Dissue-me um amigo da sua angústia por não acreditar em Deus. Senti que era sin- cero o seu desejo de crer, mas era-lhe di- fícil conceber tal idéia. Ainda agora me pergunto: o que posso fazer? Convencê-lo a crer num Ser Superior ou apoiá-lo na sua descrença?
Comecei por questionar minha própria crença em Deus e, após demorada re exão, fui enumerando o deus que não acredito.

Não creio no deus vingativo. Em criança, buscava, sem sucesso, compreender que deus é esse que me castigaria se eu não fosse obediente ou se abrigas-se pensamentos de raiva, vingança ou qualquer um dos pecados preconizados.

Não creio no deus que aceita sacrifícios corporais e se compraz com nossas dores físicas. Subir degraus de joe- lhos, carregar pesadas pedras na cabeça e imolar-se para agradar um ser que se rejubila com nossas mazelas físicas. Não creio no deus guerreiro que incita seus éis a travarem sangrentas guerras contra todos os in éis. Não creio no deus mercador que sempre nos ofe- rece uma recompensa em troca do bem que pratica- mos. A recompensa pelo bem praticado, creio, deve ser o próprio ato. Não creio no deus que os homens zeram à sua imagem e semelhança e atribuíram-lhe todas as ca- racterísticas humanas. Creio, sim, num Ser Superior a tudo isso. Fui educado num lar católico onde se rezava o Terço todos os dias. Aprendi as orações por força do há- bito e me acostumei a rezar maquinalmente até desco- brir que eu nunca houvera feito uma oração de verdade.

Aconteceu quando eu tinha 35 anos, numa manhã de início de inverno. O dia começava a despontar e agradáveis sons invadiam suavemente o quarto: um galo distante, sabiás e pardais cantavam nas árvores do quintal e um grilo repetia a mesma nota. A minha companheira já havia levantado e preparava-se para ir trabalhar. Ela abriu a janela do quarto e deixou que a claridade do dia e os sons da manhã fossem tam- bém me despertando. Permaneci deitado, ouvindo também o som da água do chuveiro que caía sobre o corpo de minha amada e o seu cantarolar alegre e envolvente. Terminado o banho, vestiu-se, pôs um perfume suave que deixou um cheiro agradável no ar. Beijou-me e saiu feliz para o trabalho.

Continuei deitado, olhando pela janela a laranjeira orada que exalava um odor inconfundível. Via tam- bém o cajueiro imponente no quintal. Meus sentidos se aguçaram nesse instante. A visão das árvores; a audição dos sons dos pássaros, do grilo e do galo; o olfato dos odores suaves que inundavam o ar; o gosto do beijo de despedida da companheira e a sensação de suavidade ao toque de minha cama macia. Senti-me feliz, como nunca houvera sentido na vida, dessa fe- licidade que principia no plexo solar e se espalha pelo corpo todo. Senti-me, então, grato pela companhei- ra amada; pelo quarto aconchegante; pela laranjeira, pelo cajueiro, por todas as árvores do mundo; grato pelo galo, pelos pássaros, pelo sol e por tudo que foi criado. Sentia-me parte daquilo tudo e imensamente feliz pelo tempo presente. Lembrei-me do Creador e só pude dizer baixinho, voz quase sumindo: “obri- gado”. Repeti novamente “obrigado” e uma onda de paz, de serenidade e de pertencimento cresceu dentro de mim. Disse, por m, “obrigado” e senti que lágrimas tépidas escorriam pelo meu rosto. Foi a primeira prece verdadeira que z na minha vida. Acredito que, naquele dia, cheguei mais perto do Mistério.

Faço coro com Santo Agostinho – que é o mes- mo nome de meu pai – quando ele diz: “creio por ser absurdo”. A experiência do Mistério, por mais que tentemos descrevê-la, continuará inefável.
Ao meu amigo, sincero nas suas dúvidas, só posso dizer-lhe uma coisa: ame.

Sobre o Autor

ARLS Caridade II nº 0135 GOB/PI Oriente de Teresina

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