Opalhaço é uma figura que atravessa gerações e causa os mais variados tipos de sentimentos e sensações. Algumas manifestações mais antigas do palhaço já circulavam pelo Egito, pela Grécia Antiga, tribos ancestrais na África e seus herdeiros vivem até hoje nos mais diferentes palcos do mundo. Desde circos grandiosos até pequenos circos regionais, de palcos de grandes teatros até o artista de rua e muitos outros locais, como campos de refugiados de guerra, prisões e hospitais.

O palhaço é uma figura que nasce da essência do ser humano, é o ego desmistificado, a personificação do inconsciente, e para isso é necessário a menor máscara do mundo, a que menos esconde e a que mais nos revela, o nariz de palhaço.

Descobrir-se palhaço é um processo interessante, onde o artista entra em contato com as suas verdades ocultas, com as suas fragilidades e faz delas virtudes a serem compartilhadas como cartão de visita. Esse é o palhaço, o ser humano fora do eixo. É através dessa linguagem que o ser humano comunica a todos a fragilidade, o erro e o risível existente em todos nós. O palhaço vem para expor e parodiar exatamente todas as qualidades que consideramos não aceitas pela sociedade.

Enquanto o palhaço trabalha com o desajuste humano, o hospital é um ambiente onde o erro é um grande risco, onde a precisão é exigida a cada instante e a realidade nos abraça com tamanha violência que nem sempre conseguimos observar o ser humano por trás dos diagnósticos que se apresentam.

Os horários são rigorosos: acordar, medicação, almoço, banho, procedimentos e visitas. O som de todos os “bips” se confunde com o das TVs mal sintonizadas, os cheiros característicos pelos corredores chamam a atenção e o piso frio recebe os passos apressados de enfermeiras e médicos, os guerreiros de branco.

Dois universos tão distantes que se encontram numa realidade que se abre exclusivamente para a bobagem na dose certa.

Porque o palhaço vai ao hospital ?

Sendo uma figura que busca o relacionamento positivo, saudável e valorizando o que o ser humano tem de melhor a oferecer, o palhaço é a figura que não olha diagnósticos, não enxerga limitações, mas busca o que a criança tem a oferecer e procura estimular o que está saudável.

Sendo uma caricatura da sociedade, o palhaço entra no hospital com jaleco branco para parodiar o universo que lá se encontra. Transformando bolsa de soro em caixa d’água, aparelhos de inalação em fábrica de nuvens, o soro aplicado na veia se torna o canudo mais legal do mundo, pois dá para beber água e conversar ao mesmo tempo. É assim que o palhaço interpreta o mundo que está à sua frente, transformando a realidade em um mundo de possibilidades.

Trazer a criança para “fora do hospital” no momento em que bate na porta e pede permissão para entrar no quarto. O palhaço permite que a criança retome o controle sobre sua vida, mesmo que momentaneamente, exercitando a autonomia e a liberdade de dizer “não” à dupla de bobos que está no batente da sua porta. Mas o “sim” é frequente e é nessa permissão que o palhaço começa a sua construção em conjunto com a criança. Não existe roteiro, não existe uma regra pré estabelecida. Conforme a criança vai agindo, os palhaços vão construindo uma realidade nova, cheia de curvas, retas e reviravoltas de acordo com o imaginário daqueles que participam da cena improvisada que nasce ali na hora.

Buscando uma relação humana quase esquecida, o artista se desfaz das suas vaidades e se abre para todas as possibilidades de comunicação e criação conjunta. Desde receber um “não” até todas as inimagináveis histórias, exames esquisitos e brincadeiras que surgem sem freios, permitindo que a alegria seja a consequência de um encontro bem sucedido.

A Operação Hospalhaço

A Operação Hospalhaço deu seus primeiros passos em 1998, quando André Correia inspirado pelo trabalho do médico americano Patch Adams, teve a iniciativa de mobilizar pessoas em prol da alegria nos hospitais. A princípio, o objetivo era levar alegria para as pessoas em situação de internação, hospitalar, em asilos e orfanatos. Em 2001, na Faculdade de Psicologia, encontrou Tiago Abad, também fundador da ONG, que trazia consigo um projeto de arrecadação e doação de materiais para instituições carentes. Nesse período, a alegria era o outro lado da doação, a doação emocional que era transportada através de longas conversas, músicas e uma manifestação ainda tímida do palhaço.

Com o passar dos anos o projeto se desenvolveu e tomou o foco exclusivamente em hospitais, e, com preocupação na qualidade do trabalho, a partir desse momento se viu necessária a profissionalização artística. Desde então, a Operação Hospalhaço formalizou-se como Organização Não Governamental (ONG), já tendo atuado em 4 hospitais do ABC Paulista e São Paulo ao longo dos anos. O trabalho cresceu ao ponto de ser necessário levar parte da ação dos hospitais para os palcos, assim surgiu o espetáculo “Tem Nariz Vermelho no Meu Quarto”, que traz ao público cenas adaptadas do contexto hospitalar, cenas clássicas de circo e cenas autorais dos artistas da Operação Hospalhaço.

Os artistas possuem formação em diversas artes como teatro, música, dança e essencialmente na arte do palhaço. Por se tratar de uma atividade profissional, o artista dedica tempo para a produção, ensaios, encontros para debates e discussões sobre o trabalho que vem sido apresentado no hospital. Tudo para que o resultado final, as visitas, sejam realizadas com qualidade e sensibilidade para lidar com o público mirim.

O trabalho hospitalar atualmente é mantido através de doações individuais, parcerias e patrocinadores. Outra forma de manter o trabalho é a realização de palestras, workshops e intervenções em eventos
e empresas.

Deixar resposta

Seu endereço de email não vai ser publicado.