A ética é uma palavra que tem sua origem no grego, vem de ethos, que no original refere-se à forma com que as pessoas agem em seus princípios de bom relacionamento social que as mesmas têm. A ética tem como função gerar equilíbrio e garantir o bom funcionamento da sociedade, embora não seja uma forma de lei, a ética está intimamente ligada à justiça (LOPES DE SÁ, 2008, p. 27).

Holanda (2002) define ética como o estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana. Apesar de controversa, a ética pode ser entendida, a partir do ponto de vista da Filosofia Clássica, como o estudo geral do que é bom ou mau, ou mesmo da virtude, (do grego Aretê).

Sturm (2005), afirma que a ética nada mais é do que a ciência que tem a moral como objeto, sendo a ética a norma expressa e a moral a conduta esperada em face dessa norma. No entanto, há de se salientar que a ética só pode ser observada sob um prisma social, haja vista que o indivíduo movido por princípios interiorizados, sem contato com a civilização não pode ser considerado antiético em seus atos, já que para mensurar o que é certo ou o que é errado, precisa-se primeiro submeter tais valores a uma concepção coletiva.

Do ponto de vista individual, tudo é ético ou não, dependendo dos valores pré concebidos de cada pessoa. Assim, uma coisa só pode ser analisada como fora da ética se atingir direta ou indiretamente a terceiros. Esta premissa é defendida por Emanuel Kant, que ao formular as bases do seu “imperativo categórico” afirma que não existe ética isolada. Dessa forma, não existe ética puramente individual, mas só tem efeito se for analisada sob uma visão coletiva e macrocêntrica.
Para Aristóteles, o homem é um animal político, no entanto, essa evolução ocorreu aos poucos e foi substanciada por uma sequência evolutiva, que, em seu cerne, acabou constituindo a visão contemporânea a respeito dos fatos que fomentam a vida em sociedade.

Com a evolução surgiu também os pressupostos básicos de convivência que se alastraram por todas as sociedades e que se tornaram como que “pedras basilares”, nas quais todas as culturas civilizadas construíam seus conceitos. Um desses pressupostos nasceu na Grécia: o pressuposto da ética.

Em tese, quando se trata de temas como a ética na sociedade, a maioria das pessoas parece estar distante de um consenso, no entanto, quando o tema envolve alguém que cometa um deslize no campo ético no ambiente, principalmente relacionado ao ambiente de trabalho ou às relações entre o homem e as corporações, isso tende a causar uma indignação maior e, não raro, a tendência é sempre buscar discriminar o indivíduo que cometeu o desvio.

Isso ocorre porque existe, na grande maioria dos indivíduos, uma discrepância entre o juízo e a ação. O juízo é o julgamento feito por cada pessoa às questões éticas e morais, com base no que está introjetado em seu sistema de valores, já a ação é o que tais indivíduos praticariam se estivessem em condições de fazê-lo. As ações, em geral, são coordenadas pelas necessidades existenciais e sociais. Um exemplo de como esta questão é controversa é dado por pesquisa feita no 1º Simpósio do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Franca, em 2005, em que foram entrevistadas 2794 pessoas da referida cidade paulista.

Um dos itens mais interessantes da pesquisa mostra que 59,4% dos entrevistados se consideram éticos, no entanto, quando estes mesmos foram perguntados se contratariam parentes se fossem eleitos para cargos públicos, 50,3% responderam que sim. Outro item importantíssimo leva em consideração que 35,33% ficam indignados quando sentem que seus direitos foram violados, no entanto, estes mesmos não se importam que o direito dos outros seja igualmente infringido.

Isso demonstra, nitidamente, que se estabeleceu na sociedade um conceito errôneo de ética individualizada, ou seja, o que é ético para um indivíduo pode não ser ético para outro. Esse tipo de conotação ética é inevitável, pois as necessidades sociais tendem a moldar tais valores, indivíduos que estão sujeitos a condições de pobreza extrema, não veem nenhum problema em usar de todos os meios para manter sua subsistência, mesmo que para alcançar tais fins, quaisquer meios sejam justificáveis.

