A República, livro escrito pelo filósofo grego Platão,é uma obra que tem como tema central a Justiça. Está dividida em dez livros, todos em forma de di- álogo socrático, em que o autor desenvolve o tema sob os mais variados aspectos. No Livro II encon- tramos o “Mito do Anel de Giges” que conta como um pastor encontrou um anel com o poder mágico da invisibilidade, após uma tempestade e tremor de terra. Eis o mito:

Giges era um pastor que servia em casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitan- do através das quais viu lá dentro um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão. Arrancou-lho e saiu. Ora, como os pasto- res se tivessem reunido, da maneira habitual, a m de comunicarem ao rei, todos os meses, o que dizia respeito aos rebanhos, Giges foi lá também, com o seu anel. Estando ele, pois, sentado no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em di- reção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes fatos, experimentou, a ver se o anel tinha aque- le poder, e veri cou que, se voltasse o engaste para dentro tornava-se invisível; se o voltasse para fora, visível. Assim senhor de si, logo fez com que fosse um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegando, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o, e dessa maneira tomou o poder.

Platão nos esclarece através do “Mito do Anel de Giges” sobre natureza humana indisfarçavelmen- te violenta, gananciosa e submetida aos desejos de poder e aos apelos carnais, principalmente se acha protegida sob o manto da invisibilidade e, por con- seguinte, da absoluta certeza da impunidade. Que homem teria forças morais su cientes para resistir a essa tentação? Platão estende o debate sobre a Lei, que impõe o respeito à igualdade, obrigando os ho- mens a agirem com justiça, e explora também as ca- racterísticas humanas inatas e adquiridas. Desvendar a “natureza” do homem tem sido, ao longo dos sé- culos, objeto de estudo de grandes pensadores como Maquiavel, Thomas Hobbes, Rousseau, Sigmund Freud, dentre outros. Segundo Platão, ninguém é jus- to e íntegro voluntariamente. Quem pratica a justiça, o faz por obrigação, por medo, covardia ou por sentir-se impotente para deixar a orar sua ambição ou, então, por temer a ação dos agentes da Justiça. O sentimento de justiça não é natural no homem e para reforçar a ideia, Platão assevera:
Se, portanto, houvesse dois anéis como este, e o homem justo pusesse um, e o injusto outro, não haveria ninguém, ao que parece, tão inaba- lável que permanecesse no caminho da justiça, e que fosse capaz de se abster dos bens alheios e de não lhes tocar, sendo-lhe dado tirar à von- tade o que quisesse do mercado, entrar nas casas e unir-se a quem lhe apetecesse, matar ou libertar das algemas a quem lhe aprouvesse, e fazer tudo o mais entre os homens, como se fosse igual aos deuses.

Talvez por conta da natureza humana egocêntri- ca e por não termos autossu ciência é que surgiram as leis, os contratos e as convenções, para inibir a tendência a privilegiar os próprios interesses em de- trimento da coletividade. Se, por suposição, alguma pessoa tivesse o poder da invisibilidade e soubesse, de antemão, que não lhe seria imputada qualquer pe- nalidade, com certeza agiria conforme os interesses pessoais e daria vazão aos instintos e desejos mais inconfessáveis.

Mas se a Justiça não está em nossa natureza, o que faz com que a busquemos? Por que a Maçonaria nos ensina e incita-nos a sermos Justos e Perfeitos? Pro- vavelmente a resposta esteja na acumulação de ex- periência e do conhecimento do que aconteceu com a vida de homens que sempre agiram com injustiça, e que ndaram as suas existências colhendo os fru- tos amargos da própria semeadura. Sob essa visão, Platão atribui a Sócrates, em A República, a tarefa de mostrar que “a justiça é mais vantajosa do que a injustiça e, em si mesma, o maior dos bens”. Sócrates desconstrói, um a um, o pensamento dos seus interlo- cutores acerca do que é Justiça e conclui com admi- rável habilidade que “justiça é virtude e sabedoria e a injustiça, maldade e ignorância”.

