Capítulo XIII: Os grandes inimigos da oratória

A arte da oratória é sustentada pelas leis naturais que regem a linguagem, escrita e falada, às quais damos o nome de gramática; quem desconhecer seus fundamentos jamais será um grande orador. De um modo geral, pode-se afirmar que os grandes inimigos da oratória são os mesmos que agridem as regras gramaticais. Embora fuja ao objetivo desta obra o estudo pormenorizado da língua portuguesa, algumas observações serão oportunas:

1. Cacófatos: sons desagradáveis ou palavras obscenas, provenientes da união das sílabas finais de uma palavra com as iniciais da seguinte.

Exemplo:
“A vez passada almoçamos aqui” soa como: “A vespa assada almoçamos aqui”.

Neste caso, evite tal expressão ou substitua-a por “a vez anterior”.

Outros exemplos:
“Nunca gostei de teatro”.
“Desculpe então…” (cacofonia de som, inexistente na palavra escrita, mas bem conhecida!).
“Acabava cansando”.

Até mesmo em poesias podem surgir esses traiçoeiros elementos que têm o dom de transformar a sublimidade dos versos em objeto de risos e galhofas, como mostra o exemplo abaixo que, no caso, é proposital e não acidental:

“Meu coração por ti gela,
 meus amores por ti são
 e de tanto amar ela,
 já nela não penso não”.

2. Pleonasmos: também denominado redundância de termos.

Exemplos:
“Vi com meus próprios olhos”.
“O balão subia para cima”

Obs.: em certos casos o pleonasmo tem emprego legítimo, quando confere mais vigor ou clareza à expressão.
Exemplos:
“Oremos,  para que as nossas preces subam para o alto e as bênçãos de Deus desçam para baixo”.
“Vi, com estes olhos que agora te fitam…”

3. Palavras chulas, vulgarmente denominadas palavrões e gírias. Aqui, os exemplos serão desnecessários; uma observação, contudo, é oportuna: 
Muitos oradores imaginam que ao falar a um público jovem devem empregar um vocabulário mais “descontraído”, incluindo em sua fala até mesmo gírias e palavrões; puro engano. Os jovens, e até mesmo os adultos, sabem perfeitamente discernir quando, onde e com quem podem usar expressões chulas; e sabem também que um orador não deve usá-las; ouvindo-as, poderão até rir e se divertir… Porém, a credibilidade e a reputação do orador irão por água abaixo.
No interior das lojas maçônicas cultiva-se uma linguagem clássica, culta e elevada, que jamais deverá ser maculada com palavras chulas ou vulgares; guardam-se essas para uma roda de amigos ou, eventualmente, apimentar uma piada ou uma anedota no copo d´água.

4. Indecisões e incertezas: são os famosos  achismos que devemos evitar a todo custo. Exemplos: 
“Eu acho que a melhor maneira de resolver este problema é….”
A frase acima terá maior força e credibilidade se for
assim anunciada:
Eu afirmo que a melhor maneira de resolver este problema é…”
Há, contudo, algumas situações que admitem o achismo:
É quando somos convidados a opinar  a respeito de determinadas questões ou propostas (e não a resolvê-las); nesses casos, diplomaticamente poderemos afirmar:  “-eu acho que tal proposta é válida”. 

5. Palavras técnicas e siglas: são aquelas comumente utilizadas por determinados grupos profissionais, religiosos, esportivos, etc.
Utilize-as unicamente quando se dirigir a um público especializado ou a profissionais da mesma área: a um grupo de médicos certamente você poderá se referir a endocardites subagudas, mas cuidado ao falar de direito consuetudinário; a um grupo de químicos você poderá citar as leis da termodinâmica, mas cuidado ao mencionar pedras-brutas, goteiras, telhamentos, esquadros e compassos…
O mesmo raciocínio vale também para determinadas siglas; algumas são do conhecimento de todos, tais como INSS, IPVA, FBI, ONU, CIA, etc.; outras, do conhecimento apenas de alguns: GOB, GOSP, VITRIOL, REAA, etc.

Capítulo XIV – O grande segredo da oratória

Um dos grandes recursos que a arte da oratória possui para dar brilho, graça e vigor às palavras é a utilização das figuras de linguagem; elas são peças importantes no contexto de um discurso e realçam as emoções e os sentimentos que o orador pretenda transmitir.

