Muita tinta tem sido gasta por conta deste tema, especialmente a “tinta digital” das publicações não impressas. O objetivo deste trabalho é esclarecer alguns pontos sobre este Rito, que no ano de 2015 foi o que percebeu o maior crescimento no Grande Oriente do Brasil, com o aumento de dezoito novas Lojas no território nacional.

A estrutura maçônica que conhecemos com o siste- ma obediencial regido por Grandes Lojas ou Grandes Orientes – como é o caso brasileiro – tem origem na Inglaterra, no ano de 1717, prestes a completar tre- zentos anos de atividade ininterrupta. Não é objetivo neste ensaio ater-me aos detalhes e quais as causas que levaram a fundação deste tipo de estrutura maçô- nica na Inglaterra, mas comprometo-me a descreve- -los num próximo texto. O fato é que a maçonaria moderna, especulativa, congregada num sistema obe- diencial, teve origem em Londres em 24 de junho de 1717 (não coincidentemente no dia de São João Ba- tista), onde reuniram-se quatro Lojas:

• Goose and Gridiron Ale-House (Cervejaria do Gan- so e da Grelha)
• The Crown Ale-house (Cervejaria da Coroa)
• The Apple-Tree Tavern (Taverna da Macieira)
• The Rummer and Grapes Tavern (Taverna do Copo e das Uvas)

Na época as Lojas não tinham nome. Eram identi- cadas pelo local onde se reuniam. Estas quatro Lojas fundaram a Grande Loja da Inglaterra, também co- nhecida como PREMIER GRAND LODGE ou ainda LOJA DOS MODERNOS – um apelido jocoso que foi outorgado por uma Grande Loja rival, fundada em 1751, que se auto denominou “dos Antigos”. No solo inglês foram fundadas mais três Grandes Lojas que tiveram duração efêmera, até que em dezembro de 1813 as lojas remanescentes (dos “Modernos” e dos “Antigos” fundiram-se numa única Loja, a Grande Loja Unida da Inglaterra – GLUI. A direção da recém fundada Grande Loja optou por criar um novo ritual, pois seu entendimento fora que, se fossem mantidos os rituais dos “Antigos” e dos “Modernos” não have- ria uma união “de fato”. Para obter o (então) novo ritual foi fundada no dia da assinatura do Act of Union (Tratado de União) i.e.

27 de dezembro de 1813, uma Loja especi camen- te com esta nalidade, a “Lodge of Reconciliation” (Loja de Reconciliação), oriunda de duas Lojas, mais precisamente da “Burlington Lodge e “Perseveran- ce Lodge”. Após quase três anos os maçons notá- veis destas duas Lojas entraram num consenso sobre o novo ritual, submetido à direção da GLUI. Após aprovado, fora ensaiado por cerca de sete anos e em 2 de outubro de 1823, ocorre a sua primeira demons- tração para o público maçônico em geral – ou seja, entre a fundação da GLUI e a primeira apresentação do ritual passaram quase DEZ ANOS. Em seguida a Lodge of Reconciliation foi dissolvida e o encar- go de demonstrar o (então) novo ritual cou para a Emulation Lodge of Improvement for Master Ma- sons – Loja de Emulação para Aperfeiçoamento de Mestres Maçons, ou simplesmente ELoI. A opção de não aprovar qualquer edição impressa do novo Ritual foi determinante para que a única forma de aprende- -lo foi pela sua demonstração semanal – exatamente pela ELoI. Deste então a ELoI reúne-se todas às sex- tas feiras, de outubro a junho, a partir das 18:15 horas DEMONSTRANDO os trabalhos dos três graus e de instalação de Venerável Mestre.
Na Inglaterra não existe o conceito de “rito”. Lá existe apenas UM, elaborado pela Lodge of Recon- ciliation e demonstrado pela ELoI semanalmente. Mas não é o único RITUAL praticado pelos ingleses. Atualmente por lá existem mais de trinta sistemas, e os mais conhecidos são (além do Emuation): Bris- tol, Cambridge, Stability, West-End, Logic, Oxford, Taylor ́s, Perfect Ceremonies, dentre outros. Apontei propositadamente este sistema – PERFECT CERE- MONIES – por último, pois quero citá-lo mais adian- te. De modo muito distinto do que ocorre no Brasil, estes sistemas têm pequenas, sutis variações entre si.

