1. INTRODUÇÃO

Este trabalho tem por desiderato tecer uma sucinta explanação concernente ao Telhamento no Grau Aprendiz Maçom, no Rito Escocês Antigo e Aceito, inicialmente traçando um paralelo entre suas diferenças com o termo “Trolhamento”, e posteriormente, discorrendo sobre cada pergunta e sua respectiva resposta, clarificando de forma objetiva seus significados, no âmbito do referido Grau.

A priori, temos o Telhamento como um instrumento de exame, que auxilia os integrantes de toda Loja visitada, a verificar se o visitante é um bom, legítimo e fiel Irmão. No entanto, se observarmos atentamente, oculto nas palavras de verificação da qualidade de ser Maçom, descobrirmos que no Telhamento há muitos conhecimentos que vão além de simples frases de um questionário seletivo e que poderão auxiliar muito o Aprendiz no trabalho de “vencer suas paixões, submeter sua vontade e fazer novos progressos na Maçonaria”, concorrendo e colaborando para a Construção Moral da Humanidade – a Verdadeira Obra da Maçonaria.


2. TELHAMENTO E TROLHAMENTO

Inicialmente cumpre esclarecer que as palavras TELHAR e TROLHAR, possuem no âmbito da Maçonaria, significados completamente diferentes, todavia, em inúmeras ocasiões são empregadas de forma que uma substitui a outra, como se tivessem o mesmo sentido.
Nos Dicionários, temos que o substantivo “trolha” é definido como uma “colher de pedreiro”, que é usada para colocar e/ou alisar a argamassa que está sendo usada, cobrindo irregularidades e fazendo com que o edifício construído fique como se fosse formado por um único bloco; ao passo que o substantivo “telha” é definido como peça, geralmente de barro cozido, usada na cobertura de edifícios. Origina do latim: “tegula”, daí “telha” em português. Apesar de existir a palavra “telhador”, utilizou-se o termo “cobridor”, como sendo aquele que coloca telha, cobre, oculta e protege uma área de um edifício.
Entretanto, na Maçonaria, os verbos derivados dessas duas palavras têm seus próprios significados, quais sejam:

Trolhar: é esquecer as injúrias e as desavenças entre os Irmãos, perdoando-se um agravo e reforçando os sentimentos de fraternidade e de bondade que unem a família maçônica, para que não haja quaisquer asperezas ou rugosidades entre seus membros. Se isso ocorre em uma Loja, o Venerável Mestre deve se inteirar do que está ocorrendo e “trolhar” os envolvidos.

Telhar: é verificar, através de perguntas, se uma pessoa é realmente Maçom e se está no Grau requerido. Visitantes são “telhados” pelo Cobridor, com essa finalidade. Cobrir o Templo é protegê-lo de tal forma que, pessoas que estão fora não saibam o que está ocorrendo dentro dele.

3. O TELHAMENTO NO GRAU APRENDIZ MAÇOM

Consoante descrito no Ritual, o Telhamento é executado no interior da Loja, depois que o 2º Experto tenha verificado a existência de visitantes na Sala dos Passos Perdidos, convidados a assinarem o Livro de Presença e apresentarem seus títulos, que são levados ao Orador para conferência. Depois de autorizado pelo Venerável, o irmão visitante entra no Templo devidamente acompanhado pelo Mestre de Cerimônias, lembrando que deve entrar na forma ritualística, passos e sinais do grau, saudação e fica a Ordem entre colunas. A partir daí, seguindo o Ritual, o Venerável procede ao Telhamento, passando a realizar as perguntas ao visitante devendo, este as responder.

3.1. PRIMEIRA PERGUNTA

Através da resposta verifica-se que um Maçom reconhece outro através de Sinais, Toques e Palavras, que por sua vez são diferentes para cada Grau, somente entendido e reconhecido pelos Iniciados em cada um deles. No Grau Aprendiz Maçom os Sinais usuais são o Sinal de Ordem e a Saudação Maçônica; como Toques: -podemos destacar o aperto de mão maçônico; e em relação às Palavras temos a Palavra Sagrada (onde no Grau Aprendiz deve apenas ser soletrada). Ressalte-se que não há Palavra de Passe neste Grau.