A Maçonaria é uma Escola de Conhecimentos. A graduação dos seus ensinamentos é uma excelente didática, encadeando lições aprendidas ao longo do tempo, que nos possibilita a oportunidade de estudar e refletir sobre tais ensinos para a construção do nos- so Templo Interior. É uma tarefa árdua que exige-nos paciência, perseverança e humildade. É trabalho de uma vida inteira e que não se encerra com a passa- gem para o Oriente Eterno. São lições imorredouras que nos acompanharão pelas existências no porvir.

Voltemos, pois, ao tema da invisibilidade e deixe- mos em modo de espera os conceitos de Justiça, por serem tão amplos e que suscitariam discussões ines- gotáveis. Tratemos da invisibilidade, hodiernamente, e que é uma realidade em nossas Lojas, na gura do Mestre Invisível. Até onde vai o nosso conhecimento, esse termo não existe para denominar a categoria do maçom, nem nos Graus Simbólicos, tampouco nos Graus Filosó cos e Graus posteriores. É uma alegoria que criamos para representar o maçom que não tem compromisso com a Ordem e que, por egocentrismo, se interessa unicamente por aquilo que diz respeito a si próprio; aquele que em nada colabora com a Loja a qual pertence. O Mestre Invisível não tem frequência regular e comparece somente às Sessões Magnas fes- tivas, se autoridades maçônicas estiverem presentes; não se manifesta em Loja para contribuir com alguma ideia, ação ou projeto de interesse da Ordem em geral e do quadro, em particular; no giro do Tronco de So- lidariedade, com a mão direita vazia, simula deposi- tar o óbolo, e quando o faz deposita a menor quantia; o Mestre Invisível não socorre o Irmão necessitado de ajuda seja material, seja espiritual; nunca aparece nas visitas programadas a um Irmão enfermo; não es- tuda o Ritual nem as leis maçônicas mas quer impor a sua opinião pessoal e de como ele “acha” que deve ser a Maçonaria; O Mestre Invisível trama na surdina contra Irmãos que considera desafetos, espalhando a injúria e a difamação com ardilosidade, tornando quase impossível a tarefa de imputar-lhe a autoria das infâmias; é um arquiteto de vaidades e projeta com meticulosos cálculos as ações que irão bene ciá-lo e exaltá-lo perante a Maçonaria e usa para os ns pla- nejados, os Irmãos de boa-fé. Este profano de avental entrou na Maçonaria mas nunca permitiu que a Maçonaria entrasse em seu espírito, para operar as mudanças éticas de que é tão necessitado. O Mestre Invisível é um indigente moral.

Entretanto, graças ao G∴A∴D∴U∴ que os Mes- tres Invisíveis são pouquíssimos em nossa Ordem e representam uma parcela ín ma na Grande Família Maçônica Universal. São uma exceção, não a regra. Por mecanismos misteriosos, insondáveis desígnios e reagindo com e ciente sentido de autopreservação, a Maçonaria sempre encontra um meio de afastar os Mestres Invisíveis da saudável convivência entre os verdadeiros maçons. Quantos de nós não o conhece- mos e depois soubemos de seu afastamento de nitivo do nosso meio? Quantos já não foram relegados ao perpétuo esquecimento?

O mistério da Iniciação é iniciar o dia sabendo-se melhor do que no dia anterior. É descobrir que muito do que aprendemos como simbólico pode se tornar concreto. É adquirir a certeza de que ser Justo é o que nos encaminha à Perfeição. É trabalhar sem descanso erguendo templos às virtudes e cavando masmorras aos vícios.
Ao trabalho, Irmãos!

Temos o Esquadro, o Compasso e demais ferra- mentas para a execução da tarefa. Temos a paz, a har- monia e a concórdia como tríplices argamassas com que se ligam as nossas obras e sob a égide Divina, não sucumbiremos aos insistentes apelos do ego.
Somos Mestres Maçons, visíveis, em pé e à ordem para servir com Justiça e Perfeição.

Referências:
– https://pt.wikipedia.org/wiki/Anel_de_Gyges
– http://cartaforense.com.br/conteudo/colunas/platao—o-mito-do-anel-de- -giges/13766.
– http://www.ebah.com.br/content/ABAAAfE1IAJ/anel-giges.

Sobre o Autor

ARLS Caridade II nº 0135 GOB/PI Oriente de Teresina

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