O que vos passo a narrar agora meus Irmãos.
Podes parecer insanidade.
Mas acredites, aconteceu comigo.
E é a mais pura verdade.

Estava eu, no leito em sono profundo
Quando no lapso
Menor que um segundo
Já estava noutro mundo.

Sabia apenas que estava a trajar
A indumentária de Aprendiz.
E estava parado, por alguém a esperar
Que não custou nada a chegar.

Chegou discreto e com moderação,
Estendeu-me a destra
Não refutei e a minha também estendi.
Foi então que percebi.
Estava diante de um Maçom.

Fiquei feliz, estava com um Irmão.
Foi então que me revelou
Aqui estais de passagem.
Vindes apenas compreender.
A Câmara de Reflexão.

E antes que pudesse inquirir
Foi-me dito, quedar-se silente.
És Aprendiz e deveis ouvir
Deveis ser paciente.

Sem maiores conjecturas
Disse-me ainda.
De tudo que aprenderes aqui.
Devereis transcrever uma Peça de Arquitetura


VISITANDO O ORIENTE ETERNO

Os versos lidos servem como um preparo para o que tenho a expor.

Tudo aconteceu na noite que sucedeu minha iniciação, como já mencionei, minha alma fora conduzida para o plano espiritual.

Após ter sido minha alma arrebatada do corpo físico, enquanto este recuperava suas forças, após um dia muito intenso onde eu fora iniciado maçom e após uma grande festiva, onde se comemorou esta conquista, fui, ou melhor, minha alma foi colocada trajando indumentária de aprendiz maçom, defronte a um Templo Maçônico.

Veio até mim um Senhor, não sei dizer quem, mas soube tratar-se de um Maçom, e disse:
“Olhe à sua frente e veja que beleza de Construção, tem três lances de escadas, sendo um ao norte, outro ao sul e o último conduzindo ao Oriente. Não se descuide, temos ainda um pé de acácia e outro de romã”.

Dito isto, entramos no prédio, recebi a determinação para aguardar e rapidamente notei a presença de inúmeros Irmãos, que surgiram em espectro, todos revestidos com suas insígnias, me saudando e transmitindo um sentimento de paz e harmonia. O estranho é que nenhuma palavra me era dita. Como se lesse meus pensamentos, de relance passou um Senhor todo trajado com faixa e avental, percebia-se estar mais “enfeitado” que os demais e quase sussurrando disse: “… é assim mesmo, é em silêncio e em reflexão que se forma a Egrégora…”.

Aquele Irmão que me recebera, organizou todos os demais e nos conduziu para um outro recinto, um pouco menor, passou por mim um Aprendiz, me chamando disse: “… venha comigo, vamos formar duas filas aqui no Átrio…”

E aproveitando da mesma condição de Aprendiz, busquei uma conversação com aquele também Aprendiz, tomado por uma forte curiosidade já questionei, qual seu nome e qual o nome daquele Irmão, apontando em direção, aquele que me recebera na área externa.

Com um olhar complacente, aquele Aprendiz me respondeu: ”… Aqui somos eternas luzes, não temos nomes, temos apenas o compromisso de seguirmos nossa doutrina e o Irmão que se refere é o Irmão Mestre de Cerimônia, agora olhe, ouça e aprenda…”

Já era a terceira vez que discretamente me mandaram ficar de boca fechada, então assim o fiz.

O Mestre de Cerimônia, de posse de seu instrumento de trabalho, olhou como quem procurasse algo, parou, dizendo: “…atenção Meus Irmãos, os Irmãos que ocupais a Coluna do Norte ficais à minha direita e os que ocupais a Coluna do Sul ficais à minha esquerda…”, feito isto virou-se para uma porta de “duas faces”, fazendo algo que deveria ser um código e de pronto a porta se abriu, e vi que para dentro do Templo tinha outro Irmão, era o Cobridor Interno, sei porque alguém me sussurrou e ao fundo ouvia-se uma música que transmitia uma enorme paz, era Obra do Mestre de Harmonia, também me disseram por sussurro.

Eu já estava entrando quando o Mestre de Cerimônia pediu para eu esperar no Átrio, que no momento certo eu seria chamado, então lá eu fiquei, não estava só, comigo ficou um tal de Cobridor Externo, e por ali fiquei contemplando duas Colunas, a da minha esquerda tinha grafada a letra “B” e a da direita a letra “J” de comum ambas traziam três romãs dispostas em seu topo, fiquei intrigado, porém, calado, mas vos digo, se uma decorava, a outra abrilhantava.

Não sei se demorou muito, pois noção de tempo não tinha, sentia maravilhosa sensação, indescritível.

Então antes que eu esperasse, abriu-se a porta novamente, de lá saindo um Irmão, me fazendo assinar um Livro, depois fiquei sabendo tratar-se do Irmão 2º Experto. Em seguida, saiu o Mestre de Cerimônia me dando algumas instruções, e dizendo: “…entrareis com formalidade e ficareis entre Colunas…”, já instruído assim o fiz.

Estando entre Colunas, que verdade seja dita, coluna não havia naquele lugar, fui sabatinado, ou como disse o Mestre, passei pelo Telhamento.

Após o tal “telhamento”, o Venerável Mestre deu ordem para que permanecesse “entre colunas”, me ladeando ficou o Mestre de Cerimônia, em seguida o Venerável Mestre passou a palavra ao Orador, tudo com muita seriedade e rigor ritualístico e percebia-se todos compenetrados.

O Orador então procedeu a um gesto de respeito e com certeza de ritualística, referindo-se apenas a três dos presentes, e de modo coletivo a um pequeno grupo, em seguida à grande maioria, não entendi, deveria ser a hierárquica que cada lugar ocupado e cada indumentária trazia.

