“Geralmente me arrependo do que disse e não do que deixei de dizer”
“Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até à morte o vosso direito de dizê-las”

As mais recentes pesquisas arqueológicas indicam que a palavra, na sua forma escrita, começou a ser usada pelos sumérios e pelos egípcios, por volta de 5.500 anos a.C., como um processo de desenvolvimento histórico paralelo das escritas cuneiforme e hieroglífica, utilizadas por aqueles dois importantes povos.

Caso os pesquisadores modernos consigam comprovar que onze caracteres que foram impressos em um casco de tartaruga, encontrado na China, representam sinais que podem ser interpretados como uma palavra, o momento histórico da origem da escrita retroagirá para algo em torno de 8.100 a.C..

Perde-se nas brumas do tempo o momento em que o grunido gutural emitido por um dos hominídeos, que morava no interior de uma caverna, passou a ter algum sentido, na rudimentar comunicação deste para com os seus companheiros de bando.
Esclarecemos, contudo, que esta peça de arquitetura não se presta a traçar uma progressão histórica do uso da PALAVRA desde as cavernas até os dias de hoje mas, sim, para apresentar nossa humilde opinião sobre a importância do uso da PALAVRA nas nossas manifestações pessoais, em nossas diversas inter-relações profanas ou maçônicas.

A palavra tem poder! A palavra tem MUITO poder! Por isso, devemos ter muito cuidado com o que falamos para as pessoas, porque podemos machucá-las, podemos pisar sobre elas, podemos tripudiá-las, apenas com o uso de palavras inadequadas, ríspidas ou inconsequentes.

A arte de falar bem, da boa oratória, pode ser utilizada tanto para construir um amanhã mais feliz, quanto para destruir o que existe hoje.
Foi por causa do domínio do uso da palavra que Adolf Hitler conseguiu transmitir uma mensagem capaz de obliterar o pensamento racional e dominar o inconsciente coletivo de toda uma Alemanha, levando-a a uma guerra sem precedentes e das mais atrozes já registradas na História da humanidade.

É por causa do poder da palavra que, neste exato momento, em alguns lugares do planeta, muitos ditadores estão levando suas nações às guerras e provocando a morte de seus irmãos, em hediondos massacres.
É por causa do poder da oratória e, principalmente, pela manipulação das palavras contidas em seus “livros sagrados”, que líderes religiosos radicais conseguem promover carnificinas em todos os cantos do planeta, e levar centenas de homens, mulheres e crianças a se explodirem, matando outras centenas, em nome da fé que professam e alegando ser esta a vontade do Deus em que creem.

Todas as religiões tem como princípio basilar o uso da palavra: tanto para a conversão dos infiéis, quanto para a manutenção de seu quadro de fiéis, como para a propagação e defesa de sua fé. Neste sentido, as religiões podem inebriar e entorpecer as mentes, alienando-as da realidade, mas podem, por outro lado, apaziguar corações sofridos e desesperançosos … só depende do uso que se dê às palavras.
Tanto assim o é, que por conta deste mesmo poder da palavra, líderes espirituais da estirpe de Dalai Lama conseguem propagar a paz; conseguem levar muitos de seus ouvintes a encontrar sua própria paz interior e pacificar suas relações com aqueles que lhe são opositores.

Por corromper o poder da PALAVRA é que a credibilidade de muitas Igrejas tem caído vertiginosamente, principalmente nos últimos cem anos, pelo simples fato de que a maioria esmagadora de seus padres ou pastores vive e respira em uma opulência e riqueza patrimoniais exageradamente distante da vida de fé humilde e sincera que, usando e abusando da PALAVRA, pregam e exigem do povo simples, sofrido e crédulo, que busca o conforto espiritual em seus templos.
Em situação diametralmente oposta, onde suas palavras de amor foram acompanhadas por seus exemplos de vida, pessoas relativamente simples, como Chico Xavier, Madre Teresa de Calcutá, Mahatma Gandhi, Martin Luther King, Nelson Mandela, dentre outros, sobeviverão ao futuro, e suas mensagens de amor e paz não serão esquecidas pela humanidade.

Por conta do poder da palavra, é que um jovem carpinteiro galileu, chamado Jesus, é reverenciado, amado e idolatrado há mais de dois mil anos.
A palavra penetra fundo no espírito do ouvinte, de tal forma, que pode machucar, pode destruir, mas pode, também, curar, pode construir! Temos que ter consciência disto, porque desde o momento em que aprendemos a articular nossas primeiras palavras, nós começamos, consciente ou inconscientemente, a influenciar todos aqueles que nos cercam: para o bem, ou para o mal.
Esta é a velha dicotomia que caracteriza a espécie humana e a diferencia dos outros seres do reino animal, pois que este, a despeito de ter feras mortais, que podem representar perigo, não tem, em si mesmo, a maldade consciente que pode existir no ser humano.

