VOCÊ NUNCA SE PERGUNTOU POR QUE, após desvendarem os nossos olhos, sairmos da escuridão e alcançarmos a luz, quando da nossa Iniciação, rece- bemos imediatamente a Primeira Instrução de várias que iremos ter ao longo da vida maçônica ao galgarmos os degraus da “Escada de Jacó”, e, não recebemos um conjunto de Lições, Disciplinas ou Matérias? Podemos supor que no estado em que encontramos atualmente a teoria da educação, no seu sentido lato, sentimo-nos obrigados a considerar o verbo “educar” como rigorosamente pronominal. O exato, pois, a nosso ver, é o “edu- car-se”, “eu me educo”, “nós nos educamos”. Re- almente, o fenômeno da educação, em si mesmo, é puramente individual e psíquico (LOURENÇO FILHO, s/d), porque, ou o próprio indivíduo or- ganiza suas experiências (DEWEY, 1936), ou nin- guém poderá fazê-lo por ele. O fenômeno puro da educação é, portanto, a autoeducação, quer para as experiências bióticas, quer para as psíquicas e/ou quer para as sociais.

O que acabamos de a rmar, contudo, não im- pede o reconhecimento do importante e decisi- vo papel que, no nosso caso a Maçonaria, exerce sobre o processo educativo nem implica negá-lo (AZEVEDO, 1940). É a Maçonaria que cria o cli- ma, proporciona os meios, determina os objetivos e a orientação desse processo. O indivíduo educa- -se sempre para determinada situação e, de certa maneira, por meio de uns tantos recursos técnicos materiais e humanos que a Maçonaria lhe prepara cuidadosamente. Nesse sentido é que devemos fa- lar nos aspectos sociais da educação, considerada como processo social…

Dos aspectos sociais da educação, os intencionais (compreende as situações em que o grupo, no qual e para o qual o indivíduo se educa, prepara condições a m de suscitar ideias, atitudes e comportamentos que, dados certos padrões e valores pré-estabelecidos no próprio grupo, este mesmo julga indispensáveis à perfeita incorporação e ajustamento do educando em seu seio) são, senão os mais ricos, os primeiros e, pelo menos, os mais importantes em consequência, pois constituem como que o lastro sobre o qual se vai construir todo o tecido de relações entre os indivídu- os e os grupos de que participam, onde a Maçonaria pode ser destacada como um exemplo.

Assinalemos agora que, na educação intencional, o mais signi cativo é a preocupação de “comunicar” as experiências anteriores, tanto quanto possível mi- nuciosamente preparadas e visando obter certa in- terpretação da parte do indivíduo. A esse aspecto da educação intencional – “comunicação” das experiên- cias ou conhecimentos – chamamos INSTRUÇÃO, aproveitando um conceito de Lalande (1947:504) no qual o vocábulo “comunicação” (por isso entre aspas) tem sentido mais pedagógico do que sociológico. A nosso ver, todo processo educativo intencional se de- senvolve que alicerçado e orientado pela “comunica- ção”. Seria talvez possível reconhecer também nas situações educativas não intencionais alguma “co- municação” do conhecimento, mas pensamos que, do ponto de vista pedagógico, a ideia de “comunicação” implica intenção e, por isso, não seria corretamente enquadrado dentro dos processos não intencionais.

Daremos, em virtude dos objetivos que temos em vista, ênfase à parte intencional da educação. Em tese, os conhecimentos e experiências adquiridos não podem ser considerados com ns em si mesmos. Eles constituem um equipamento instrumental destinado a realizar o ajustamento do indivíduo aos Augustos Mistérios da Ordem, um equipamento cujo uso se torna possível pela elaboração e integração individu- al. Isso nos levará logicamente a considerar também a instrução, como a educação, uma atividade de na- tureza psíquica. A instrução, como qualquer instru- mento de outra natureza, tem, pois, seu uso e ciente garantido na medida em que se incorporar ao patri- mônio das experiências individuais, podendo assim ser utilizadas de diferentes maneiras, esse fato ca demonstrado, quando nos recordamos do dia da nos- sa Iniciação que em vários discursos uma praxe foi dita algumas vezes repetidamente: “é fácil entrar na Maçonaria o exercício daqui para frente é fazê-la en- trar em você… ou fácil é ser Maçom em Loja, o difícil é ser lá fora na sociedade…”

Desse modo, dada, todavia, sua origem in- tencional, a instrução deverá servir, principal- mente, para facilitar a integração do indivíduo no complexo maçônico que o envolve e a que se destina, por isso, a séries de sinais, toques e palavras. A instrução se apresenta, pois, como um dos recursos básicos da educação; é uma das técnicas elementares de que a Maçonaria lança mão para desenvolver nos indivíduos aquelas tendências e aptidões que selecionou segundo critérios, valores e padrões pré-esta- belecidos. Diríamos mesmo que a instrução é uma das condições indispensáveis, embora não suficiente, do processo educativo.

Bibliografia
– FILHO, LOURENÇO. Introdução ao estudo da escola nova. 5a edição, SP: Editora Melhoramentos, s/d.
– DEWEY, John. Democracia e Educação, SP: Cia. Editora Nacional, 1936.
– AZEVEDO, Fernando. Sociologia Educacional: Introdução ao estudos dos fenômenos educacionais e de suas relações com os outros fenômenos so- ciais. SP: Cia. Editora Nacional, 1940.
– LALANDE, François. Vocabulaire technique et critique de la philosophie. Paris: Presses Universitaires de France, 1947.

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