Basicamente são releituras do que fora inicialmente demonstrado pela ELoI, agregado com os costumes das Lojas que praticavam maçonaria antes da união das Lojas e dos ritos. Por este motivo na Inglaterra não existe o conceito de “rito”. O O cio maçônico é chamado indistintamente de CRAFT O RITUAL demonstrado na ELoI não é “mais um” dentre os quase cinquenta sistemas: corresponde ao que foi convencionado pela Lodge of Reconciliation, na ORIGEM do (então) novo sistema litúrgico, concluso em 1816 e demonstrado pela primeira vez em 1823.

Tanto os “Antigos” como os “Modernos” foram fundados em Londres. Alguns autores, alheios aos fa- tos históricos, a rmam que os “Antigos” originaram- -se em York. Mil vezes não! A “Grande Loja de Toda a Inglaterra” (nome o cial dos “Antigos”) foi forma- da por maçons irlandeses e escoceses que não encon- traram abrigo na Premier Grand Lodge. Como não encontraram guarida, fundaram uma Grande Loja RIVAL, e por conta de certas supressões que os ma- çons da Premier Grand Lodge realizaram, apelidaram de “modernos” – o que efetivamente não era nada bom para uma associação que tinha como uma das premissas a ANTIGUIDADE. O apelido “pegou”, e perdura até hoje.

O fator determinante para a união entre “Mo- dernos” e “Antigos” foi a “Lei das Sociedades Ile- gais”. Tenham em mente que o continente europeu fervilhava de conspirações e derrubadas de tronos, e originalmente a Magistratura Civil pretendia excluir TODAS as sociedades secretas – e a Maçonaria era uma delas. Por conta da grande in uência dos seus respectivos Grão-Mestres – Edward – Duque de Kent – Grão Mestre dos “Antigos” e Augustus Frederick – Duque de Sussex – Grão Mestre dos “Modernos” a maçonaria foi preservada, mas desde que se fundisse numa única associação – e foi o que ocorreu em 27 de dezembro de 1813, dia de São João Evangelista. Estava formada então a maçonaria inglesa de forma única, e assim permanece até hoje.

Embora existam mais de trinta sistemas litúrgicos na Inglaterra, a agrante maioria das Lojas trabalha seguindo as diretrizes elaboradas pela Lodge of Re- conciliation, e DEMONSTRADAS pela ELoI de ou- tubro a junho, às sextas feiras no Freemason’s Hall, em Londres, conhecido como EMULATION RITU- AL ,exatamente por conta do nome da LOJA que to- mou para si o encardo de demonstrá-lo.

O RITUAL DA MAÇONARIA INGLESA NO BRASIL
Os primeiros maçons ingleses vieram em profusão ao Brasil na construção das estradas de ferro no Rio de Janeiro. É importante salientar que apenas pouco mais de vinte anos após a consolidação do invento da locomotiva na Inglaterra, ela foi trazida ao Bra- sil pelas mãos do Barão e depois Visconde de Mauá – mais precisamente em 30 de abril de 1854. Junto com os engenheiros e demais especialistas ingleses vieram também maçons, que não encontravam nas Lojas maçônicas brasileiras um ritual que atendesse seus costumes originais. No mesmo período chega- ram estadunidenses no Brasil, pela fuga dos Confe- derados após a sua derrota na guerra civil no seu país de origem. Estes imigrantes se estabeleceram no inte- rior de S. Paulo, em Santa Bárbara D’Oeste e depois fundaram o município de AMERICANA. Neste fluxo migratório também vieram maçons estadunidenses, que praticavam o seu ritual – diferente dos rituais praticados em terras brasileiras.