Precisamos, voltamos a repetir, ter muito cuidado com nossas palavras! Pois podemos estar elevando o espírito de nosso ouvinte a píncaros de glória e promovendo uma paz interior que poderá aproximá-lo dos seres divinos nos quais ele crê; mas podemos, por outro lado, lançá-lo no mais fundo do poço, cobri-lo com a lama de nosso desprezo ou, pior ainda, fazê-lo acreditar que ele é o que de pior a espécie humana pode produzir.
Não esqueçamos, nunca, que nossas palavras nos tornam responsáveis por aquilo que elas produzem: o bem ou o mal. A maneira como falamos as coisas, como nos expressamos, é muito mais importante do que podemos avaliar, antes mesmo de falarmos.

E quantas oportunidades de ficar calado nós perdemos! Quantas tragédias poderiam ser evitadas; quantos problemas poderiam ser resolvidos; quantas amizades poderiam, ainda, ser mantidas; quantos casamentos poderiam ter subsistido às desavenças e às dificuldades financeiras ou amorosas…se nós pensássemos um pouco mais nas consequências nefastas daquilo que acabamos falando, por achar que somos os “donos da verdade”.

Toda verdade é verdadeira! Mas não existe uma verdade única – ela depende do lado do prisma que está sendo visto por aquele que o observa.
Tomemos nós mesmos como exemplo: quem disse que a imagem que vemos no espelho, todos os dias, pela manhã, é a mesma que é vista por nossa esposa e filhos? Eles nos vêem de forma tridimensional, enquanto nós só vemos um tímido reflexo plano, muito diferente do que, realmente, somos.
Podemos citar, ainda, o exemplo dos Tribunais, onde cada uma das partes envolvidas no litígio tem uma verdade; e esta é o contrário da verdade da outra. E o juiz, ao decidir, muitas vezes, conclui por uma terceira verdade.

Pensemos nas consequências das palavras, ANTES de falar! Respiremos! Pensemos novamente! Porque aquele que fala tudo o que pensa, no mais das vezes, não pensa nas consequências de tudo o que fala e, quando o faz, tem grande chance de arrepender-se, por não ter guardado o silêncio apropriado sobre muitas das palavras proferidas.

Daniel de Carvalho Luz, um autor estudioso e coletor das palavras proferidas, nas mais diversas formas de mensagens encontradas pelo mundo, em seu livro Insight 2, nos lembra que palavras sinceras de apoio e elogio funcionam como “interruptores de luz. Quando as ouvimos, surge uma gama de possibilidades quanto ao que podemos fazer e ao que podemos vir a ser”.
Neste sentido, nós podemos produzir, naquele que nos ouve, anos e anos de calor humano e de felicidade ou envolvê-lo com nossa “gélida indiferença”, através do interruptor de nossos pequenos comentários, de nossas palavras de elogios, de nossas críticas (construtivas ou destrutivas). Este pequeno interruptor está em nossas mãos e, como uma bomba de efeito avassalador, poderá promover a edificação ou a destruição da autoestima de nosso ouvinte.

Este cuidado com as palavras também é muito importante na nossa vida maçônica, pois a PALAVRA é um dos instrumentos mais utilizados, dentro e fora das Lojas, em suas mais diversas formas (escrita, falada, pensada, simbolizada).
Neste sentido, a Palavra, na Maçonaria, atravessou os séculos e permaneceu, até hoje, como o grande segredo maçônico. E são muitas aquelas que são chamadas PALAVRAS MAÇÔNICAS no sentido literal. O Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia, de Nicola Aslan, por exemplo, elenca quinze que mereceram a atenção daquele autor. Para este trabalho, limitar-nos-emos a analisar três delas, dada a indiscutível importância das mesmas: a DE PASSE, a SAGRADA e a SEMESTRAL.

A palavra DE PASSE é aquela que permite o ingresso do obreiro em uma Loja, sendo utilizada como meio de reconhecimento da condição de Iniciado daquele que a profere, e será solicitada pelo Guarda do Templo, ou pelo Telhador, conforme o Rito e o momento da ritualística. É a palavra que se pronuncia ao dar-se os toques e os sinais em todos os Graus.
A palavra SAGRADA, por sua vez, é aquela que identifica o Grau do obreiro; é aquela pela qual é possível, a um maçom, reconhecer a que Grau pertence aquele que se apresenta como Irmão. Ela deve ser dita baixinho, ao ouvido, como num sopro e com muita precaução.

