Recentemente, uma notícia de jornal trouxe um fato alarmante que, sem dúvida, impacta hoje a questão da segurança pública e seus efeitos futuros deverão ser piores do que se vê atualmente.

A referida matéria tinha por objeto as gangues de jovens da zona sul de São Paulo, integradas por pessoas cujas idades variam de 11 a 22 anos, e que têm por finalidade a prática de crimes.

O mais impressionante é que as meninas se empenham para serem aceitas nas gangues, a ponto de se submeterem a sessões de violência, como por exemplo, o “corredor polonês”, a fim de demonstrarem que são agressivas e que de fato têm condições de integrar o grupo.

Muitas perguntas surgem de tão absurda situação e que merecem uma análise: o que leva essas adolescentes a enveredarem por esses caminhos? Será que é apenas a aceitação por um grupo que representa segurança no meio em que vivem? Será que é a falta de perspectiva de uma vida melhor? Será que é a falta de oportunidade? Enfim, muitas são as circunstâncias que podem empurrar adolescentes e jovens a uma vida de marginalidade e cujo fim, sabe-se, é quase sempre trágico.

Certamente cada um dos aspectos citados, em um grau maior ou menor, contribui para o interesse dos jovens em integrarem essas gangues, mas ouso dizer que todos esses problemas surgem de um fator primordial, qual seja, a falta de estrutura das famílias.

O problema da segurança pública começa dentro de cada lar, onde as crianças e adolescentes não têm um mínimo de estrutura, não conhecem o significado de termos como família, solidariedade, respeito, responsabilidade, amor a si e ao próximo, enfim, não recebem as orientações e, pior, não conseguem ver, na prática, a realização dos valores que formam um indivíduo de bem. É natural, pois, que diante de um quadro como esse, não tenham perspectiva de uma vida melhor e, assim, se embrenhem nesse submundo que na maioria das vezes está tão próximo e acessível.

Dentro dessas gangues, por pior que seja a situação, jovens e adolescentes que não encontraram apoio, respeito, amor e compreensão dentro de suas próprias famílias, se sentem importantes, fortes e respeitados, logicamente dentro da concepção do grupo. Esses adolescentes e jovens são hoje, e continuarão a ser um problema de segurança pública, caso Estado e Sociedade não voltem seus olhos para eles e para suas famílias. Esse é um típico caso em que a atuação repressiva só tende a situação as coisas, e em nada contribui para a solução do problema e para a reinserção do indivíduo na sociedade.

É bom lembrar que na idade em que se encontram os integrantes desses grupos, o indivíduo ainda está em fase de formação e desenvolvimento, e bem por isso é que ainda vale a pena investir na sua recuperação, em um trabalho conjunto de recuperação da família como um todo, pois também os pais desses jovens, não raro, de igual forma não conheceram de fato os valores que formam um verdadeiro cidadão.

Informava a reportagem que, dentro dos grupos, predomina um código de ética em que vigoram valores como não mentir, obediência aos líderes e lealdade, valores que muitos deles aprenderam, ou pelo menos vivenciaram, dentro da própria organização; não é, portanto, impossível, transportar esses mesmos valores aprendidos de uma maneira um tanto quanto deturpada, para uma vida saudável em sociedade, mas para isso é preciso um grande investimento, não só de dinheiro, mas sobretudo, de tempo.

Detectar o problema não é o mais difícil, mas o que fazer para mudar a situação é o ponto nodal; investir como? Quem está disposto a batalhar por uma causa que aos olhos da maioria é perdida? Quais as ações concretas que podem ser enviadas com vistas à recuperação de famílias inteiras sem um mínimo de estruturação? E como tirar dessas gangues jovens e adolescentes já engajados e compromissados com a “causa”?

É difícil responder a tais perguntas e traçar estratégias eficazes, mas certamente, muitas cabeças pensando e se envolvendo no objetivo terão condições de tornar viáveis medidas que podem, senão solucionar, melhorar em muito essa triste realidade.

É preciso pensar na segurança pública a partir da formação do cidadão, sob pena de sempre trabalharmos no âmbito repressivo que, ao que parece, não tem sido um meio eficaz.

E para a formação do cidadão, necessário se faz, também, que haja um trabalho no âmbito da educação acadêmica, formando professores que não apenas se preocupem em transmitir informações de ordem técnica, mas, sobretudo, que se preocupem com a formação do indivíduo, do cidadão, do homem de bem. Afinal de contas, grande parte do tempo dos jovens e adolescentes se passa nos limites territoriais das instituições de ensino que, por isso, têm a responsabilidade de educar o indivíduo no sentido mais amplo do termo.

Esse é, sem dúvida, um método que se pode considerar eficaz, e por onde se pode iniciar uma política de re-estruturação e recondução desses jovens a uma vida distante da marginalidade. Com isso trabalha-se em prol da segurança pública atual e futura.

Breve Currículo

  • Representante oficial da OAB/SP nas comissões de Segurança Pública e Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa de São Paulo.
  • Conselheiro efetivo da 2ª Câmara do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/SP – Triênio 2004/2006.
  • Presidente do Conselho Comunitário de Segurança CONSEG Zona Norte de São Paulo – Biênio 2005/2007
  • Presidente da Comissão de Segurança Pública da OAB/SP

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