A grande maioria dos homens comuns não gosta que sejam promovidas mudanças em sua rotina, em seu dia a dia e, por isso mesmo, não nutre nenhuma simpatia pela luta, pelo embate, pela contenda, seja ela física, moral ou intelectual. Por isso, ela age naturalmente, de forma neutra em todos os campos, de forma a deixar que as coisas se resolvam por si sós.

Como maçons que somos, não podemos nos iludir: nós não somos homens comuns. Porque, por algum motivo (ainda que desconhecido por nós), fomos pinçados, escolhidos de dentro da comunidade profana para ingressar numa entidade que, por séculos e mais séculos vem atuando, de forma intensa, em diversos setores da sociedade (ainda que de maneira discreta).

Frise-se, por oportuno, que em nosso Ritual de Companheiro existe uma determinação no sentido de que temos que estar prontos para lutar contra as tiranias sociais, ao dispor, como finalidade da Maçonaria: “o combate sem tréguas ao perigo constante, que é o esmagamento de uns pela ambição desenfreada e o orgulho de outros” (fl. 34).

E nos incita a estudar, de forma que “o conhecimento adquirido pelo Maçom, deve tender ao desenvolvimento intelectual e moral do indivíduo, visando ao aperfeiçoamento da sociedade em que vivemos”.

Aquele, portanto, que pretende alcançar o sucesso nesta empreitada, ser um vencedor, tem que aprender a enfrentar as dificuldades, tem que se dispor a lutar contra as barreiras que se apresentam no caminho de seu progresso. Por isso, as escolhas que vamos fazendo ao longo da vida levam-nos para esta luta diária, e a maneira como conduzimos esta luta diária é que nos fará crescer como seres humanos.

Como maçons que somos, não podemos nos acomodar, não podemos nos “dar ao luxo” de sentar à sombra e esperar que as coisas aconteçam ou, pior ainda, que elas deem errado: este é o papel do pessimista, daquele que crê, piamente, que nada vai dar certo.

Não podemos, também, nos escondermos numa bolha, nos isolarmos do mundo, nos refugiarmos numa redoma de vidro (como a flor do Pequeno Príncipe, na obra prima de Antoine de Saint-Exupéry, que buscava, assim, fugir ao ataque das lagartas). Aproveitando a figura literária, Exupéry nos deixou a lição de que, para conhecermos a beleza do voo das borboletas é necessário que suportemos os ventos, as mazelas, as intempéries e, também, algumas lagartas.

Os estudiosos da natureza humana sempre buscaram entender esta aversão que o homem comum tem pelo desconhecido, a necessidade arraigada e obstinada que ele tem em manter os antigos padrões e paradigmas, o incomensurável medo das mudanças.

O homem maçom, a despeito de também não gostar desta sensação de desconforto que advém das mudanças, precisa aprender que elas são resultado de suas próprias escolhas e que é exatamente neste ponto que ganha destaque uma característica ímpar que o diferencia do homem comum: o maçom tem que ter coragem para mudar aquilo que pode e deve ser mudado; tem que ter a humildade para aceitar aquilo que não pode e não deve ser mudado; e tem que ter a sabedoria necessária, para conseguir diferenciar uma situação da outra.

Contudo, ele não pode esquecer que há uma grande diferença entre a humildade (necessária para aceitar o que não pode e não deve ser mudado) e o comodismo, a preguiça e a inércia, que caracterizam aqueles que se limitam a aceitar, passivamente, o que lhe é imposto pelos outros.

A humildade, como paradoxo da natureza humana, eleva e destaca quem a possui, enquanto que o comodismo e a inércia rebaixam e diminuem aquele que não luta contra eles e sucumbe a seus encantos (como os marinheiros atraídos pelo canto e os encantos das sereias da mitologia).

Frise-se, por oportuno, que o homem, seja ele profano ou maçom, não pode acovardar-se e apequenar-se diante dos problemas que surgem no dia a dia.
Neste sentido, temos que lembrar que inúmeras pessoas são portadoras das mais diversas limitações: físicas ou psicológicas (por problemas de respiração, locomoção, visão, audição, perderam pernas, braços, órgãos internos) e, mesmo assim, não se entregam, porque não perdem suas integridades morais e se apresentam como pessoas hábeis em construir novas situações de sucesso, e nos servem como exemplos a serem seguidos, nas suas formas simples de viver.

