Qual a razão de tanto ódio, tanta indiferença grassando sobre a terra?
Quando se estabelece em Loja uma Reunião, em que ficamos unidos, formando a verdadeira busca da Paz, eu me volto a momentos de piedade.
Hoje, dentro do ônibus, senti que precisava ir para casa, pois não estava me sentindo preparado para andar pela rua.

Após comprar meus remédios, já dentro do ônibus, como falei , sentei-me ao lado de uma senhora já com mais rugas que eu.
O ônibus ia seguindo lentamente e eu tinha o meu corpo, também, do mesmo jeito do veículo, lento, preguiçoso, sem vontade de chegar ou conversar.
O choro insistente de uma criança chamou-me a atenção e observei as lágrimas que lhe escorriam do rosto.
Não notei pirraça ou dor.

A mãe, incomodada com os olhares dos passageiros, deu duas fortes palmadas no inocente menino.
Ele talvez não tenha chegado aos três anos de idade ainda.
O fato é que a dor foi sentida por mim.

O gosto da lágrima que lhe escorria pela inocente face me trazia o sabor das pancadas.
A mãe possuía um modo todo dela de ensinar, de corrigir, mas pela dor eu via que não devemos ensinar por esse meio.
O menino magrinho soluçava baixinho, perdendo forças para o choro mais alto.
Ela se mostrava indiferente aos soluços silenciosos da raquítica criança.
Ele ficou quieto, deixando, tão somente, as lágrimas falarem pela dor, pela pureza, pela sinceridade, pelo medo de soluçar mais alto.
Aos poucos, aquelas miudinhas mãos vão se dirigindo com suavidade pelo rosto da mãe, em um gesto de amor.
Eu sentia sinceridade.

Naquele quadro em que afagava sua mãe, senti que ele clamava por carinho, por um gesto de retribuição aos afagos.
Ali estava um quadro para reflexão.
A mãe, muito jovem, sentia no choro da criança a vergonha ou receio do incomodo que poderia estar causando nos outros ocupantes do veículo e tentava, na sua pouca idade, fazer calar o outro, também, jovem, bem jovem.

Não culpo e não posso culpar a mãe pelas pancadas, pois, por certo, a vida não a espancou ou se o fez, foi com mais violência.
O quadro que me entristecia, insisto, foi a ausência da retribuição.
Enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto miúdo, a mão acariciava a face da jovem mãe, como a pedir amor, perdão.
Os olhinhos, derramando lágrimas, provocavam-me ao mesmo gesto.
Eu não me contive com a mais sublime cena de amor.

Deixei escapar uma lágrima velha, vindo de um rosto vencido pelo tempo, mas que aquelas inocentes mãos estavam ali retribuindo as duas pancadas.
Um amor muito grande ia tornando a cena em exemplos para mim.
Por que retribuímos com violência, ódio e rancor as pancadas que nos são dadas pela vida?
A frágil criança estava dando exemplos de amor fiel, devolvendo, através do carinho, a dor que a fizera calar.
As pancadas da vida são ensinamentos que não entendemos, sendo elas dadas pelas mãos de quem nos deu amor, sejam aquelas dadas com ódio, vingança, maus tratos.
A vida bate e ensina.
Eu apanho e choro miúdo.

Meu choro nem sempre é de dor física, mas a pior, a dor da alma, da fraqueza que não desperta para a luta.
A jovem mãe levanta-se do banco para sair do ônibus, levando os pertences em uma das mãos, tendo na outra o pertence maior, ainda com o rosto molhado das lágrimas.
As mãos frágeis saíram do veículo, ainda, acariciando os cabelos da menina-mãe com a pureza do próprio anjo.
Como aprendo nos exemplos, nas cenas que me vão sendo entregues pelo Criador.

A Fraternidade me trouxe a dor das pancadas, mas também o mais importante que devemos conservar e praticar, quando a vida nos pune.
Não devemos e não podemos agredir moral e fisicamente um Irmão que nos provoca.

Devemos agir pela tolerância apresentando o perfume da flor, o calor das mãos, os ensinamentos obtidos pela Luz que nos deram, após tantas viagens, pelos caminhos percorridos.
Devemos ter sempre em mente aquela mão protetora a nos orientar, apresentando-nos, na escuridão, sem pancadas, o caminho a seguir.
As mãos inocentes da criança continuam acariciando meu mundo.
As lágrimas das dores enchem meus olhos.

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