Nem sempre a intenção do orador é suscitar aplausos na plateia: há também aqueles casos em que ele comparece perante determinada assembleia disposto a provocar, polemizar, “dizer certas verdades necessárias”, enfim, a apresentar um discurso propositadamente hostíl, ciente de que suas palavras inicialmente serão rejeitadas, podendo inclusive provocar vaias e não aplausos; trata-se, nesses casos, de uma intenção deliberada de alerta ou crítica, na qual o orador prevê que, apesar da rejeição momentânea e possível, ao final virão os aplausos, quando a verdade calar fundo na consciência daqueles que a ouvem, eliminando preconceitos e provocando mudanças na opinião geral. Como exemplo, citamos a célebre “Mensagem a Garcia”, carta-discurso de E. Hubard que, ao ser proferida perante uma assembleia trabalhista de empregados nas indústrias norte-americanas, em 1947, recebeu iniciais e calorosos aplausos finais do público e que ainda hoje é lembrada com respeito e admiração, imortalizando o seu criador e levando-nos a profundas reflexões a respeito de tão sábias críticas:

“Quando irrompeu a guerra de guerilhas em Cuba, o que mais importava aos rebeldes era comunicar-se rapidamente com o general Garcia, que se encontrava no interior do sertão cubano, mas sem que se pudesse dizer, exatamente, onde. Foi então que alguém lembrou:

“Há um homem chamado Rowan… e se alguma pessoa é capaz de encontrar Garcia, é ele!”

Rowan foi conduzido à presença do alto comando, que lhe confiou uma carta com a incumbência de entregá-la a Garcia.

De como esse homem, Rowan, tomou a carta, colocou-a em um invólucro impermeável, amarrou-a ao peito e se embrenhou nas selvas para, depois de três semanas, surgir do do outro lado da ilha, tendo atravessado trincheiras, áreas inimigas e regiões inóspitas, são coisas que não vêm ao caso aqui narrar; o importante a ser gravado nessa história é que ele recebeu uma mensagem destinada a Garcia… não perguntou sequer onde estava Garcia…e entregou-a a Garcia.

Salve! Eis um homem cujo busto merecia ser fundido em bronze e colocado em todas as escolas do país…
Não é só da sabedoria dos livros que a juventude precisa, nem de instruções a respeito disso ou daquilo…

Precisa, sim, de lições de caráter que as façam honrar seus compromissos, darem conta de seus recados, enfim, saber levar uma mensagem a Garcia.

Rowan e o general Garcia já não são deste mundo, mas há outros que lhe são iguais… e vocês mesmos poderão tirar a prova:

Estás atarefado em teu escritório, rodeado de meia dúzia de empregados. Pois bem, chame um deles e peça-lhe que consulte o guia de empresas e faça um levantamento de fornecedores de peças de vidro. Acreditas que ele, calmamente, dirá: -“Sim, senhor”- e executarás o que pediste? Nada disso! Ele olhear-te-á, perplexo, e fará algumas das seguintes perguntas:

– Qual guia?
– Onde está esse guia?
– Fui eu contratado para fazer isso?
– Precisa disso com urgência?
– Não é melhor eu trazer o guia para o senhor mesmo procurar?

Eu aposto dez contra um que, depois de haveres respondido pacientemente a essas perguntas, teu empregado irá pedir ajuda a um companheiro e, mais tarde, voltará para te dizer que não conseguiu encontrar nada. (vaias).

O que mantém muito empregado em seu posto de trabalho e o faz trabalhar é o medo de ser despedido no fim do mês. Anuncie, se precisar de uma secretária, e nove entre dez candidatas à vaga não saberão ortografar nem pontuar, e o que é pior, pensam não ser necessário sabê-lo. (vaias).

–Vê aquele funcionário”, dizia o chefe de uma grande fábrica, “é um excelente homem, contudo, se eu lhe perguntasse por que o seu trabalho é necessário ou por que é feito dessa e não de outra maneira, ele seria incapaz de responder. Nunca deve ter pensado nisso. Faz apenas aquilo que lhe ordenam fazer, sem ter nenhuma iniciativa em melhorar, em aperfeiçoar, em racionalizar o seu trabalho. Seria possível confiar a tal homem, uma carta para entregá-la a Garcia? (vaias).

Ultimamente, temos ouvido muitas demonstrações de simpatia para com os pobres coitados que trabalham de sol a sol, para com os infelizes desempregados à procura de trabalho honesto, e tudo isso, quase sempre, entremeado de palavras duras aos que estão no poder. Nada se diz do patrão que envelhece antes do tempo, nada se diz de sua longa e paciente procura de pessoas que, na maioria das vezes, nada mais fazem do que matar o tempo logo que ele lhes volte as costas. (vaias).

Estarei pintando o quadro com cores escuras demais?… (suspense).

Talvez sim… pois embora tenha plena consciência de que nem todos os patrões são virtuosos e nobres, também sei que nem todos os empregados são leais e esforçados. Todas as minhas simpatias, portanto, pertencem ao homem que trabalha fazendo o que deve ser feito, melhorando o que pode ser melhorado, ajudando sem exigir ajuda. (aplausos).

É o homem que, ao lhe ser confiada uma carta para Garcia, recebe-a sem fazer perguntas, sem a intenção de jogá-la no primeiro bueiro que encontrar, entregando-a ao destinatário.

A civilização busca ansiosamente, insistentemente, homens assim. Precisa-se deles em cada vila, em cada lugarejo, em cada escritório, em cada oficina, em cada loja, em cada fábrica.

O grito do mundo inteiro praticamente se resume nisto:

Precisa-se, e precisa-se com urgência, de homens capazes de levar uma mensagem a Garcia.” (fortes aplausos).

Percebam como nesse discurso o orador propositadamente provocou o público, gerou inicialmente polêmica, suportou as vaias sem se abalar, convicto de que, ao final, virão os aplausos. Essa é uma técnica avançada, para profissionais. Não é recomendável adotá-la prematuramente.

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