Leia atentamente os dois textos numerados a seguir e compare-os:

1. O berço de Pitágoras foi Samos, uma ensolarada ilha banhada pelo mar Egeu.
 Lá, aquele que viria a ser o filho dileto de Apolo, bebeu, desde a mais tenra infância, da fonte de conhecimentos de Thales de Mileto, e cresceu em força, beleza e sabedoria. Alheio aos bens materiais, porém faminto de espiritualidade, ao atingir a maioridade abandonou seu torrão natal e partiu em busca de luz na terra dos faraós, estranha terra onde o poder real e sacerdotal se mesclam e se confundem.

2. Pitágoras nasceu na ilha de Samos, no mar Egeu, e foi instruído desde pequeno por Thales de Mileto, com o qual obteve grandes conhecimentos. Nunca prezou as riquezas, mas dava grande valor à filosofia e ao completar vinte e um anos de idade viajou para o Egito, então governado por reis-sacerdotes.

O primeiro, denominado texto discursivo, é aquele utilizado para discursos ou pronunciamentos em público; o segundo, denominado texto dissertativo, contém os mesmos dados e ideias, porém apresentadas simplesmente como informações. 

A grande diferença entre ambos é que no primeiro utilizou-se amplamente as denominadas  figuras de linguagem, que valorizam o texto e dão brilho à fala do orador; no segundo não houve essa preocupação.

Aprenda a transformar um texto qualquer em texto discursivo estudando e conhecendo profundamente as figuras de linguagem, pois são elas essenciais à arte oratória. As principais são:

Comparação: É a frase que tem expresso um termo comparativo. Exemplo: “trabalhava como um escravo”.

Metáfora: Semelhante ao anterior, porém o termo comparativo, aqui,  não é expresso. Exemplo: “teu coração é um cofre que guarda segredos”.

Hipérbole: É uma afirmação exagerada. Exemplo: “e o mundo te desprezará”.

Prosopopeia: É a atribuição de ações, sentimentos ou qualidades a seres inanimados. Exemplo: “as estrelas exclamaram…”.

Sinestesia: É a relação subjetiva que se estabelece duas ou mais percepções diferentes. Exemplo: “sons cheios de luz e perfumes”.

Metonímia: Consiste em tomar o efeito pela causa, o autor pela obra, etc. Exemplos: 1. “Por quatro primaveras ela esperou”. 2. “Gosto de ler Machado de Assis”.

Gradação: Sequência de palavras que vão se intensificando ou atenuando. Exemplos: 1. “agiu como um nobre, um príncipe, um deus”. 2. “não se ouviu nenhum ruído, nem um murmúrio, nem mesmo um sussurro”.

Antítese: É a contraposição de palavras ou frases de sentido oposto. Exemplo: “tuas mãos pequenas… grandes em bondade”.

Paradoxo: É a reunião de ideias contraditórias em uma só frase. Exemplo: “o doce amargor do vinho”.

Eufemismo: É a substituição de uma palavra desagradável por outra mais amena. Exemplo: “seu pai adormeceu para sempre”.

Perífrase: Expressão que designa os seres por um de seus atributos. Exemplo: “o rei dos animais rugiu”.

Aliteração: É a repetição de palavras com sons semelhantes. Exemplo: “boi bem bravo, baba berrando”.

Paronomásia: É uma sequência de palavras com sons parecidos. Exemplo: “traga teu sapato, teu gato, teu retrato…”.

Onomatopeia: São palavras que imitam sons ou ruídos. Exemplo: “o sibilar do vento e o ronco dos motores”.

Hipérbato: Inversão, em uma frase, da ordem natural das palavras. Exemplo: “quando da lua o reflexo surgir”.

Anáfora: É a repetição de uma palavra no começo de várias frases. Exemplo: “luz do sol… luz da lua… luz das estrelas”.

Conversão: É a repetição de uma frase com os termos invertidos.Exemplo: “vinhas lenta e pensativa e lento e pensativo eu vinha”.

Ironia: Expressa pejorativamente o contrário do que inicialmente se afirma. Exemplo: “o bondoso monge era mestre na arte da intriga”.

                   

Observação: outras figuras de linguagem ainda existem, embora de menor importância para os objetivos de nosso estudo, e aqueles que realmente por elas se interessarem devem procura-las em livros especializados da língua portuguesa. 

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