “trabalho ao qual o homem está condenado para sobreviver”. Interessante notar que Ceres, essa deusa que ensina a cultivar a terra, para assegurar o alimento, normalmente é representada junto a um cálato – cesto sagrado cheio de frutas às quais se associa a serpente vital e que era usado durante a celebração dos Mistérios de Elêusis. O cesto contém o resultado do trabalho alimentício, que não beneficia apenas o corpo, pois ele aprimora também o espírito, tornando mais flexível à inteligência. Com efeito, a serpente faz alusão à sutileza divinatória que permite descobrir os segredos da iniciação.

A Espiga de Virgem, ou Alfa Virginia, ou Spica de Virgem, estrela representada no Plano do Teto do T∴, é uma estrela brilhante que outrora os ceifeiros veneravam. Seu nome em hebraico Sch∴, que tem sua origem simbólica no episódio de Jefté, em Juízes 12, 5:6, a qual Salomão adotou como P∴ P∴ dos CComp∴, e está ainda associada a coluna da Beleza e ao cargo de Secr∴.

Para nós MM∴, o significado da Espiga é o da Fartura, acrescentando-se, porém, o dinamismo de germinação ou geração. Lembremo-nos que o Grão de Trigo lançado a Terra ou à Mãe Natureza, transformar-se-á em espiga e a seguir, irá decompor. O germe destrói a substância para fazer brotar a nova planta. Destruição para renovar. Aquele que viu a Esp∴ Fla∴ e penetrou o sentido da letra G sabe que devemos aceitar a vida com todas as suas cargas e dedicarmo-nos ao trabalho com coragem, pois através dele participaremos da Grande Obra do Aperfeiçoamento Geral.

Conclusão

O quarto de reflexões constitui a prova da terra – a primeira das quatro provas simbólicas dos elementos – e, através de sua analogia, conduz-nos aos Mistérios de Elêusis, nos quais o iniciado era simbolizado pelo grão de trigo atirado e sepultado no solo, para que germinasse e abrisse, por seu próprio esforço, um caminho de luz.

A semente, na qual se encontra em estado latente ou potencial de toda planta, representa muito bem as possibilidades latentes do indivíduo que devem ser despertadas e manifestadas à luz do dia, no mundo dos efeitos. Todo ser humano é efetivamente um potencial espiritual ou divino, idêntico ao potencial latente que deve ser desenvolvido ou reduzido a sua mais plena e perfeita expressão, e este desenvolvimento é comparável, em todos os sentidos, ao desenvolvimento natural e progressivo de uma planta.

Assim como a semente, para poder germinar e produzir a planta devem ser abandonadas ao solo, onde morre como semente, enquanto o germe da futura planta começa a crescer, assim também, o homem, para manifestar as possibilidades espirituais que nele se encontram em estado latente, deve aprender a concentrar-se no silêncio de sua alma, isolando-se de todas as influências externas, morrendo para seus defeitos e imperfeições a fim de que o germe da Nova Vida possa crescer e manifestar-se.

Uma vez que o germe espiritual, a Divina Semente de nosso ser, é imortal e incorruptível, esta morte – como toda forma de morte, sob um ponto de vista mais profundo – é simplesmente o despojo de uma forma imperfeita e a superação de um estado de imperfeição, que foram no passado um degrau indispensável ao nosso progresso, mas que a atualidade os transformou numa limitação e ao mesmo tempo numa necessidade, na oportunidade e na base para um novo passo adiante. Essa imperfeição ou limitação que deve ser superada – os estreitos limites em que se acham enclausurados nosso pensamento e nosso ser espiritual pelos erros e falsas crenças assimiladas na educação e na vida profana – é o que simboliza a casca da semente, produzida por esta como proteção necessária em seu período de crescimento, e inteiramente análoga à casca mental de nosso próprio caráter e personalidade.

“Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão
Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel
Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, a propícia estação
E fecundar o chão”

(Milton Nascimento)

Bibliografia

PUGAS,Mauricio Alves Rodrigues O Bê-a-Bá do Aprendiz Maçom – 2ª ed. – Rondonópolis:

Mauricio A. R. Pugas, 2014 108 p.:II CAMINO, Rizzardo da, 1918-2007
Dicionário Maçônico/Rizzardo da Camino – 4ª ed. – São Paulo: Madras, 2013 D’Elia Junior, Raymundo

Maçonaria: 50 instruções de companheiro/Raymundo D’Elia Junior
– São Paulo:Madras,2017 ADOUM, Jorge, 1897-1958
Grau do companheiro e seus mistérios, 2º grau/Jorge Adoum
– São Paulo: Pensamento, 2010 CASTELLANI, José
Cartilha do Companheiro/José Castellani, Raimundo Rodrigues.
– 4. ed. – Londrina: Ed. Maçônica “A TROLHA”,2009

http://trabalhosdamaconaria.blogspot.com.br/2012/07/abreviaturas-maconicas.html
http://www.dlhtt.com.br/barra/o-misterio-do-piso-maconico
http://www.noesquadro.com.br
http://www.focoartereal.blogspot.com.br
https://www.significados.com.br/mitologia/

Sobre o Autor

ARLS 20 de Setembro, no 61 Oriente de Cuiabá • GOEMT/COMAB

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