De pronto percebi porque o tal era Orador, falava com clareza e com enorme conhecimento, trazia uma carga de vida, parecendo ser mais que um Orador, parecia ser um oráculo, e assim começou seu discurso, olhando diretamente em meus olhos.

“Irmão, não vos digo o nome, porque já sabes, aqui somos eternas luzes, neste momento estamos a quebrar a ritualística, com o fito de esclarecer a este coração de neófito que pulsas em vosso peito.”

“Aqui nesta Loja Justa e Perfeita, somente Irmãos que vieram para o Oriente Eterno tem lugar, aqui estamos de fato e de direito despojados de todo a ranço da matéria.”

“Quando, cada qual de nós, estivemos atados aos limites da matéria, procurávamos um meio de evoluir nosso espírito, o espírito maçom, olhais em vossa volta e vereis a enorme quantidade de maçons que galgaram este intento.”

“Na data de ontem, todos que aqui estão, presenciaram vossa iniciação, cerimônia magnífica, uma ritualística impecável. Obviamente nossa presença não fora notada, mas sempre estamos presentes”.

“De pronto em verdade vos digo, Maçonaria não é só festa, pelo contrário, Maçonaria é Trabalho, então a partir de agora ouça, e perceba a que vem um Maçom”.

“No inicio recebeu o aviso que vindes entre nós para compreender a Câmara de Reflexão, pois bem, se queres bem empregar a tua vida pensa na morte.”

“Pensar, praticar, ser Maçom, nos momentos de festejo é muito fácil, o difícil, o doloroso, o que faz muitos iniciados sucumbirem, é o momento em que a Maçonaria pede para sermos Maçons.”

“Você, Irmão, que estás entre Colunas, olhe para o chão, olhe para o céu, como maçom aprenda este gesto simbólico. Devereis olhar sempre para baixo, para o chão, pois abaixo de ti estão aqueles que precisam de ajuda, a quem não devereis negar o amparo. Devereis olhar para cima, para o Céu porque é lá que habita o Supremo, o Grande Arquiteto do Universo, e quando pedires algo é para lá que voltará seu olhar, para a casa do Altíssimo.”

“A Maçonaria lhe oferece um sem fim de símbolos, todos voltados a moldar seu caráter, sua personalidade, e se souberes usar cada qual com sabedoria, serás um alquimista do seu Ser.”

E modificando o tom de voz, passando para o imperativo disse: “…Se tens receio de que se descubram os teus defeitos, não estarás bem entre nós..” Fiquei sem saber o que dizer, então fiquei em silêncio. Recobrando o tom de voz inicial o Orador pergunta: “…já lestes algo parecido?…” E antes que pudesse responder, ele concluiu: “…sim, já leu sim, na Câmara de Reflexão…”.

“Leu também, …se és apegado às distinções mundanas, retira-te; nós aqui, não as conhecemos. …se fores dissimulado, serás descoberto. …se tens medo, não vás adiante.” Fiquei intrigado, pois as frases estavam vivas em minha mente, e aquele sábio homem pulara uma delas, justo a primeira, porém, não disse nada, devia ter
um propósito.

O Orador então novamente seguiu com o discurso “…Irmão, foras trazido entre nós para provar deste sentimento que une todos os Irmãos pelo Mundo, e Mundo entendas todos os Mundos, sua vinda até nós tem a intenção de estimular seu anseio pela pesquisa e aprendizagem maçônica, algo que todo Aprendiz deveria ter.”

Dito isto, o Orador comentou cada qual dos símbolos ali presentes, o Mestre de Cerimônia a mim ia indicando, de modo que eu pudesse associar a imagem ao significado.

A Maçonaria lhe oferece um sem fim de símbolos, todos voltados a moldar seu caráter, sua personalidade,
e se souberes usar cada qual com sabedoria, serás um alquimista do seu Ser

Tudo era muito lindo e ao mesmo tempo complexo. O Orador falou de tudo, começou pelo pavimento mosaico indo findar na Abóbada Celeste.

Mas, de todos os símbolos demonstrados a mim, um em especial sinto que fica prejudicado, fica esquecido, quase imperceptível, inclusive foi difícil ser mostrado, fica lá no rodapé, por trás das cadeiras, é a ORLA DENTADA.

Então o Orador olhou para o Venerável Mestre devolvendo-lhe a palavra. Este, ordenou ao Mestre de Cerimônia que me conduzisse até a balaustrada, não pude seguir em frente, lá fica o oriente, e por lá só caminha quem já teve sua história exaltada.

Chegando bem próximo o Venerável Mestre, quase que por um cochicho, dito sílaba por sílaba, ao pé do ouvido, me revelou um segredo, me afastou com o malhete, dizendo “…levas consigo o que te digo, saberás quando usar, vá, conclua tua marcha, já é hora de acordar…”

De fato acordei, mas acordei em meu quarto, não sabia ao certo o que esteve a acontecer, segurava meu ritual, e na mente a mensagem recebida ressoava, sinto em não poder revelá-la, pois o ritual que portava, estava aberto na página a Câmara de Reflexão, e grafado em destaque estava justo a lição que faltara nos dizeres daquele Orador…se a curiosidade aqui te conduz, retira-te.

Diante disto, me dá um arrepio cada vez que ouço nosso Orador concluir seus dizeres afirmando “…nossos trabalhos foram justos e perfeitos…”, como perfeito e justo foi meu sonho, nada faltou.

Dito isto Venerável,
Encerro meu compromisso
Para não ser cobrado
Por Irmãos que estão lá do outro lado.
Peço desculpas aos Irmãos
Que aqui tiveram que ouvir
Peço ainda a compreensão
De não perguntar se és verdade
Ou se és invenção.

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