Já a palavra SEMESTRAL é aquela que se destina a comprovar a regularidade e a frequência do maçom nos trabalhos da Fraternidade, sendo transmitida a cada seis meses, através da Cadeia da União. Assim, se o obreiro não conhece a palavra do semestre em curso, nem a do anterior, é porque não frequenta uma Loja há mais de seis meses e sua situação, portanto, é de irregularidade.
O glossário maçônico é muito extenso, e cabe a cada um, na caminhada de seu aprendizado pessoal, estudar, aprender e apreender o verdadeiro significado simbólico de cada PALAVRA.
Sobre o uso da PALAVRA, não podemos esquecer, também, que a todos os Irmãos é dada a opotunidade de manifestar suas opiniões sobre os mais diversos assuntos do seu Grau, seja por palavras orais ou escritas. E isto ocorre, em Loja, através da Palavra ao bem da Ordem. Por sua natureza voluntária e pessoal, creio que a Palavra ao bem da Ordem guarda, em si mesma, o que há de mais fascinante nos trabalhos maçônicos: a efetiva participação do maçom, na construção diária de sua própria Loja.

É através desta participação dinâmica que se desenvolve a verdadeira construção da Obra Universal, à qual somos convocados a participar, na condição de Pedreiros Livres. É através do uso desta PALAVRA que apresentamos nossa opinião sobre os mais diversos assuntos para serem debatidos em Loja; ouvimos a opinião dos demais irmãos; e somos levados ao efetivo debate construtivo sobre a matéria de nosso interessante.

A apresentação de nossas teses permite a elaboração das necessárias e salutares antiteses (ou antíteses), para que possamos alcançar, juntos, uma síntese de todo o assunto debatido. Por sua vez, esta síntese nada mais é do que uma nova tese – que possibilitará pôr em andamento, novamente, todo o processo dialético (com novas antiteses e novas sínteses), em um processo cíclico constante de evolução, de aprendizado, de enriquecimento cultural coletivo – promovendo, ao final, o fortalecimento da egrégora e nosso crescimento espiritual como Família.

Necessário se faz ressaltar, meus Irmãos, que o uso da PALAVRA é de tal forma sagrado e essencial, que em todos os Ritos, mesmo que os Vigilantes não a concedam a um Obreiro, este, sentindo-se prejudicado, qualquer que seja a Coluna onde se encontre, poderá postar-se “entre colunas”, de forma que possa solicitar a PALAVRA diretamente ao Venerável Mestre (ou àquele que, por alguma circunstância legal, está a presidir os trabalhos), sendo que esta só lhe poderá ser cassada (e apenas por aquela autoridade), caso este Irmão aja com falta do decoro exigido pela Lei Maçônica, de forma expressa.

Sendo, pois, o uso da PALAVRA por parte de qualquer Irmão, um preceito fundamental, é necessário que este a use com a absoluta observância da Verdade e da Justiça.
Meus queridos IIrm∴, MM∴, CC∴ e Apr∴, no Rito Moderno, onde impera, altaneira, a LIBERDADE absoluta de consciência, é necessário que todos nós, ao fazermos uso da PALAVRA tenhamos em mente, sempre, que este “império” da liberdade de consciência está limitado pelo sagrado respeito aos direitos morais individuais e coletivo daqueles que nos ouvem, eis que eles tem todo o direito de discordar, duvidar ou rejeitar aqueles preceitos íntimos, que nós temos como verdades pessoais inquestionáveis.

Neste sentido, a IGUALDADE, tanto exaltada em nosso lema, deve estar sempre presente em nossos pensamentos, de forma que nossas palavras só sejam pronunciadas após a análise de sua necessária conveniência para a manutenção da integridade da FRATERNIDADE que deve imperar em nossas Lojas.

Bibliografia<

– CASTELLANI, José. Cartilha do Aprendiz. 1ª edição. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha” Ltda., 1992.
– CASTELLANI, José e COSTA, Frederico Guilherme. Manual do Rito Moderno – Grau de aprendiz 1ª edição. São Paulo: Editora A Gazeta Maçônica, 1991.
– MUNIZ, André Otávio Assis. Novo Manual do Rito Moderno (Grau de Aprendiz). 1ª edição.
– LUZ, Daniel Carvalho. Insight 2. São Paulo: DVS Editora Ltda., 2002.
– ASLAN, Nicola. Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia. 3ª edição. Londrina: Editora Maçônica “A Trolha” Ltda., 2012.

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