Interpretação e Considerações
O Grau 17 do Rito Escocês Antigo e Aceito, Cavaleiro do Oriente e do Ocidente, faz parte de um grupo denominado de graus religiosos ou bíblicos, sendo o precursor do Grau 18, assim como São João Batista, foi o precursor de Jesus de Nazaré. É o primeiro grau, na sequência natural da Maçonaria Escocesa, a fazer menção ao Novo Testamento, através do Livro do Apocalipse, também conhecido como A Revelação de Jesus Cristo. Dentro da estrutura do Escocismo, é um grau Capitular, precedido pelos graus denominados de Perfeição e sucedido pelos graus de Kadosh.

Por outro lado, o Escocismo é o nome que usualmente se dá ao conjunto de sistemas, ritos e graus escalonados, que teve origem na França, em uma época onde a realeza britânica, representada pela dinastia Stuart, refugiou-se em Paris em virtude da perseguição religiosa em sua terra natal. Originalmente não tinha os 33 graus que possui hoje. Essa estrutura foi sendo acrescentada ao longo dos anos, juntamente com um arsenal de influências cristãs, judaicas, templários, herméticas, rosacruzes, etc, até transformar-se no rito maçônico mais difundido entre os países latinos, e quiçá em todo o mundo.

O Escocecismo destina-se atualmente a aperfeiçoar em seus adeptos, os valores morais, espirituais e sociais. Estabelecendo uma filosofia e ritualística maçônica sólida e compreensível a todos que estejam dispostos a galgar seus degraus. O grau 17 preconiza a mudança e a transformação. Tanto da leitura atenta dos rituais mais antigos até os atuais, quanto da observação das alfaias, joias, decoração, e, principalmente o teor filosófico, fica evidente a proposta preconizada.
Analisemos inicialmente o conteúdo material:

Várias interpretações são possíveis ao se observar os paramentos e joias do Grau 17. Observando-se as fitas, ou faixas, pode-se interpretá-las como sendo a representação simbólica da luta do bem contra o mal, ou de Deus contra o Demônio ou da Luz contra as trevas.

Por outro lado, as cores opostas e cruzadas podem simbolizar a dualidade entre a noite e o dia, o masculino e o feminino, a piedade e a severidade, Jachin e Boaz. O cruzamento dessas faixas certamente conclama à união dos opostos, o equilíbrio e a tolerância entre Ocidente e Oriente. Há, no entanto, outro simbolismo a extrair do cruzamento dessas faixas. O “X” formado por elas nos remete à Cruz em que Santo André pediu para ser martirizado. Essa cruz é um antigo símbolo, encontrado em pinturas e esculturas e associado ao tempo e à mudança. Simboliza a transformação, assim como, o círculo simboliza a estabilidade.

No que tange a joia de formato heptagonal feita metade em ouro (ou dourada) e metade em prata (ou prateada), é fácil associar esses metais ao sol e a lua, Osíris e Ísis, ou seja, novamente a dualidade já sugerida pelas faixas descritas anteriormente. A balança em posição de equilíbrio sugere o entendimento entre os opostos e as espadas cruzadas mais uma vez remetem tanto à cruz de Santo André, quanto a cessação do desentendimento entre os povos. O Avental e a baeta, ambos triangulares, tem geometria diversa de quase todos os outros aventais maçônicos, usualmente retangulares.

Relembram de pronto a Trindade e o Deísmo, corroborados pela Tetractis feita com dez letras hebraicas IOD. Considerando que dez é o número de nós na árvore semiótica da Cabala judaica, fica evidente a carga religiosa e deísta deste grau. Nem sempre esses paramentos foram assim, no século XIX o Cavaleiro do Oriente e do Ocidente usavam paramentos levemente diferentes dos atuais, como se vê acima, em uma ilustração de 1842 do Grande Oriente Lusitano.

A lenda desse grau refere-se ao juramento e ao pacto feitos pelos Cavaleiros Templários perante o Patriarca e Príncipe de Jerusalém, no sentido de promover a tolerância, a compreensão e entendimento entre todos os povos, do oriente ao ocidente, do norte ao sul. Para isto, prometem guardar segredo, ser discretos, tolerantes e perseverantes quanto a seus objetivos. Estes cavaleiros têm um propósito cosmopolita, pois buscam o ideal da compreensão entre os povos através de educação e da fraternidade.

