A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo Merleau – Ponty

Quando se deu a passagem do mundo mítico para a consciência racional, apareceram os Sophos (do grego, sábios), os primeiros filósofos, classificados como pré – socráticos, que viveram por volta do século VI a. C. Foi um deles, Pitágoras, quem usou pela primeira vez a palavra philos – sophia que significa “ amor à sabedoria”.

Segundo Heidegger(1973), os pensadores gregos chamaram a atenção para o fato de que a filosofia e o filosofar fazem parte de uma dimensão do homem, que designamos dis – posição (no sentido de uma tonalidade afetiva que nos harmoniza e nos convoca por um apelo).

Aprender filosofia é um desafio. A filosofia não é um saber nem se confunde com a ciência. O aprendizado da filosofia envolve a escuta de uma lição, por meio da qual pretendemos superar nosso senso comum. Lembremos que na escola de Pitágoras, os novos discípulos, os Akoustikoi, participavam das reuniões, mas deviam ficar longo tempo, em silêncio, apenas ouvindo as doutrinas que lhes iam sendo apresentadas. Isso porque desde lá, o aprendizado da filosofia não se restringia em apenas apreender as ideias dos grandes pensadores. Mais e muito mais, representava conseguir colocar-se em posição de dialogar com as ideias fomentadas por eles, relacionando-as com problemáticas da época e desenvolvendo discussões filosóficas autônomas, ou seja, nesse sentido, estudar filosofia era também estudar problemas filosóficos.

Da mesma forma tal desafio faz – se presente para nós Maçons. Precisamos aprender a articular conceitualmente as idéias de forma rigorosa e buscarmos os fundamentos e a completude das explicações, das compreensões em busca da Verdade. Trata-se de um caminho a ser construído individualmente, pelo próprio pensador, isto é, devemos ser capazes de elaborar um discurso que se estrutura à medida em que se formula e que enuncia suas condições de estruturação. Nesse sentido, fazer filosofia é pensar, é questionar, é investigar o mundo formulando sua própria compreensão.
A Maçonaria nos provoca em tornarmos, esse ser pesquisador, entendendo e agindo como aquele que busca desenvolver uma compreensão do mundo, questionando sobre o que é o ser, de onde veio, para onde vai, o que é o conhecimento, o que é a sabedoria e a ignorância, o que é a verdade, o que é o bem e o mal, como se deve viver, o que é a felicidade, o que é a virtude, o que é o homem, enfim, o que é a vida…

O mais rico nesse processo é que cada um de nós vai formando internamente durante as instruções e na vida profana seu próprio itinerário, e é por isso que o processo está sempre em aberto, o que é próprio da busca filosófica.
Alguns filósofos, como Platão, Wittgenstein e Nietzsche, dentre outros, apresentam suas obras como investigações inacabadas, abertas ao questionamento, instigando – nos à busca.

Platão, no livro VII de A República, ilustrou o seu pensamento com a famosa Alegoria da Caverna. Para Aranha e Martins (1986) a análise desse mito pode ser feita pelo menos sob dois pontos de vista: o epistemológico (relativo ao conhecimento), onde Platão explica o que é o conhecimento humano por meio da teoria das idéias, onde o Bem é a mais alta em perfeição e a mais geral de todas: os seres e as coisas não existem senão na medida em que participam do Bem. E o Bem supremo é também a Suprema Beleza.

Mas chamemos a atenção também para o outro ponto de vista, o aspecto político do mito que surge da pergunta: Como influenciar os homens que não vêem? Cabe ao sábio ensinar e dirigir. Trata-se da necessidade da ação política, da transformação dos homens e da sociedade…

É daí que emerge uma importante meta da Maçonaria. Ao buscar estratégias que compatibilizem o acesso aos textos clássicos da história da filosofia com a discussão das instruções de cada grau e com comentários de temas e problemas atuais, a Maçonaria converge para seu nobre ideal que é a busca por uma sociedade mais ética, mais justa e perfeita “por mais que os interesses de oligarquias e grupos mal intencionados dentro e fora dela procurem dividí-la, para subjulgá-la” (Castellani, 1987)

A abertura para essa dimensão do pensamento significa dar a todos a oportunidade de experimentar suas próprias indagações, de pensar por si mesmo livremente e de buscar amorosamente a verdade fortalecendo a união dos verdadeiros maçons.

Bibliografia:
– ARANHA, M.L.A.; MARTINS, M.H.P.. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo, Moderna, 1986.
– BORNHEIM, G. Os filósofos pré – socráticos. 3ª. Ed., São Paulo, Cultrix, 1977.
– CASTELLANI, J. Liturgia e Ritualística do Grau de Companheiro Maçom. A Gazeta Maçônica, 1987.
– HEIDEGGER. O que é isto – a filosofia? In Col. Os Pensadores, São Paulo, Abril Cultural, 1973.
– MERLEAU – PONTY. Elogio da filosofia. Lisboa, Guimarães, 1962
– PLATÃO. A República. 2ª. Ed., São Paulo, Difel, 1973.

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