Sobre a utilização das menções ao Grande Arquiteto do Universo e dos Livros Sagrados dos Membros dos Capítulos nos Rituais do Rito Moderno

A lguns Irmãos podem vir a estranhar ou questionar sobre as menções fei- tas ao Grande Arquiteto do Universo “GADU”, e sobre a utilização dos Livros Sa- grados religiosos dos Irmãos a prestarem com- promisso no âmbito dos Rituais das Ordens Sapienciais do Rito Moderno.

Deixemos aqui bem esclarecidas as dúvidas: Em 10/11/1877, o Grande Oriente da França tirou a OBRIGATORIEDADE da utilização do termo “À Glória do Grande Arquiteto do Uni- verso” e possibilitou que se utilizassem como substitutos os termos “Ao progresso da Humani- dade” e “À Glória da Franco-Maçonaria Univer- sal”. – Isso foi motivado pelo fato de que, havia um bom tempo, o termo tinha se tornado sinôni- mo para as concepções teístas judaico-cristãs de grande parte dos Maçons.

Essa concepção, do Grande Arquiteto do Uni- verso como sendo sinônimo de um deus perso- nalizado, não está de acordo com a Tradição Ini- ciática mais antiga.
O “Grande Arquiteto do Universo”, não é, e nem deve ser, identificado com nenhum deus.

René Guénon, um dos maiores estudiosos do século XX das tradições iniciáticas, em um tex- to datado de 1911, na revista “A Gnose”, expõe com maestria o assunto ao afirmar:
“Já dissemos que, para nós, o Grande Arqui- teto do Universo constitui unicamente um sím- bolo iniciático, que devemos tratar como todos os outros símbolos e do qual devemos, conse- quentemente, buscar antes de tudo formar uma ideia racional; em outras palavras, que esta concepção não pode ter nada em comum com o deus das religiões antropomórficas, que é não somen- te irracional, mas até mesmo anti-racional.”

No mesmo artigo, René Guénon prossegue demonstrando que o Grande Arquiteto do Uni- verso (G∴A∴D∴U∴) é o conceito daquele que traça o “plano ideal”. Enquanto o “demiur- go” platônico é a coletividade de seres indivi- duais, tomados em conjunto, que executa, ou seja, que atua como “operário” do Universo, o G∴A∴D∴U∴ é o próprio conceito metafísico do plano ideal, do projeto de transcendência e de transformação. O arquiteto concebe o edifí- cio a ser construído, no entanto, não é ele que, materialmente, executa a obra.
Sendo assim e colocadas as coisas em seus devidos lugares, é evidente que não há qualquer contradição no fato de um Maçom do Rito Mo- derno trabalhar “à Glória do G∴A∴D∴U∴”, desde que não confunda os conceitos e não adote as perspectivas equivocadas tão comuns nos dias de hoje.

Quando se trabalha “à Glória da Humanida- de”, “à Glória da Franco-Maçonaria Universal” etc., só se troca seis por meia-dúzia.
A humanidade é o próprio “Homem Uni- versal” e sua “glória” é, exatamente, a realiza- ção do plano de transcendência representado pelo G∴A∴D∴U∴. Já a “Franco-Maçonaria Universal” é, precisamente, no dizer de René Guénon, “a humanidade considerada no cum- primento ideal da Grande Obra Construtiva”, ou seja, o cumprimento da concepção metafí- sica do G∴A∴D∴U∴.

“Já dissemos que, para nós, o Grande Arquiteto do Universo constitui unicamente um símbolo iniciático, que devemos tratar como todos os outros símbolos”

A utilização dos Livros Sagrados das res- pectivas religiões dos Irmãos dos Capítulos, é a prova inequívoca da mais ampla tolerância e do mais amplo respeito à consciência individual de cada Irmão. Tendo em vista que todo Franco- -Maçom regular precisa estar aberto a uma di- mensão sagrada, seja ela qual for, nada mais jus- to que preste seu compromisso sobre um livro que represente, para ele, essa dimensão.

A nós soa estranho e mesmo desprovido de sentido, que se preste compromisso sobre uma Constituição Maçônica a qual, muitas vezes, não se leu, não se conhece, e que é, na acepção própria do termo, um documento sem nenhum sentido sagrado.

Constituições ou regulamentos Maçônicos são documentos registrados em Cartório, públi- cos, administrativos, e não a expressão de uma Dimensão Superior, Metafísica etc. Sendo assim, retomando o uso constante em todos os Rituais do Rito Moderno anteriores a 1877, mantivemosas menções ao G∴A∴D∴U∴ e a utilização dos livros sagrados dos Irmãos Capitulares.

Também cabe acrescentar, aos Irmãos mais ten- dentes a transformarem a Maçonaria em um substi- tuto para a religião, e a cultuarem o G∴A∴D∴U∴ como um deus e que, infelizmente, gostam de taxar como “irregulares” aos Maçons que não concebem o G∴A∴D∴U∴ da mesma maneira teísta e antropo- mór ca que eles, que ortodoxia e regularidade Maçô- nica referem-se a um todo harmônico e completo, e não especi camente a este ou aquele símbolo em par- ticular, ou mesmo à uma fórmula como “À Glória do Grande Arquiteto do Universo”, da qual se quis fazer uma característica da Maçonaria Regular, como se só a frase, pudesse constituir uma condição necessária e su ciente de regularidade.

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