Embora falassem o mesmo idioma, maçons ingle- ses e estadunidenses não tinham (e nem têm) o mesmo ritual. A maçonaria estadunidense pratica um ritual pretensamente praticado pelos “Antigos” (1751). Isto não se pode a rmar categoricamente, pois o ritual não era escrito, tampouco publicado – mas nos EUA foi patenteado por Thomas Smith Webb, juntamente um sistema progressivo de graus. De forma semelhan- te à Inglaterra, em relação ao que conhecemos com “Simbolismo” não existe o conceito de “RITO”. As Lojas estadunidenses trabalham num mesmo sistema litúrgico, conhecido lá como “BLUE LODGES”. Em relação à prática litúrgica, igualmente se pode garan- tir que o sistema elaborado pela Lodge of Reconcilia- tion não foi alterado na sua origem, pelo mesmo mo- tivo. Embora o Comitê da ELoI desde sempre prime pela exatidão da sua execução, não se pode garantir que nunca houve qualquer alteração. Obviamente pe- quenas adaptações nas edições dos rituais impressos ocorrem nas edições dos rituais A mais signi cativa ocorreu em 11 de junho de 1986, onde a Grande Loja decidiu que “todas as penalidades físicas fossem su- primidas dos juramentos prestados pelos Candidatos nos três Graus, bem como pelo Mestre Eleito na sua Instalação, mas citados nas respectivas cerimônias”.

Os maçons ingleses fundaram lojas para a sua prá- tica, mais precisamente as seguintes:
• Orphan Lodge n° 616 [Loja Órfã] – Rio de Janeiro em 17 de fevereiro de 1833 pelo inglês Joseph Ewbank, dois anos após a reinstalação do Grande Oriente do Brasil.
• St. John’s Lodge n° 703 [Loja São João] – Rio de Janeiro em 21 de setembro de 1839.
• Southern Cross Lodge n° 970 [Loja Cruzeiro do Sul] – Recife em 15 de junho de 1856.

Estas lojas tiveram vida efêmera. A St. John’s Lodge n° 703 – abateu colunas em 1862; a Southern Cross Lodge n° 970 – abateu colunas em 1872/73 e a Orphan Lodge n° 616 – abateu colunas em 1844 ou seja, este conjunto de lojas durou pouco mais de quarenta anos. Mais uma vez os maçons ingleses estavam alija- dos das suas práticas litúrgicas, até que em 1912, sob a gestão do Soberano Irmão Lauro Sodré, houve um desfecho satisfatório. Naquela época o Grande Orien- te do Brasil era uma potência maçônica MISTA, isto é, o Grão Mestre do Simbolismo regia também os Corpos Filosó cos dos ritos praticados. Embora os “altos corpos” sejam inexistentes na maçonaria in- glesa, a alternativa foi fundar um “Grande Capítu- lo do Arco Real”. Faz parte da constituição inglesa que “a antiga maçonaria é composta por três graus – Aprendiz, Companheiro, Mestre e o Sagrado Arco Real”. Embora aritmeticamente impreciso, o grau compreendido na Ordem do Sagrado Arco Real é IN- DISSOLÚVEL da maçonaria simbólica, e faz parte integrante da Lenda do Terceiro Grau. Faltava dar um NOME ao rito, pois no Brasil existia (e obviamente ainda existe) mais de um. Na Inglaterra não existe o conceito de “Rito”, pois todas as Lojas trabalham no mesmo, com cerca de cinquenta variações – como já foi dito. Estas variações são muito sutis, de modo distinto do que ocorre no Brasil, onde sinais, toques, palavras sagradas e outros elementos são muito, mas muito diferentes entre os ritos que praticamos.

Como CONVENÇÃO foi adotado em 1912 sob os auspícios do Grande Oriente do Brasil o nome de “Grande Capítulo para o Rito de York”. Para quem critica uma CONVENÇÃO, lembre-se que a escolha foi uma mera… convenção! Para os maçons ingleses era indiferente o nome adotado – o importante era apenas a PRÁTICA LITÚRGICA que doravante estavam habilitados a praticar. Só como curiosidade e para quem insiste em chamar o nome de “inadequa- do” ou adjetivos menos urbanos, existe um esporte praticado predominantemente nos EUA chamado “football”, enquanto que o nosso “futebol” lá é cha- mado de “soccer”, sem que nenhuma alma caridosa chame de “certo” ou “errado” este ou aquele nome. En m, a criação de um “corpo losó co” – vamos assim chamar, mesmo com óbvia imprecisão – foi su ciente para promover legalidade aos rituais prati- cados pelas Lojas dos ingleses.