Somente a educação, qualitativa, é capaz de moldar valores éticos perenes, no entanto, para que tal educação aconteça é preciso que haja uma participação mais efetiva dos pais na educação dos filhos. Como bem salienta Paulo Freire, “educação vem de berço, a escola apenas apara as arestas”. Enquanto a sociedade não consolidar essa questão, os professores continuarão a ter um papel coadjuvante na educação das crianças e jovens, assim, a cada nova geração, os filhos serão cada vez mais “mal educados”, os pais continuarão responsabilizando terceiros e o Estado pela má educação de seus filhos. O comprometimento com o desenvolvimento social dos indivíduos continuará determinístico e quem perde com tudo isso é toda a sociedade.

Para nós, maçons, a ética deveria ser um dos conceitos mais caros, pois é em cima desse conceito, que se situa toda a nossa fundamental ideologia e moral. Como entidade que pretende tornar melhor os homens, fazendo-os atores atuantes da sociedade em que vivem e, também, torná-los agentes de grandes transformações a partir da sua elevação social, espiritual e humana, temos a obrigação de sempre observar a ética como cláusula pétrea que fomenta nossas ações. No entanto, a Maçonaria, por mais que tenha uma busca filosófica intensa pela ética, também sofre os mesmos problemas relacionados à falta desse pressuposto filosófico, o qual carece em toda a sociedade.

Na medida em que as regras para escolha de novos membros da Maçonaria passam a ser flexibilizadas para atender demandas individuais de nossos irmãos, cometemos o seríssimo erro de descaracterizar a ética, tão necessária à manutenção de nossa ordem. Em tese, a ética que deveríamos observar preponderantemente deveria ser a ética coletiva, desprendendo-nos de todo apego das materialidades mundanas, que só prepara nossos espíritos para a efemeridade da vida. A nossa elevação espiritual e humana passa, sobretudo, pelo controle de nossos atos e pela obediência ao luzeiro da ética, que deveria permear não apenas nossos comportamentos, mas, também nossas projeções em relação ao futuro que nos aguarda.

Seria injusto e leviano dizer que nossa ordem está contaminada pela virulência de pessoas que não tem o lastro da ética como pedra fundamental do caráter. No entanto, também seria ingenuidade acreditar que todos os que adentram a grande porta do templo são movidos apenas por esse elevado princípio. Recentemente, tivemos que cortar em nossa própria carne desvios éticos de membros influentes que se tornaram pedra de escândalo na mídia local e até mesmo nacional. Isso nos fez abrir sindicância e excluir de nossos quadros até mesmo um ex-governador de Estado. Corre ao vento, outros escândalos que, vez por outra, nos chegam aos ouvidos, aos quais não podemos e não devemos nos calar, sob pena de ter o prestimoso nome de nossa ordem lançado nas chamas da fogueira da inquisição midiática e, com isso, sermos nós, os retos e justos que se empenham por manter um comportamento ético ilibado, confundidos com aqueles que não respeitam a ética e os frutos de bom senso que advém dela.

“Para nós, maçons, a ética deveria ser um dos conceitos mais caros, pois, é em cima desse conceito, que se situa toda a nossa fundamental ideologia e moral.”

Essa é uma reflexão que nos faz relembrar que todos nós, um dia, seremos julgados pelo G∴A∴D∴U∴ e nossos atos serão nossa defesa ou nossa condenação. Por isso, devemos sempre nos lembrar do julgamento descrito pelo vizir Ptah Hotep, o qual cita o livro dos mortos do Antigo Egito, onde Osiris julga todos aqueles que morrem. Em seu último ato, o coração do morto é pesado e, mediante suas obras, ele poderá ser absolvido pelo próprio Osiris ou ser lançado ao monstro que, adormecido, espera em frente ao tribunal. Assim será com aqueles que cometerem atos antiéticos que envergonham o bom nome de nossa ordem, esses, podem até ficar escondidos por algum tempo, mas não por todo o tempo, pois, conforme cita o Rei Salomão em seus provérbios, “não há nada que fique escondido debaixo do sol”. Novamente, relembrando o texto sagrado dos cristãos, relembramos as palavras escritas às Igrejas da Ásia, no livro do Apocalipse, “quem tem ouvidos, ouça”.

Quem ouve e atenta para essas palavras não cairá em desgraça e, o caminho para o sucesso como membro da Maçonaria, esteja o irmão em que grau estiver, é o caminho da obediência à ética, pois, como já dissemos, é em cima dessa pedra basilar que se fundamentam os princípios que nos diferenciam dos profanos.

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