Ouando Sócrates lan- çou o desafio do “conhece-te a ti mesmo” talvez não imaginasse que, nos mais de dois mil anos de história que se seguiram a ele, tantas respostas seriam dadas e tantas interrogações acerca do ser humano ainda perma- neceriam em aberto, não obs- tante os empreendimentos de- dicados ao autoconhecimento e à antropologia sob suas diferentes perspectivas. A ideia do bem, a busca da felicidade ou do bem-estar, a ra- zão, o bom senso e os bons cos- tumes tão falados para moucos ouvidos em nossa Divina Ordem “A Maçonaria”, por exemplo; São alguns desses conceitos que fornecem critérios para ordenar a conduta humana. Eis, portanto, um pressuposto fundamental de toda ética que se descortina a partir disso: a ação humana neces- sita de regras.

Pela mais simples observação, podemos con- cluir que, se o ser humano car entregue aos seus próprios instintos naturais, muito provavelmente a tendência ao egoísmo, ao desequilíbrio moral e à destruição se a rmarão como os critérios da ação. Um exemplo disso, de que a associação entre conhecimento e virtude não ocorre de modo tão ne- cessário como, a princípio, poderia parecer-nos é apresentado por Platão.

A República, livro escrito pelo filósofo gre- go Platão, é uma obra que tem como tema cen- tral a Justiça; está dividida em dez livros, todos em forma de diálogo socrático, em que o autor desenvolve o tema sob os mais variados aspec- tos. Em A República, no Livro II encontramos o “Mito do Anel de Giges”. Em que Platão narra a lenda do pastor Giges que encontra, no fundo de um abismo, um anel que lhe permite ser invisí- vel a um simples movimento deste. Ao desfrutar da invisibilidade, o pastor passa a agir sem es- crúpulos e, movido pelo desejo de poder, seduz, rouba e mata. A conclusão da narrativa é que, mesmo uma pessoa virtuosa e justa, se tivesse em mãos o anel de Giges, agiria contrariamente à virtude e à justiça (PLATÃO, 2000, p. 43s).

A despeito de nossas capacidades para o agir moral, essa lenda expõe a fragilidade de nossa dis- posição para a moralidade, não por nosso conhe- cimento, o que nos leva a supor que o exercício da virtude, enquanto comportamento adequado à visibilidade, conviria mais para o “aparentar ser” da etiqueta, do que para o “dever ser” da ética. Nesse contexto, parece ser realmente oportuno o questionamento de Montaigne: “Será verdade que, para sermos completamente bons, tenhamos de o ser por disposição natural e inconsciente, inde- pendentemente de leis, raciocínios e exemplos? ” (MONTAIGNE, 2000, p. 364).

O anel de Giges agiria contrariamente à virtude e à justiça. Platão nos esclarece através do “Mito do Anel de Giges” sobre natureza humana indisfar- çavelmente violenta, gananciosa e submetida aos desejos de poder e aos apelos carnais, principal- mente quando se acha protegida sob o manto da in- visibilidade e, por conseguinte, da absoluta certeza da impunidade. Desvendar a “natureza” do homem tem sido ao longo dos séculos, objeto de estudo de grandes pensadores como Maquiavel, Thomas Hobbes, Rousseau, Sigmund Freud, dentre outros.

O sentimento de justiça não é natural no homem e para reforçar a ideia, Platão assevera: Se, portan- to, houvesse dois anéis como este; e o homem justo pusesse um, e o injusto outro, não haveria ninguém ao que parece tão inabalável que permanecesse no caminho da justiça, e que fosse capaz de abster- -se dos bens alheios e de não lhes tocar, sendo-lhe dado tirar à vontade o que quisesse do mercado, entrar nas casas e unir-se a quem lhe apetecesse, matar ou libertar das algemas a quem lhe aprou- vesse, e fazer tudo o mais entre os homens, como se fosse igual aos deuses. Talvez por conta da na- tureza humana egocêntrica e por não termos autos- su ciência é que surgiram as leis, os contratos e as convenções, para inibir a tendência a privilegiar os próprios interesses em detrimento da coletividade. Se, por suposição, alguma pessoa tivesse o poder da invisibilidade e soubesse, de antemão, que não lhe seria imputada qualquer penalidade, com cer- teza agiria conforme os interesses pessoais e daria vazão aos instintos e desejos mais inconfessáveis. Mas se a Justiça não está em nossa natureza, o que az com que a busquemos? Por que a Maçonaria nos ensina e incita-nos a sermos Justos e Perfeitos? Provavelmente a resposta esteja na acumulação de experiência e do conhecimento do que acon- teceu com a vida de homens que sempre agiram com injustiça, e que andaram as suas existências colhendo os frutos amargos da própria semeadu- ra. Sob essa visão, Platão atribui a Sócrates, em A República, a tarefa de mostrar que “a justiça é mais vantajosa do que a injustiça e, em si mesma, o maior dos bens”. Sócrates conclui com admirável habilidade que “justiça é virtude e sabedoria; e a injustiça, mal- dade e ignorância”. A Maçonaria é uma Escola de Conhecimentos. A graduação dos seus ensinamen- tos é uma excelente didática, encadeando lições aprendidas ao longo do tempo, que nos possibilita a oportunidade de estudar e re etir sobre tais ensinos para a construção do nosso Templo Inte- rior. É uma tarefa árdua que nos exige paciência, perseverança e humildade. É trabalho de uma vida inteira e que não se encerra com a passagem para o Oriente Eterno. São lições imorredouras que nos acompanharão pelas existências no porvir. Trate- mos então da invisibilidade hodiernamente, e que é uma realidade em nossas Lojas, na gura do Mes- tre Invisível.