Até então as seguintes Lojas praticavam a liturgia inglesa, apontadas abaixo com os Orientes e respecti- vos anos de fundação:
• Eureka Lodge n°440, Rio de Janeiro, RJ, 1891
• Duke of Clarence n° 443, Salvador, BA, 1893
• Morro Velho n° 648, Nova Lima, MG, 1899
• Unity n° 792, São Paulo, SP,1902
• Saint George n° 817, Recife, PE, 1904
• Wanderers n° 856 , Santos, SP, 1907

A primeira iniciação em língua portuguesa ocorreu
em 1903 na Loja EUREKA n° 440 – Rio de Janeiro. O candidato foi Theodore Langgaard de Menezes e quem conduziu foi o Venerável Irmão Henry L. Wheatley.
A cerimônia em português da iniciação do Ir- mão Theodore Langgaard de Menezes, teve como base o ritual THE PERFECT CEREMONIES OF CRAFT MASONRY.
Isto é de suma importância, pois apesar de can- tado em verso e em prosa que o GOB utiliza o ri- tual demonstrado pela Emulation Lodge – ou ainda o “Emulation Ritual”, isto não corresponde à nossa verdade histórica. E mais. A primeira tradução do ritual inglês foi realizada pelo Irmão J. A. Sadler, e impresso na Inglaterra em 1920 – ou seja, oito anos APÓS a o cialização deste ritual no Brasil. O frontis- pício do ritual do Irmão Sadler declara:
“Ceremonias Exactas da Arte Maçonica como foram aprovadas, sancionadas e con rmadas pela THE UNITED GRAND LODGE OF ENGLAND em junho de 1816.”
Nesta edição de 1920 o nome de quem traduziu o ritual foi omitido. Na edição seguinte, agora impressa no Brasil em 1983, aparece:
“CERIMÔNIAS EXATAS DO RITO de YORK (EMULAÇÃO) Traduzidas em 1920 do ORIGI- NAL INGLÊS PELO Ven.’. Ir.’. A. J. T. SADLER, P.A.D.D.C.; P.D.G.W para o Gr. Cap. Do Rito de York do Gr. Or. do Brasil.”

Existem elementos minimamente curiosos no tex- to do ritual de 1983. Em primeiro lugar, o Grande Oriente do Brasil deixou de ser uma potência Maçô- nica Mista em 1929 – ou seja, não existia qualquer relação direta entre os corpos losó cos – inclua-se o “Grande Capítulo do Rito de York” fundado em 1912 e o simbolismo. Depois da cizânia promovida por Mario Marinho de Carvalho Behring o GOB dei- xou de exercer o caráter misto – os Corpos losó cos tinham vida independente do Simbolismo. E mais. A primeira edição do Emulation Ritual (ritual demons- trado pela ELoI), aprovadas pelo seu Comitê, ocor- re em 1969! Portanto é IMPOSSÍVEL que um ritual impresso pela PRIMEIRA VEZ em 1969 tenha sido traduzido em 1920, colocando por terra qualquer ar- gumento racional que originalmente no Brasil se pra- ticou o “Emulation Ritual”. Como o nome sugere, ou melhor DECLARA, o sistema litúrgico é PERFECT CEREMONIES (Cerimônias Exactas, como traduzi- do pelo Irmão Sadler).

As práticas maçônicas inglesas permitem uma boa dose de liberdade nos procedimentos litúrgi- cos das suas Lojas, e isto é esperado pois, como já foi dito, passaram-se DEZ ANOS entre a fundação da Grande Loja Unida da Inglaterra e a primeira apresentação do (então) novo ritual. Enquanto isso as Lojas continuaram iniciando e promovendo os maçons de grau. A prática dos “Modernos” não continha o cerimonial de instalação na Cadeira de Venerável Mestre, enquanto a dos “Antigos” tinha. Esta prática foi incorporada nas demonstrações da ELoI somente em 1827, ocasião que se padronizou este cerimonial.

Concluindo, há muito o que se desmisti car nesta prática litúrgica que o Grande Oriente do Brasil con- vencionou chamar de “Rito de York”. É o que consta nas nossas Cartas Constitutivas, é o que consta nos nossos Rituais, é o que consta no tratado com a ma- çonaria inglesa em 1912 e rati cada em 1935.

BIBLIOGRAFIA:
Emulation Ritual – Lewis Masonic – 13a. Edição 2014
Ritual do Rito de York – 1920 – Impresso na Inglaterra
Ritual do Rito de York – 1983 – Impresso na Gráfica do GOB
Palestra do V. Irmão Plinio Genz – V Seminário Maçônico – Campinas, mar/2007

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