William Shakespeare não teve condições de frequentar uma escola, e teve que aprender sozinho a ler e a escrever e, ainda assim, tornou-se o maior dramaturgo e poeta da língua inglesa de todos os tempos, sendo considerado, pelos estudiosos do idioma inglês, como o responsável pela identificação e estruturação do inglês como idioma.
Ludwig van Beethoven, um dos maiores compositores da música clássica mundial, compôs muitas de suas obras (inclusive aquela que é considerada sua obra prima “Sinfonia nº 9, em Ré menor”) quando já se encontrava, praticamente surdo, tendo quase toda a obra pós surdez, sido criada com o ouvido colado na madeira do piano, onde aprendera a diferenciar as vibrações das notas musicais.

Madre Teresa, com sua figura corporal débil e doente, mas com um espírito cheio de fibra e coragem, mudou a concepção mundial com relação ao trabalho de caridade, ao levar aos pobres, doentes e esquecidos de Calcutá, na Índia, o trabalho desenvolvido com a criação de escolas ao ar livre, centros para cegos, idosos, leprosos, aleijados e necessitados em geral.

Antonio Francisco Lisboa (o Aleijadinho) esculpiu suas mais belas obras de arte, nas pedras sabão mineiras, com o martelo e o cinzel amarrados em seus punhos, porque a zamparina (doença que ataca o sistema nervoso), aliado à hanseníase (lepra) já lhe haviam corroído os dedos e consideráveis partes das mãos.
Lorde Cavanaugh e Nick Vujicic são duas pessoas que nasceram com a rara síndrome de Tetra-amelia: ausência dos quatro membros (pernas e braços). Contudo, o primeiro tornou-se um importante membro do Parlamento inglês, após ser eleito sem contar com a ajuda financeira de ninguém (afora o voto de seus eleitores, por óbvio).

O segundo, Nick Vujicic, é um evangelista australiano e, atualmente, aos 31 anos, é considerado um dos maiores palestrantes motivacionais do planeta. Por sua condição física, teve uma vida cheia de dificuldades e privações e, por alguns anos de sua infância, cultivou um grande apreço pelo suicídio, como uma forma de livrar-se do pesado fardo de ser um deficiente físico. Todavia, já aos 17 anos de idade, fundou a “Life without limbs” (Vida sem membros), uma organização sem fins lucrativos, que busca levar palavras de esperança e fé em dias melhores, para milhões de pessoas em todo o planeta – sendo que suas palestras já foram ouvidas em mais de 44 países. Frise-se, que aos 21 anos de idade, concluiu dois cursos superiores: um de Contabilidade e outro de Planejamento Financeiro.

Stephen William Hawking é físico teórico e cosmólogo britânico, e um dos mais consagrados cientistas da atualidade, estando com 73 anos. Desde os 21 anos é portador de uma doença chamada esclerose lateral amiotrófica, que provoca a perda total do controle da musculatura, sendo que, há mais de 30 anos, ele está preso em uma cadeira de rodas, e só consegue movimentar um dos dedos da mão direita. Mesmo assim, tendo controle total de sua mente ocupou até 2009, a cadeira de Física que pertenceu a Sir Isaac Newton, na Universidade de Cambridge. Com a ajuda de um sintetizador de voz, consegue produzir palestras disputadíssimas, junto às plateias mais seletas do mundo científico, e ditar livros e artigos com suas revolucionárias e fascinantes teorias, nos campos da Cosmologia e da Física quântica (com maior ênfase na Mecânica quântica).

E nós, maçons, o que pretendemos fazer da nossa vida, sendo portadores de todas as felicidades com as quais a vida nos premiou e que nós, muitas vezes, sequer conseguimos enxergar? O que pretendemos fazer com nossos corpos perfeitos, com braços, pernas, olhos, ouvidos, órgãos internos que sofreram, apenas, o desgaste natural de nossas idades, mas que funcionam perfeitamente?