3.2. SEGUNDA PERGUNTA

Depreende-se através da resposta que Loja se define como “reunião ou agrupamento”, para a Maçonaria significa a reunião de seus integrantes, ou seja, seu grupo formando um Quadro de Obreiros. A referência a São João se dá em razão de que este é o padroeiro da Maçonaria. Por sua vez, para uma Loja ser considerada “Justa e Perfeita” é necessário que Três Irmãos a Dirijam, Cinco a Iluminem e Sete a tornem, Justa e Perfeita.

Os Três Irmãos para dirigir a Loja são o Venerável Mestre e os 1º e 2º Vigilantes, aos quais estão diretamente vinculados os Três Grandes Pilares: Sabedoria, Força e Beleza. A estas Três Luzes da Loja acrescentem-se o Orador e o Secretário, que se constituem nos Irmãos representantes, respectivamente, Da Lei ou Tradição Maçônica, e da Memória da Loja. Os dois últimos integrantes restantes, que resultarão nos Sete Necessários serão o Mestre de Cerimônias e o Cobridor, cujas atribuições desses cargos incluem papel importante de guias dos integrantes durante os Cerimoniais de Iniciação, Elevação e Exaltação.

Assim sendo, se fazem necessários Sete Irmãos, no mínimo, para que os Trabalhos se tornem também, tal como na Loja, onde se cumprem Justos e Perfeitos, e para que seja possível a esplendorosa transmissão da influência espiritual do G∴A∴D∴U∴.

3.3. TERCEIRA PERGUNTA

Com a devida resposta, o visitante se coloca diante de seus Irmãos visitados em atitude de companheirismo, de amigo fiel e prestativo, virtudes estas com as quais estes Irmãos podem contar em quaisquer circunstâncias.

Faz-se importante ressaltar também, que a partir desta resposta tem-se início, no Telhamento, a menção à Tríade, ou seja, ao número 3, que para a Maçonaria é atribuída, a trindade de Deus: o pensamento, o amor e a ação, que tratam da unificação entre antagonias e o equilíbrio perfeito. O 3 é o primeiro número perfeito e completo em energia, pois observado o primitivismo do 1 somado ao antagonismo do 2, é gerado o equilíbrio, a expressão do absoluto.

Na Maçonaria são infindáveis os atributos relacionados à Tríade, como por exemplo, é composta pelos Aprendizes, Companheiros e Mestres; o Templo Maçônico é sustentado por Três Colunas: Sabedoria, Força e Beleza; a divisa da Ordem é composta pelos conceitos virtuosos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, guardando um dos seus mais significativos Símbolos – o Triângulo.


3.4. QUARTA PERGUNTA

A resposta ao presente questionamento diz respeito à saudação do Venerável Mestre da Loja do visitante ao Venerável Mestre da Loja visitada, logo, uma saudação de Mestre Maçom para Mestre Maçom, cuja compreensão exata ainda está além do presente trabalho.

No entanto, novamente temos a Tríade na resposta ao questionamento realizado. Desde a Iniciação, o Aprendiz deve observar o emprego contínuo do Número 3, e a este estar sempre relacionado, pois, ritualisticamente: sua idade é 3 anos; para sua aceitação percorre “Três Viagens”; o anúncio em Loja se faz por “Três Pancadas à Porta”; adentrando ao Templo “Marcha por Três Passos”; a Maçonaria orienta-se principalmente pelas Três Primeiras das Artes: a Gramática, a Lógica e a Retórica. Devendo o Aprendiz Maçom deve voltar sua dedicação à primeira, isto é, à Gramática.

3.5. QUINTA PERGUNTA

Mediante a resposta, entende-se que um Maçom deve despreocupar-se de opiniões, de atitudes, de interferências de terceiros e de preconceitos religiosos e sociais, o que podem interferir e desviá-lo do intento visado. O Maçom deve ser justo e verdadeiro em tudo, buscando enaltecer as virtudes, procurar sempre fazer o Bem e praticar a Caridade, e ainda, realizar esforços permanentes quanto à própria melhoria, porque há sempre falhas a corrigir e coisas novas a conquistar.

