Ou a difícil arte de conduzir homens livres

Nosso irmão Osório, numa das frases antológicas que tanto permeiam a heróica história de nossa Pátria, declarou que “É fácil a missão de comandar homens livres, basta mostrar-lhes o caminho do dever”.  Frase de raro efeito poético e de grande poder de incentivo às tropas perante a possibilidade de morte eminente num campo de batalha.

A maçonaria, reduto inconteste de homens livres e de bons costumes, possui entre suas principais instituições a figura doVenerável Mestre, tradicionalmente eleito por seus pares para conduzir com “as luzes de sua sabedoria e prudência”, durante determinado período, os destinos da Loja e de seus obreiros. É desejável que o futuro Venerável seja um Mestre Maçom respeitado por todos irmãos, conhecedor e defensor da pureza dos regulamentos, usos e costumes de sua obediência e do rito adotado pela oficina, e  principalmente, um irmão que atinja 100% de satisfação entre os obreiros do seu quadro, com suas decisões democráticas  voltadas exclusivamente para o bem estar geral e o progresso da Loja.

Via de regra, salvo raríssimas exceções, todo o iniciado em nossa Arte Real, seguidor de seus ensinamentos, cumpridor de suas obrigações – e, respeitando-se um interstício variável – chegará um dia ao Trono de Salomão, empunhará o primeiro malhete de sua Loja e terá, a partir de então, sob sua responsabilidade a preservação da instituição “Venerável Mestre”. Mestre Maçom o será, com certeza. Respeitado por seus irmãos? Provavelmente o será, e se não por todos, a imposição litúrgica de seu rito se encarregará de amenizar manifestações externas de que tal não é verdadeiro. Conhecedor e defensor da pureza dos regulamentos, landemarques e rito, não o será apenas se não quiser, pois as fontes de consulta estão aí, ao alcance de uma simples conexão da internet, sem desprezar a capacidade inteligente de cercar-se de um bom orador e dois bons vigilantes. Em resumo, todos estarão aptos a, facilmente, adequar-se às características desejáveis de um Venerável Mestre.

Contentar, agradar, não decepcionar a 100% do quadro de obreiros de sua Loja. Eis aí a primeira grande dificuldade – e quiçá, grande decepção de um VM. Por mais laborioso que seja, por mais dedicado à sua sublime missão, por mais tempo que passe estudando e pesquisando, enfim, por mais que procure preparar-se e não meça esforços para ser o modelo desejado por todos, jamais, em Loja alguma, conseguirá atingir a plena satisfação de todos seus obreiros.  Afirmação um tanto cáustica, dirão alguns. Entendamos, então, o porquê.

Todo o ser humano traz, dentro de si, intrínseco, um determinado grau de liderança, dividida em distintas categorias. É característica da condição de pessoa humana, remonta ainda aos primórdios de nossa espécie, onde a sobrevivência estava ligada diretamente à capacidade de juntar-se em bandos e de destacar-se no mesmo. Democrático, autocrático, laissez-faire, não importa a categoria, tampouco o grau, todos temos em nós a capacidade e, porque não dizer, a necessidade de exercitar qualquer espécie de poder, seja no ambiente de trabalho, seja no lazer, seja em competição esportiva, ou até mesmo, no âmbito restrito familiar.

E tal capacidade – ou necessidade – independe de preparação, de estudos prévios, muitas vezes de vontade. Às vezes, exercer o poder é um ato mecânico, um ato despercebido, quase como o respirar. Mas no nosso caso, ao contrário de um sufrágio generalizado onde cidadãos anônimos votam em determinado candidato, exercer o poder numa Loja Maçônica é uma deferência, um ato delegado por homens que estão reunidos por uma única causa, por homens que supõe-se livres, fraternos e de bons costumes, por homens que acreditam num mesmo ideal. E, eis a questão, por homens que estão situados na mesma condição moral, mesma escala social, mesmo grau de inteligência, mesma capacidade de poder.

Ao novel Venerável Mestre, instalado com a devida pompa, é entregue o primeiro malhete, e agregado a este, todo o peso de uma instituição que beira os quatrocentos anos e, principalmente, todas as expectativas de quem nele votou. Não restam dúvidas que em sua cabeça, no momento em que é saudado por seus irmãos, passa os melhores sentimentos, a melhor das intenções de querer trabalhar muito, dar o máximo de si para corresponder as expectativas, para ver o crescimento de sua Loja, enfim, fazer o melhor possível para acertar, em tudo, e com todos.

Mas, repetindo-se aqui um velho chavão, se a Arte Real é perfeita, seus obreiros ainda não o são. Do mais antigo MI, ao recém iniciado aprendiz. E o recém instalado Venerável descobrirá, cedo ou tarde, que determinada atitude, determinada ação ou omissão, desagrada a uma parcela de irmãos, quiçá a todos. E fiel ao estilo próprio de exercer o poder, enfrentará tal decepção de uma maneira também muito própria: Com tristeza, com autocrítica, com condescendência, com ira, etc. Não obstante toda a tentativa de amenizar, não obstante toda a boa vontade, não obstante com quem reside a razão no caso determinado, a verdade é que a mágoa estará instaurada, e as conseqüências à egrégora da Loja serão funestas.

Não existe a fórmula que evitará tal confronto. Não existe o Venerável que transcorrerá seu período incólume. Não existe o obreiro que jamais desagradar-se-á com alguma ação ou omissão do Venerável Mestre. Não existe a Loja que jamais terá, entre suas colunas, temporários abalos em sua missão principal.

Mas existe, reinante em nossa Arte Real, o sagrado exercício da fraternidade, da tolerância, do eterno lapidar da pedra bruta que somos todos nós, aprendizes desta escola chamada vida. E enquanto houver, numa Loja, a compreensão do imenso poder que é tal exercício, haverá mais bálsamos do que ferimentos, mais palavras doces do que o fel, mais construção do que entulhos. Ao Venerável Mestre que, por graças de nosso Grande Arquiteto, estiver conduzindo uma oficina que não esconde suas mazelas, mas antes, as sustenta sob um mano da fraternidade, pode-se dizer: Parabéns, meu irmão. Para ti, é fácil conduzir homens livres.

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