É claro que no nosso cotidiano vivemos, muitas vezes, situações desconfortáveis, desagradáveis, injustas, dolorosas, que nos obrigam a modificar nossa rotina, para que possamos nos adequar a tais situações e poder enfrentá-las. Todavia, muitas destas situações nos são impostas pelas circunstâncias da vida em sociedade, são resultado da forma como uma pessoa, ou outra, age com relação a nós, sendo que o reflexo da atitude dela atinge o conforto de nosso dia a dia. Da mesma forma, nossas ações também provocam reflexos nas vidas de outras pessoas.
Ninguém escapa desta lei social!

Contudo, a criação de situações adversas pode ser resultado, tão somente, de nossas próprias ações: como fruto da imutável lei da ação e da reação.
Tudo, no mundo cientificamente conhecido, sofre a influência desta lei. Tem-se a impressão, na verdade, que ela dita o ritmo dos acontecimentos. Assim, desde a explosão inicial que formou nosso Universo, ele continua se expandido, até o momento em que a energia dispendida alcance seu limite, neutralize-se e comece o indefectível movimento inverso, de contração, em velocidade cada vez maior, até que ocorra uma inevitável e imensa colisão, que provocará nova explosão, com a consequente nova expansão e tudo recomeçará.

Do mesmo modo, o coração dos seres vivos, com suas constantes sístoles e diástoles, bombeando o sangue para todas as partes do corpo, e recebendo-o de volta; a expansão e a contração dos pulmões, buscando efetuar, com maestria, a troca dos gases necessários à manutenção da vida; o ciclo das águas, que vão dos rios ao mar, voltando aos rios, por diversas formas, recomeçando sua corrida de volta ao mar.

Assim como na natureza, o que diferencia uma pessoa ativa de uma passiva é como ela reage a estas transformações físicas e sociais: se as utiliza para melhorar sua vida e a de outrem, ou se apenas procura não ser influenciado por tais mudanças.

O verdadeiro maçom, em hipótese alguma pode acomodar-se com as transformações sociais e fingir que não está sendo influenciado por elas. Não pode fugir do compromisso de assumir seu papel de personagem ativo e importante nas mudanças necessárias de seu país, seu estado, de sua cidade, seu bairro, da escola de seus filhos e, mais importante ainda, de seu núcleo familiar.

Como agente modificador da sociedade, o maçom deve estar sempre pronto para sofrer as dores que toda transformação acarreta, deve suportá-las dignamente, de forma a servir de exemplo para aqueles que lhe seguem os passos: a esposa, os filhos, os amigos, os parentes, os discípulos, etc. Ele não pode ter medo de passar por estas dificuldades, estas dores necessárias para seu próprio crescimento: como maçom e como homem.

Como as dores do parto são preliminares quase certas do nascimento de um novo ser, as dores sociais anunciam o alvorecer de uma nova forma de ver o mundo, de nascer para a luz, de aprender a conviver com esta luz, de forma a conduzir a sociedade para um amanhã mais feliz e mais fraterno.

Como verdadeiros maçons, temos que nos conscientizar que precisamos tirar a Maçonaria da apatia em que ela se encontra, e ajudá-la a se tornar um farol que indique o caminho para a nossa sociedade que se encontra doente, violentada, massacrada e sem rumo – sem líderes realmente comprometidos com o bem estar de todos.
A Maçonaria tem que agir socialmente; tem que cumprir seu valoroso papel secular; tem que respeitar sua história de ação e rejeitar a postura de passividade em que se encontra.

Como maçons, temos a obrigação de agir socialmente; e o medo de errar não nos pode impedir, porque é melhor errar tentando, do que morrer sem tentar acertar.
Não podemos esquecer a lição deixada por Sir Josiah Stamp, que foi presidente do Banco da Inglaterra, nos difíceis anos da década de 1920, ao dizer que “é fácil fugir de nossas responsabilidades, mas não podemos evitar as consequências de nossa irresponsabilidade”.

Nas palavras de Daniel de Carvalho Luz, em sua obra Insight 2 “pessoas sérias assumem responsabilidade, as outras, procuram culpados”.

Bibliografia:

• MUNIZ, André Otávio Assis. Novo Manual do Rito Moderno (Grau de Companheiro). 1ª edição.
• LUZ, Daniel Carvalho. Insight 2. São Paulo: DVS Editora Ltda., 2002.
• Ritual de companheiro maçom – Rito Moderno. Grande Oriente Paulista, 2005.

Sobre o Autor

ARLS Cavaleiros de Nostradamus n° 312 GOP/COMAB Oriente de Lins

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