No passado, e relativamente no presente, a busca deliberada pelo conhecimento, a construção da cultura pessoal e o desenvolvimento intelectual têm sido indesejáveis por certos sistemas político-religiosos. No passado, muitos filósofos, livres pensadores, artistas e cientistas sofreram perseguições, foram presos e executados por causa de suas ideias e opiniões, de sua criatividade e de suas invenções e descobertas, e muitas de suas obras foram banidas da sociedade e consideradas proibidas e queimadas em praças públicas.

A busca pelo conhecimento e pela aquisição de cultura sempre foi considerada uma coisa indesejável, “perigosa” e desprezada pelos dogmas seculares cujo objetivo sempre foi buscar estabelecer o obscurantismo.

Contudo, o exercício do livre-pensar, a criação visionária, em a busca pelo autoconhecimento e pelo autoaperfeiçoamento fazem parte da vida de todo aquele que é livre psicomentalmente e de vontade forte. A busca pelo conhecimento e pelo aprimoramento cultural, pela liberdade de expressão e pela aplicação prática de uma filosofia pessoal são essenciais à evolução e à saúde psicomental e física de qualquer indivíduo esclarecido, inteligente e de sensibilidade. Aqui, “esclarecido” ou “inteligente” não significa estar simplesmente a par da programação sensacionalista e lobotomizante das TVs, dos modismos televisivos internacionais e nacionais e de sua ditadura popular que escraviza as multidões biomecanoides inconscientes e inconsequentes. Tampouco é pensar que se sabe tudo lendo por alto um ou dois livros sobre qualquer assunto, “opinando” sem embasamento ou sem argumento plausível. Aqueles que assim pensam convictamente talvez nunca tenham entrado numa livraria ou numa biblioteca…

É importante ter em mente que o conhecimento adquirido deve ser de fato internalizado e profundamente compreendido para que um indivíduo se torne sábio em qualquer área do conhecimento, seja convencional ou não convencional, pois a sabedoria é apenas conhecimento com compreensão. Nisso reside o néctar ou o veneno de todo e qualquer conhecimento adquirido, proporcionando clareza mental, discernimento intelectual e autoconsciência, ou, como veneno, dispersão e confusão do conhecimento não compreendido, acarretando a desagregação psicomental que distorce a realidade, o entendimento e que pode provocar algum grau de mania, desajuste, insanidade ou delírio. Porém, é preferível arcar com os resultados do conhecimento do que com as consequências da ignorância.

Sendo assim, deveria ser relativamente abrangente, sólida e crescente, dentro do possível, a cultura pessoal de cada indivíduo que se crê autoconsciente. Mas não é exatamente o que acontece. Há ainda muitas pessoas com matéria mental relativamente rudimentar, mesmo nos dias de hoje, mesmo com tecnologia e informação acessíveis. Infelizmente, não descobriram os prazeres sutis que expandem a consciência e o conhecimento e que proporcionam momentos de salutares atividades do pensamento e da imaginação, nos fazendo vislumbrar miríades de ideias.

Assim, a construção da cultura pessoal é empreendida pela vontade e pelo prazer, gerando ideias, construindo ideais, vivenciando sentimentos e sensações de uma vida rica psicomentalmente e epicurista filosoficamente. De fato, a maioria dos eruditos, dos cultos, dos literatos, dos artistas e dos filósofos livres-pensadores são, de certa maneira, autênticos epicuristas, pois, de uma maneira ou de outra, consideram importante e essencial a busca pela beleza filosofal, pela beleza que há na sabedoria e no conhecimento, pelo prazer intelectual, pelo prazer do estudo e pelo prazer da cultura elevada, que trazem experiências para consciência individual. E tudo isso acontece com seletividade e apreciação consciente por meio de uma forte atração interior por aquilo que é inegavelmente superior (em vários aspectos), verdadeiramente criativo e artisticamente primoroso.

Assim, a cultura pessoal estará sempre alicerçada, com um trabalho contínuo, sobre os pilares gregos da vontade (thelema), do conhecimento (gnosis) e da sabedoria (sophia)…

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