A Maçonaria deve ser una em prol de um único objetivo, tornar o mundo um lugar melhor para todos, combatendo o que há de errado, de desigual, de ilegal. A transformação deve acontecer inicialmente dentro de cada um de nós, e a partir daí, devemos estendê-la a cada um dos nossos Irmãos, familiares, amigos, à sociedade como um todo, ao mundo.

3.6. SEXTA PERGUNTA

Mais uma vez a Tríade é encontrada na resposta. Trata-se de um desencadeamento de ações diretamente ligadas e imprescindíveis para se traçar uma caminhada harmônica e equilibrada na Maçonaria. Trata-se de Três tarefas fundamentais a serem seguidas.

Inicialmente, deve o Aprendiz “vencer suas paixões”, ou seja, deve ter o controle do seu “Eu”. Pensar e agir com a razão, não se deixando levar por vontades pessoais, por sentimentos passionais, a ponto de afetar seu raciocínio, ações e poder de decisão.

Em seguida, deve o Aprendiz “submeter sua vontade”. Na Maçonaria devemos nos desprender de ideias pré-concebidas, de conceitos formados, sentimentos, de títulos, cargos e demais “acessórios” que acabam por inflar o ego, suscitar a vaidade e que são provenientes do Mundo Profano. A entrada na Maçonaria deve ser entendida como um nascimento, um novo começo, onde não sabemos de nada, estamos sujeitos às suas regras e princípios e ávidos por conhecimento, crescimento e evolução.

E somente a partir daí, é que o Aprendiz estará apto a fazer “novos progressos na Maçonaria”, estará pronto para evoluir como Maçom, como ser humano, como homem, como pessoa, iniciando uma caminhada que se estenderá por toda a sua vida.


3.7. SÉTIMA PERGUNTA

Um desejo aparentemente simples, mas que através do Telhamento percebe-se a grandiosidade que é alcançá-lo. Um simples lugar entre vós, que não é simplesmente ganho, mas sim, merecido, conquistado, uma vez que para assegurá-lo devemos vencer uma das maiores batalhas de todas, que é travada por nós contra nós mesmos, nossos vícios, nossos defeitos, nossas paixões, nossos sentimentos, nossos “penduricalhos” do Mundo Profano e simplesmente entendermos que esse lugar nada mais é do que o recomeço, um nascimento, um ponto de partida.

4. CONCLUSÃO

No decorrer do presente trabalho, podemos refletir sobre o Espírito Maçônico contido no Telhamento. Não se trata, indubitavelmente, de um mero jogo de perguntas e respostas. Na realidade, se trata da essência do que é ser Maçom, do que é necessário para se conseguir um lugar entre os Maçons.

O Telhamento no Grau Aprendiz nos mostra que o Primeiro Grau Aprendiz Maçom é considerado como sendo o alicerce de sua Filosofia Simbólica. Resta claro que o Aprendiz Maçom deve trabalhar para desbastar sua Pedra Bruta e lapidá-la ao longo de sua caminhada maçônica.

Para tal, deve vencer suas Paixões, desvencilhar-se de seus defeitos, criar a sólida fundamentação para sua própria Elevação e contribuir para a reestruturação moral da humanidade, conjunto de providências estas que representam a verdadeira finalidade da Maçonaria para a glória do G∴A∴D∴U∴.


BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

– RITUAL DE APRENDIZ: Rito Escocês Antigo e Aceito – GOB Edição 2009.
– D’ELIA JUNIOR, Raymundo D’Elia. Maçonaria: 100 Instruções de Ap. São Paulo: Madras, 2017. 8 Ed.
– Pílulas Maçônicas n° 61. Trolhar e Telhar. M.’.I.’.Fernando Túllio Colacioppo Sobrinho. CIM 205702.

Sobre o Autor

ARLS Liberdade Acreana, no 2006 Oriente de Rio Branco • GOB/AC

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