A Tolerância retro mencionada certamente atende ao conceito maçônico, que permeia todos os graus e ritos. Respeitar o direito de discordar, de ser diferente, de pensar diferente. Permitir a integração entre os povos de raças e culturas diversas, sem observar cor de pele, comportamento religioso ou classe social. Nos dias de hoje, ainda devemos agregar a necessidade da tolerância a opção sexual, de condição física e partidarismo político. No entanto, há momentos em que a tolerância pode ser prejudicial. Quando analisamos a corrupção, sob qualquer pretexto, não devemos ser tolerantes. Quando analisamos a pedofilia, o tráfico de drogas, o latrocínio e os demais fenômenos negativos da sociedade moderna, parece-nos natural que a tolerância deva ser reduzia a zero, ou muito próxima desse valor.

Esses vícios atentam contra a Dignidade humana. Entendemos que a dignidade é uma característica que o homem adquire ao longo do tempo, a duras penas. É um patrimônio de valor quase inefável, pois é medido baseando-se na Honestidade, na Boa Fé e nos Bons Princípios. Levam-se anos para ser reconhecido como digno, e poucos minutos para destruir, com uma ação impensada, a reputação amealhada com esforço, dedicação e honradez. O indigno jamais terá chance de tornar-se digno novamente, ao contrário do ignorante que sempre terá a chance de tornar-se sábio. A Ignorância pode ser transformada em sabedoria e conhecimento, através de esforço próprio ou com o auxilio de outrem. Mas tem que ser persistente. Muitas vezes o ignorante não percebe nem reconhece a sua condição e sofre seguidamente com isso, sem saber.

Cabe ao homem de bem, retirar o ignorante do pântano em que se encontra e mostrar-lhe a senda iluminada. Isso se faz com educação, persistência e orientação. Talvez a ignorância seja o pior dos castigos, quando se fala da evolução social. O direito de encontro, de reunião, da troca de idéias e informações, reduz a ignorância de forma rápida e eficaz. O homem instruído deve lutar por esses ideais, a fim de permitir que as classes mais simples tenham um mínimo acesso à cultura e a consciência social. A ignorância dos liderados é a benção que o déspota e o ditador almejam. Difícil é dominar e enganar um povo esclarecido. Fácil é convencer a massa sem cultura nem organização. Anula-se a Ignorância com o intercambio de ideias, com o aperfeiçoamento moral, garantindo-se consequentemente os direitos de pensar e agir livremente, dentro dos limites da lei aceita. Os ignorantes subjugam-se automaticamente àqueles que eles consideram seus superiores. Conforma-se com a sua situação e seu sofrimento. Apenas uma migalha já os deixa felizes. A luz da razão expõe de imediato as mazelas dos déspotas.

Dentro desse conceito, o maçom deve estar preparado para combater a Ignorância e o preconceito. Dar o exemplo prático, muitas vezes convence mais do que o discurso brilhante e teórico. Promover a educação e a cultura para quem não as tem, talvez seja a melhor forma do combate ao obscurantismo, à preguiça, e 
ao conformismo. Mesmo correndo o risco de desagradarmos tanto os poderosos como nossos pares, tem que se lutar pela liberdade de expressão, pela necessidade de integração e pelo aperfeiçoamento moral e físico. Nessa caminhada, certamente nos depararemos com quem nos ameace com um véu manchado de sangue, com uma lua respingada de vermelho, ou com as retaliações usuais. Tem que ter disposição e dignidade para insistir e convencer.

Essa luta sem fim, permeada de vitórias e derrotas alternadas, não é privilégio dos tempos modernos, ela ocorre desde os tempos bíblicos. É memorável o esforço que os reis judeus envidaram para construir o Templo de Jerusalém, que representava não só o local de culto a Jeovah, mas também a identidade de um povo que durante sua história foi dominador e dominado, escravo e escravagista, vencedor e perdedor. O Templo foi construído a duras penas por duas vezes. E por duas vezes foi destruído e arrasado. Nem por isso os ideais daquele povo se perderam. Até hoje, esperam a reconstrução do terceiro templo que, segundo os seus líderes, ocorrerá quando a vontade de Deus assim se manifestar.

Também os maçons tiveram seus ideais destruídos, quando do episódio descrito na lenda de Hiran Abiff. Uma vez concluído o templo perfeito, símbolo da vitória interior do bem contra o mal, seu melhor arquiteto foi assassinado por motivos que até hoje conhecemos: a ambição desmesurada, inveja, a vaidade e o desejo de obter vantagem a qualquer custo. Hiran pagou com a vida a intolerância daqueles que antes eram seus colaboradores, e que rapidamente, tornaram-se seus algozes. Mais uma vez nos vem à mente a imagem da lua sanguínea e do véu manchado. Muitas vezes é este o destino daqueles que se expõe e se opõem aos interesses dos poderosos e dos ignorantes. Percorrer esta senda é trabalho árduo para o maçon. Mas certamente a recompensa trará paz a nossa consciência e felicidade aos nossos semelhantes.

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