Todos os maçons prestam, de tempos em tempos, juramentos à ordem, como compromissos destinados a estabelecer e ampliar os seus vínculos exotéricos e esotéricos com a Maçonaria.

Ao pronunciarem as palavras ritualísticas, eles recebem um influxo de idéias que têm a intenção de excitar-lhes a imaginação e a mente, a fim de que refletindo sobre cada passagem dos compromissos, possa aperceber-se dos seus significados ocultos, substância primordial e insubstituível da sua imersão na Ordem.

Vamos nos ater ao juramento do Aprendiz, tão divulgado na Internet e nos livros ao alcance de qualquer profano que julgá-lo secreto é uma infantilidade. Depois de um intróito que varia, de uma obediência para outra, o compromisso formal do Aprendiz declara: “-Se eu for perjuro e trair meu juramento, seja-me arrancada a língua, o pescoço cortado e meu corpo jogado nas areias do mar, no lugar onde o fluxo e o refluxo da maré me mergulhem em completo esquecimento”. Tentemos, agora, entender o profundo e oculto sentido dessas frases aparentemente tão assustadoras quanto irreais.

“… seja-me arrancada a língua…”

A língua é, entre outras funções, o órgão articulador da fonação, por excelência, combinando os seus movimentos com os do maxilar e das faces, tocando os dentes, o palato e os lábios e provendo, assim, as palavras sonoras que pronunciamos. Alegoricamente, a língua é, ainda, o próprio idioma, sendo, nesta acepção, sinônimo de linguagem.

Ao afirmar que consente que lhe seja arrancada a língua, o neófito declara que, caso perjure, aceita a punição de que não mais possa pronunciar qualquer palavra, tornando-se estéril, do ponto de vista da comunicação verbal. Ou seja, a partir do momento em que perjura, ele se submete a não ter mais credibilidade entre os seus Irmãos, pois a sua palavra – antes empregada para assegurar a sua fidelidade aos nossos princípios – perdera o seu valor maçônico. Quando se torna indiscreto e infiel, ele tem a sua língua arrancada, quer dizer, ele perde a credibilidade da palavra e as suas declarações deixam de significar qualquer valor para os Maçons.

“… (seja-me…) o pescoço cortado…”

Ao ser degolado, o corpo humano perde a sua força vital e morre. Separada do corpo, a cabeça não mais lhe pode comunicar as suas ordens, decisões, reações e sensações. Essa dissociação da parte pensante e da parte executora do corpo sugere que, a partir da aplicação do castigo, o perjuro não mais realizará qualquer ação maçônica, pois a sua cabeça não mais representará um maçom vivo e o seu corpo não terá condições de praticar a Arte Real com propriedade, morta que está a origem do seu saber. Cortar o pescoço priva o Maçom da capacidade de agir em nome da Ordem ou a seu serviço permanecendo para sempre profano irredimível.

“… (seja) o meu corpo atirado nas areias do mar…”

As areias do mar representam os bilhões de grãos que forram o fundo do mar, sendo, alegoricamente, uma representação da população da Terra. O corpo sem vida maçônica do perjuro, ao ser atirado às areias do mar, passa a se confundir com essa população incógnita e não identificada, misturando-se às massas das quais havia saído, quando, ao ser iniciado, ganhou o direito de percorrer o caminho destinados aos iluminados pela razão e pelo discernimento. Depois de perjurar, o iniciado desiste desse caminho e aceita ser, então, devolvido às suas origens profanas, onde Maçom nenhum voltará a reconhecê-lo com tal, ficando, assim, ignorado pelos que foram seus irmãos, que a sua desídia lhe permitiu trair.

“… onde o fluxo e refluxo da maré…”

O subir e descer alternado, ininterrupto, regular e constante das águas do mar, formando as marés, representa as alternâncias da vida humana que, sem o apoio de uma filosofia pura, própria, forte e objetiva, representa as venturas e desventuras profanas, ao sabor dos acasos e sujeita às vicissitudes de intensidade variável. O perjuro, atirado ao mar, na linha da maré, volta a ser profano, sem as colunas da força e da beleza a lhe proporcionarem proteção e defesa contra os infortúnios e sem lhe proporcionar entusiasmo e incentivo, nos êxitos. Ali, na areia do mar, a maré da vida o fará balouçar ao sabor da força das águas, atirando-o a esmo, à esquerda e à direita, sem que a Ordem, que traiu pelo perjúrio, tal possa impedir. A sua vida deixa de ter o sentido de fraternidade coletiva que cada Maçom nutre pelos seus Irmãos, passando a ser vivida como uma etapa insossa da sua existência temporal neste mundo.

“… me mergulhem no mais completo esquecimento…”

Finalmente, sem voz nem voto, sem o direito de ser acreditado, sem qualquer possibilidade de agir e proceder como Maçom que deixou de ser, porque não respeitou a sua própria palavra empenhada à Ordem, o perjuro é deixado à sua própria sorte, ignorado pelos Irmãos que traiu vilmente, desconhecido pela Maçonaria que abandonou ao ferir o seu compromisso de honra e riscado do rol de homens livres e de bons costumes para sempre.

O juramento do Aprendiz contém, como percebemos, muito mais significado do que podem sugerir as palavras que o compõem, se entendidas pelo seu sentido exotérico. Para perceber a extensão do castigo e a sua real aplicação, na vida prática, é necessário que saibamos interpretar o profundo significado esotérico do compromisso que, num momento glorioso, o Maçom assumiu, como primeiro e mais importante vínculo espontaneamente admitido com a Ordem. Sob o ponto de vista iniciático, a relação existente entre o neófito e a Maçonaria tem início, exatamente, no momento em que conclui a prestação do seu juramento sagrado, num momento solene e com o testemunho daqueles que são, a partir daí, inseparavelmente ligados ao seu próprio destino. Tal compromisso, se quebrado, por infelicidade ou má-fé, tem o seu castigo terrível no corte, definitiva e permanentemente, de todos os liames criados desde a iniciação.

Outros juramentos acompanham a vida do Maçom, na suas subida pela escada de Jacó, todos com interpretações igualmente fascinantes e inspiradoras, mas nenhum com tanto significado simbólico e esotérico como o que o neófito faz, um pouco antes de ser recebido e constituído Aprendiz-Maçom.

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