“Jamais o gelo pôde imitar o calor”

Se todas as grandes ideias têm seus apóstolos fervorosos e devotados, mesmo as melhores têm seus desertores. A Maçonaria não podia escapar às consequências da fraqueza humana, tem os seus, e a esse respeito algumas notas não serão inúteis.

Para aqueles que estimam, antes de tudo, a vida material, a Maçonaria é um sensor inoportuno e incômodo, que a muitos põe de lado (os excluem). Nada há a lamentar nesses desertores, porque as pessoas frívolas são por toda parte, pobres auxiliares. Entretanto, essa primeira fase não foi tempo perdido, bem longe disso. Graças a esse disfarce, a ideia foi cem vezes mais popularizada do que se tivesse revestido, desde a origem (INICIAÇÃO), uma forma severa.

Pelo atrativo da curiosidade, tornados uma admiração, à espreita do que é incógnito, na esperança de aí encontrar uma porta aberta, olham a Maçonaria como uma Instituição maravilhosamente explorável, e mais, sonham em dela fazer uma auxiliar de sua ambição, vendo, talvez nela, uma variante de ascensão social, talvez um meio mais seguro de projeção política etc, etc, porque, segundo a opinião dos mesmos, os Maçons são sinônimos de bom êxito, resultado feliz, em tudo que tomam parte.

Desde que esses viram que a especulação escapava de suas mãos e os Maçons não vinham ajudá-los a fazer fortuna, lhes dar uma boa e frutífera saída para seus problemas financeiros, suprindo sua ignorância e lhes dispensando do trabalho material e intelectual, os maçons passam a não ser bons para nada, e suas manifestações não eram senão ilusões. Tanto enalteceram a Maçonaria enquanto tiveram a esperança de dela tirar um proveito qualquer, tanto passam a denegri-la quando vem o desapontamento. Mas, de críticos que a ridicularizam, a levariam às nuvens se lhes houvesse feito descobrir um tio na América, ou ganhar na Bolsa. É a mais numerosa categoria dos desertores, mas se concebe que não se pode, conscientemente, qualificá-los de Maçons.
Essa fase tem igualmente a sua utilidade; manifestando o que não se devia esperar do concurso dos Maçons, os fez conhecer o objetivo sério da Maçonaria. Os Mestres sabem que as lições da experiência são as mais proveitosas; se, encerrado na Câmara de Reflexões, aguardando o momento de ser iniciado, o candidato houvesse entendido o que está escrito nas paredes:
“Se a curiosidade aqui te conduz, retira-te…
Se fores dissimulado serás descoberto…
Se tens medo não vás adiante…”

No ritual de grau 01 (edição 2009, pág. 227) do rito brasileiro há uma passagem notável, que é dita pelo neófito, por ocasião do compromisso de adesão:
– Comprometo-me ainda a separar-me franca e lealmente da Ordem, do que nela continuar como Obreiro insincero, indiferente, indisciplinado ou inútil.
Se tivesse meditado sobre o que obrigatoriamente deverá ser lido, teria se retirado, porque assim, talvez, a Maçonaria fosse por ele encarada de maneira diferente daquela como por muitos, que não percebem o que de sério ela contém. A Câmara de Reflexão, conforme o próprio nome diz, é preparada de tal modo que obriga os que são nela colocados, a refletir.
Se, desde o princípio, os sindicantes houvessem dito:“Não pretendas tal ou tal coisa porque não a obtereis, talvez não os teriam decepcionado; foi porque deixaram de fazer, a verdade saiu da observação. As verdades devem ser ditas para desencorajar os parasitas que se retiram da Maçonaria, e nela, permaneçam só os adeptos sinceros”.

Todas as doutrinas e Instituições têm o seu Judas; a Maçonaria não poderia deixar de ter os seus, e não lhe faltam. São os Maçons de contrabando, mas que têm também a sua utilidade; ensinam o verdadeiro Maçom a ser prudente na escolha de seus afilhados e os sindicantes a não se fiarem nas aparências.

Em princípio, é necessário desconfiar dos ardores muito fervorosos que, sempre, são fogos de palha, ou disfarçados, cópias grosseiras do homem de bons costumes, que suprem aos atos pela abundância de palavras.

A verdadeira convicção é calma, refletida, motivada; ela se revela, como verdadeira coragem, pelos fatos, quer dizer, pela firmeza, perseverança, e, sobretudo pela abnegação. O desinteresse material e a moral constituem a verdadeira pedra de toque da sinceridade. A Maçonaria nos revela que a falsidade não consegue jamais simular completamente.
Entre os adeptos convencidos, não há deserções na acepção da palavra, porque aquele que desertaria por um motivo de interesse, ou qualquer outro, jamais teria sido Maçom sincero. Há, sim, os que não renunciam, mas se esfriam; vivem para si e não para os outros; quer muito se beneficiar da Ordem, mas com a condição de que isso não custe nada. Certamente, aqueles que assim agem, podem “estar Maçons”, mas, infalivelmente, são Maçons egoístas, nos quais a Maçonaria não conseguiu colocar em seus corações o fogo sagrado do devotamento e da abnegação. Fazem número nominalmente, mas não se pode contar com eles.

Todos os outros são Maçons que merecem verdadeiramente este nome; aceitam, por si mesmos, todas as consequências; e não são reconhecidos pelos esforços que fazem para se melhorarem. Sem negligenciarem, senão com razão, os interesses materiais são, para eles (verdadeiros) o acessório, e não o principal; não se desgostam nunca com os obstáculos que encontram no caminho. As vicissitudes, as decepções são provas diante das quais não se desencorajam nunca, porque o repouso é o preço do trabalho; por isso, é que não se divisam entre eles, nem deserções, nem desfalecimentos e a certeza adquirida ao darem a resposta:
MM\IIr\C\T\M\RR\;

Também os bons Maçons protegem visivelmente aqueles que lutam com coragem e perseverança, cujo devotamento é sincero e sem dissimulação; ajudam-os a triunfar sobre os obstáculos, ao passo que abandonam, não menos visivelmente, aqueles que os desprezam e sacrificam a causa da verdade à sua ambição desmedida e pessoal de se porém em evidência, a captar a atenção para satisfazer ao seu amor-próprio e ao seu interesse pessoal!

Meus Irmãos, trabalhemos para compreender, para engrandecer a nossa inteligência e o nosso coração; lutemos, mas lutemos com abnegação. Que o amor ao próximo seja a nossa divisa; a procura da verdade, de qualquer parte que venha, com o nosso lema: LIBERDADE, FRATERNIDADE E IGUALDADE, afrontemos o descaso dos desertores. Se nos enganamos, não teremos o tolo amor-próprio de nos atordoar nas ideias falsas; mas nos princípios sobre os quais se está certo de jamais nos enganarmos; são os do amor ao bem, a abnegação, a renúncia solene de todo sentimento de inveja e de ciúme. Estes princípios são os nossos; vemos neles o laço de união que nos deve unir, qualquer que seja a divergência de opiniões; só o egoísmo e a má fé podem nos prejudicar e fazer danos.
O reconhecimento da maioria faz esquecer a ingratidão e a injustiça de alguns.

Se for justo lançar uma censura sobre aqueles que tentaram explorar a Maçonaria, também, e muito, são culpados aqueles que, depois de assimilar-lhe todos os princípios, não contentes, entre tantos dos quais mais esperávamos, causam algumas perturbações momentâneas. A Instituição, porém, não periclitará por isso.

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