Uma das maneiras mais eficazes de se aprender a discursar é ler discursos; discursos dos grandes oradores, dos grandes mestres da palavra, seja ela escrita ou falada, prestando atenção em como eles constroem suas belas frases, como despertam em nós sentimentos e emoções, como utilizam adequadamente as figuras de linguagem, tão importantes e essenciais ao brilho de seus pronunciamentos. Selecionamos, a seguir, o exemplo de um grande discurso. Leia-o atentamente, releia-o várias vezes, aprenda a apreciá-lo e descubra, a cada releitura, novas nuances e detalhes antes desapercebidos.

A carta do Chefe Seattle

Discurso, segundo o dicionário Aurélio, define-se como uma “peça oratória proferida em público ou escrita como se tivesse de o ser.”
Podemos inferir, portanto, que uma peça escrita e não lida em público, como por exemplo uma carta aberta, pode ser considerada um discurso; e este é o caso desta célebre carta, dirigida ao Presidente Fillmore, dos Estados Unidos, em 1852, como resposta à sua pretensão de “comprar” as reservas indígenas da tribo dos Duwamish:

“O Grande Chefe Branco manda dizer que deseja comprar as nossas terras…
E essa idéia nos parece estranha.
Como é possível comprar ou vender o céu, o ar, o calor da terra?…
Como é possível comprar aquilo que não possuímos: o frescor da brisa e o borbulhar da água…
Para meu povo, cada pedaço desta terra é sagrado. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia, cada clareira e cada inseto a zumbir são sagrados. A seiva que percorre o corpo das árvores carrega consigo as lembranças do homem vermelho.
Nossos mortos jamais esquecem esta bela terra, mesmo quando vão caminhar entre as estrelas, pois a terra é a mãe do homem vermelho; os mortos do homem branco, porém, esquecem o seu berço, esquecem facilmente a sua terra de origem; e na verdade, somos todos parte da terra…e ela faz parte de todos nós. As flores perfumadas são nossas irmãs, o búfalo, o cavalo, a grande águia, são nossos irmãos. Os montes rochosos, os regatos, o calor do corpo do potro e o homem – todos pertencem à mesma família.
Portanto, quando o Grande Chefe Branco, em Washington, manda dizer que deseja comprar nossa terra, pede muito de nós.
O Grande Chefe diz que nos reservará um lugar onde poderemos viver satisfeitos, onde ele será nosso pai e nós seremos seus filhos, portanto, nós vamos considerar sua oferta, mas isso não será fácil, pois esta terra é sagrada para nós.
A água brilhante que escorre nos rios e riachos não é apenas água…ela é o sangue de nossos antepassados. Se vocês comprarem a terra, devem se lembrar de que ela é sagrada, e devem ensinar as suas crianças que ela é sagrada, e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos nos fala de acontecimentos e lembranças da vida de meu povo. O murmúrio das águas é a voz de nossos ancestrais. Os rios são nossos irmãos e saciam a nossa sede, carregam as nossas canoas e alimentam nossas crianças. Se a terra lhes for vendida, vocês devem lembrar e ensinar seus filhos que os rios são nossos irmãos e seus também… vocês devem dar aos rios a bondade que dariam a qualquer irmão.
Sabemos que o homem branco não compreende nossos costumes. Uma porção de terra tem para ele o mesmo significado que qualquer outra, pois ele é um forasteiro que vem na calada da noite, extrai da terra o que necessita, e vai-se embora; a terra não é sua irmã, é sua inimiga… e quando ele a conquista, prossegue em sua marcha, deixando para traz o túmulo de seus antepassados, sem ao menos olhar para traz; ele rouba da terra aquilo que estaria destinado aos seus próprios filhos e não se importa. A sepultura de seus pais e o direito de seus filhos são rapidamente esquecidos.
O homem branco acostumou-se a tratar a terra, sua mãe…e o céu, seu irmão…como coisas que podem ser negociadas, saqueadas, compradas e vendidas. Vendidas como carneiros ou enfeites coloridos. Seu apetite devorará a terra e acabará por transformá-la em um deserto.
Nossos costumes são diferentes do homem branco. A visão de suas cidades ferem os olhos do homem vermelho. Mas, talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e nada compreenda.
Nas cidades do homem branco não há lugares tranquilos, nenhum lugar onde se possa ouvir o bater de asas de um inseto, nenhum lugar onde se possa ver o desabrochar de flores na primavera; o ruído das cidades ferem os nossos ouvidos e a fumaça embaça os nossos olhos. E o que resta da vida de um homem se ele não pode ouvir o canto de uma ave e sentir o suave murmúrio do vento?…
O ar é precioso para o homem vermelho, pois todas as coisas vivas compartilham o mesmo sopro – o animal, a árvore, o homem – todos compartilham o mesmo sopro.
Parece que o homem branco não sente o ar que respira. Como se agonizasse, ele é insensível ao mau cheiro. Suas cidades fedem…
Os homens brancos contaminam suas camas…e uma noite serão sufocados pelos seus próprios dejetos.
Se vendermos nossas terras ao homem branco, ele deve lembrar que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha seu espírito com toda a vida que ele mantém.
O vento, que deu ao nosso avô seu primeiro inspirar, também recebe seu último suspiro…
Portanto, vamos meditar sobre a sua oferta. Se decidirmos aceitar, imporemos uma condição: o homem branco deve tratar os animais desta terra como irmãos. Sou um selvagem e não compreendo qualquer outra forma de agir.
Eu já vi milhares de búfalos apodrecendo nas planícies, abandonados pelo homem branco que os alvejou de um trem, e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro possa ser mais importante que o búfalo, que o índio só sacrifica para viver.
O que é o homem sem os animais? O que ocorre com os animais, breve acontece com os homens, pois em tudo há uma ligação.
Vocês devem ensinar às suas crianças que o solo é sagrado, que é a cinza de nossos avôs…
Ensinem às suas crianças o que ensinamos às nossas: que a terra é nossa mãe, e que tudo o que acontece à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão cuspindo em si mesmos.
Isto sabemos: a terra não pertence ao homem; o homem é que pertence à terra.
Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Em tudo há uma ligação. O homem não tramou o tecido da vida, ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo
Mesmo o homem branco, cujo deus ele alega que caminha e fala com ele, não pode estar acima disso.
É possível que, apesar de tudo, ainda possamos viver como irmãos.
Mas isso, veremos…
Mas de uma coisa estamos certos, e o homem branco um dia também saberá:
Deus é um só…e o nosso Deus e o Deus do homem branco é o mesmo, e Sua compaixão é igual para todos os homens, brancos e vermelhos.
Por alguma razão especial Deus deu ao homem branco o domínio sobre estas terras e sobre o homem vermelho…e isto para nós é um mistério, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, todos os cavalos bravios domados, todos os recantos secretos das florestas sejam devastados.
Que restará, então, do arvoredo?…
Onde estará a águia que voa nos céus?…
Qual será o destino da água pura das fontes?…
Será o fim da vida… e o começo da sobrevivência”

Sobre o Autor

Gr∴Secret∴ Assist∴ de Cultura e Educação Maçônicas do GOSP/GOB. Autor de: “O Livro do Orador”, editado pela Madras Editora.

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