Até onde vai o nosso conhecimento, esse termo não existe para denominar a categoria do maçom, nem nos Graus Simbólicos, tampouco nos Graus Filosó cos e Graus posteriores. É uma alegoria criada para representar o maçom que não tem com- promisso com a Ordem e que, por egocentrismo, se interessa unicamente por aquilo que diz respeito a si próprio; aquele que em nada colabora com a Loja a qual pertence.

O Mestre Invisível não tem frequência regular e comparece somente às Sessões Magnas festivas, se autoridades maçônicas estiverem presentes; não se manifesta em Loja para contribuir com alguma ideia, ação ou projeto de interesse da Ordem em geral e do quadro, em particular; no giro do Tronco de Solidariedade, com a mão direita vazia, simula depositar o óbolo, e quando o faz deposita a menor quantia; o Mestre Invisível não socorre o Irmão necessitado de ajuda seja material, seja espiritual; nunca aparece nas visitas programadas a um Irmão enfermo; não estuda o Ritual nem as leis maçô- nicas mas quer impor a sua opinião pessoal e de como ele “acha” que deve ser a Maçonaria.

O Mestre Invisível trama na surdina contra Ir- mãos que considera desafeto, espalhando a injúria e a difamação com ardilosidade, tornando quase impossível a tarefa de imputar-lhe a autoria das in- fâmias; é um arquiteto de vaidades e projeta com meticulosos cálculos as ações que irão bene ciá-lo e exaltá-lo perante a Maçonaria e usa para os ns planejados, os Irmãos de boa-fé.

Este profano de avental entrou na Maçonaria, mas nunca permitiu que a Maçonaria entrasse em seu espírito, para operar as mudanças éticas de que é tão necessitado. O Mestre Invisível é um indi- gente moral. Entretanto, graças ao G∴A∴D∴U∴ que os Mestres Invisíveis são pouquíssimos em nossa Ordem e representam uma parcela ín ma na Grande Família Maçônica Universal. É uma exceção, não a regra. Por mecanismos misteriosos, insondáveis desígnios e reagindo com o ciente sentido de autopreservação, a Maçonaria sempre encontra um meio de afastar os Mestres Invisíveis da saudável convivência entre os verdadeiros ma- çons. Quantos de nós não os conhecemos e depois soubemos de seu afastamento de nitivo do nosso meio? Quantos já não foram relegados ao perpétuo esquecimento? O mistério da Iniciação é iniciar o dia sabendo-se melhor do que no dia anterior. É descobrir que muito do que aprendemos como sim- bólico pode se tornar concreto. É adquirir a certeza de que ser Justo é o que nos encaminha à Perfei- ção. É trabalhar sem descanso erguendo templos às virtudes e cavando masmorras aos vícios. Buscai essa Pedra em vós mesmos e a encontrareis; Pro- curai a Luz na Sinceridade mais profunda de vosso coração e a obtereis. Temos o Esquadro, o Com- passo e demais ferramentas para a execução da ta- refa. Temos a paz, a harmonia e a concórdia como tríplices argamassas com que se ligam as nossas obras e sob a égide Divina, não sucumbiremos aos insistentes apelos do ego. Somos Mestres Maçons, visíveis, em pé e à ordem para servir com Justiça e Perfeição.

Batei nalmente à porta do santuário da pura Tradição e a porta abrir-se-vos-á, mas contai com vós mesmos, com vossos bons sentimentos, e não vos deixeis confundir por pontí ces charlatães. Ora et labora. Os atos de uma pessoa tornam-se a sua vida, tornam-se o seu destino. Tal é a lei da nossa vida. (Léon Tolstoi).

Bibliografia
– https://pt.wikipedia.org/wiki/Anel_de_Gyges • Acesso em 16/03/2017.
– http://cartaforense.com.br/conteudo/colunas/ platao—o-mito-do-anel-de-giges/13766 • Acesso em 16/03/2017.
– http://www.ebah.com.br/content/ABAAAfE1IAJ/anel-giges
Acesso em 16/03/2017.
– http://www.espacoacademico.com.br/096/96fellini.htm, Juliano Fellini, Professor de Ética do DePTo de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). • Acesso em 16/03/2017.
– https://pensador.uol.com.br/tolstoi_frases/ • Acesso em 16/03/2017.
– MONTAIGNE, M. de. Ensaios. Trad. Sérgio Milliet. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2000.
– O Simbolismo Hermético e sua relação com a Alquimia e Franco Maçona- ria, 1930, OSWALD WIRTH.

Sobre o Autor

ARLS Culto ao Dever, no 600 Oriente de Rio Novo • GOB/MG

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