A Maçonaria é fruto do século das luzes. No entanto, ela não foi apenas uma criação desse século iluminado pela razão. Desde então ela vem moldando a história moderna e contemporânea. Um dos episódios marcantes de sua participação na história do Brasil foi a proclamação do regime republicano em 15 de novembro de 1889.

Assim como na Independência tivemos a participação ativa e direta de maçons. Mais uma vez, se manifesta entre seus participantes um antagonismo claro: de um lado, a via democrática, popular, participativa representada nos maçons Silva Jardim e Aristides Lobo; do outro, a via excludente, autoritária e elitista do Marechal Deodoro da Fonseca e seu sucessor Marechal Floriano Peixoto. Antes de tudo, precisamos compreender o que foi a Proclamação da República. Etimologicamente “República” significa “coisa pública”, envolve a direta participação popular e caracteriza-se por ser um regime defensor dos direitos democráticos. Ironicamente o regime republicano no Brasil nasceu através de um Golpe Militar.

Desencadeada por uma parcela reduzida do Exército, a rebelião antimonárquica contou com participação popular nula. Na condição de republicano autêntico, o maçom Aristides lamentou profundamente decepcionado o fato de o povo que, pelo ideário republicano, deveria ter sido protagonista dos acontecimentos não ter tido qualquer participação na Proclamação da República. Sobre esse fato, escreveu a famosa frase: “O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava.”

O desapontamento de Aristides Lobo foi compartilhado por outro ferrenho defensor do regime: Silva Jardim. Esse maçom de vida ilibada teve ativa atuação nos movimentos abolicionista e republicano, na defesa da mobilização popular para que tanto a Abolição quanto a República, produzissem resultados efetivos em prol de toda a sociedade brasileira.

Realizou inúmeras viagens pelas províncias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais promovendo comícios em prol da república nascente. Dialogava diretamente com as massas populares. Sua morte não foi menos irônica do que o nascimento do regime republicano. Depois do golpe, Silva Jardim, melancólico e decepcionado com os rumos políticos da nação decide visitar a Itália. Durante seu passeio pela cidade de Pompeia ele morreu nas lavas incandescentes do Vesúvio.

A República idealizada por esses maçons sem sombra de dúvida foi muito mais altiva e justa do que a proclamada pelos militares e também maçons: Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.

O governo do segundo Presidente da recém-criada República, o Marechal Floriano Peixoto, foi marcado por deportações de intelectuais, políticos e militares. Até mesmo o poeta Olavo Bilac futuro patrono do serviço militar seria mandado para os confins da Amazônia, por discordar da linha-dura implementada pelo Marechal. Não é à toa que o golpe militar de 1889 deu origem à República do Café com Leite, um dos regimes mais excludentes da história do Brasil.

Por causa da falta de ilustração desses dois militares os primeiros dez anos de República foram de uma permanente perturbação da ordem. Guerras civis, revolta armada no Rio de Janeiro, revolução federalista no Sul, Canudos, na Bahia. Foram anos de grandes e intensos conflitos. No processo de proclamação da República, a Maçonaria atuou como um grande meio de sociabilidade que reunia grandes personalidades políticas. Dentro de seu quadro sempre houve ideias divergentes. Essa dualidade aqui representada entre os maçons militares: Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto e os maçons civis Aristides Lobo e Silva Jardim expressa o espírito dialético da ordem.

Ao meu ver, os maçons militares permitiram que os interesses do exército sobrepujassem os ideais liberais defendidos pela Maçonaria. No entanto, suas ações não sintetizaram os ideais da ordem, pois encontramos nos civis Silva Jardim e Aristides Lobo verdadeiros representantes da liberdade e dos bons costumes.

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